Ana Cristina Silva Abreu

Ana Cristina Silva Abreu

Patrono: Herculano Pires
Cadeira 12


BIOGRAFIA

Possui graduação em Comunicação Social na Universidade Metodista de São Paulo, onde foi premiada com o projeto “Marketing entre Culturas” no Prêmio Talento Metodista 2005, e no Prêmio Destaque FAPPT/Metodista 2006.

Cursou, ainda, Letras pela Universidade Metropolitana de Santos e especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de Educação São Luís de Jaboticabal e em Alfabetização pelo Centro Universitário UNISEB Interativo, apresentando artigos referentes à literatura infantil.  

Trabalha como Técnico Judiciário na Justiça Federal. Paralelamente, participa de eventos literários, como oficinas de contos, projetos escolares e feiras do livro. 

Conquistou o 2º lugar no Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil 2010 com a obra “O Coelho sem Cartola”, o 1º lugar no Concurso Internacional de Literatura 2011, da União Brasileira de Escritores, com a obra “Mas… E o Zero?” e o 5º lugar no 1º Prêmio Cuore de Literatura Infantil 2012, com a obra “O Colecionador de Palavras”, em coautoria.

Email: niznicris@gmail.com


BIBLIOGRAFIA

O Coelho sem Cartola, 2011 Editora Cepe

Mas… E o Zero?, 2012 Editora All Print

O Colecionador de Palavras, em coautoria com marina Emmanuele Garcia, 2014 Editora Cuore


Pronunciamento de apresentação de Ana Cristina Silva Abreu na Academia de Letras da Grande São Paulo, proferida pelo Acadêmico Domingo Glenir Santarnecchi.

Ilustríssima Acadêmica Maria Zulema Cebrian, Digníssima Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo
Dr. José Roberto Xavier, Vice-Presidente desta Academia
Celso de Almeida Cini, Secretário deste Sodalício
Caríssimas confreiras, caríssimos confrades  
Senhoras e Senhores

Ana Cristina Silva Abreu nasceu em 15 de março de 1984 na cidade de Ourinhos, interior de São Paulo. Ainda sem saber ler ou escrever, ditava para a mãe as histórias que inventava. Histórias estas que se multiplicariam ao ser alfabetizada e ganhariam a companhia de coloridas ilustrações.

Mudou-se aos 7 anos para Santo André, na Grande São Paulo, onde vive atualmente. O imenso interesse pela leitura sempre se fez presente e, paralelamente, praticou kung fu, estudou piano e aventurou-se pela pintura e pelo desenho. Mas sua paixão sempre foi a palavra escrita, o que lhe garantiu bons resultados em alguns concursos literários escolares. 

Cursou Comunicação Social – Publicidade e Propaganda na Universidade Metodista de São Paulo, onde foi premiada com o projeto Marketing entre Culturas em 1º lugar no Prêmio Talento Metodista 2005, categoria Melhor Monografia e no Prêmio Destaque FAPPT/Metodista 2006.

Cursou, ainda, Letras pela Unimes – Universidade Metropolitana de Santos, onde o contato com a literatura portuguesa fez surgir grande apreço pelas cantigas trovadorescas, tema escolhido para o trabalho de conclusão de curso.

Especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de Educação São Luís de Jaboticabal e em Alfabetização pelo Centro Universitário UNISEB Interativo, apresentando artigos referentes à literatura infantil.  

Conquistou o 2º lugar no Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil 2010, Categoria Infantil, com a obra O Coelho sem Cartola, publicada pela editora Cepe em 2011; o 1º lugar no Concurso Internacional de Literatura 2011, da União Brasileira de Escritores – RJ, Categoria Infantil, com a obra Mas… E o Zero?, publicada pela Editora All Print em 2012; e o 5º lugar no 1º Prêmio Cuore de Literatura Infantil e Infantojuvenil, 2012, com a obra O Colecionador de Palavras, em coautoria, publicado pela Editora Cuore em 2014.

Desde 2008 trabalha como Técnico Judiciário na Justiça Federal de 1º Grau em São Paulo, tendo atuado em fóruns federais em São Paulo, Mauá e, atualmente, em Santo André. Paralelamente, participa de eventos literários, como oficinas de contos, projetos escolares e feiras do livro. 

Balanceando a vida de servidora pública, escritora nas horas vagas e desenhista nas horas mais vagas ainda, sonha, como sonham todos os aspirantes a best-sellers, em um dia escrever em tempo integral e com dedicação exclusiva. 

Possui interesses que serpenteiam entre as artes marciais, trilhas e caminhadas em montanha, estudo de idiomas (inglês e japonês), leitura sobre diferentes culturas e a arte em geral. Sustenta, ainda, inata admiração pelas ciências e procura refletir em suas obras esta miscelânea, por acreditar que o ser humano apenas pode ser livre de fato quando conhecedor das inúmeras facetas do mundo que o cerca, ainda que não possa tornar-se mestre de tudo.

Domingo Glenir Santarnecchi
Cadeira 31 – Patrono Gonçalves Dias


Pronunciamento de Posse de Ana Cristina Silva Abreu à Academia de Letras da Grande São Paulo, em 9 de Junho de 2016, na Cadeira 12, Patrono Herculano Pires.

Ilustríssima Acadêmica Senhora Maria Zulema Cebrian, digníssima Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo,
Digníssimas autoridades presentes,

Digníssimos escritores e Acadêmicos presentes,
Senhoras e Senhores.

Minhas primeiras palavras nesta noite não poderiam ser outras que não de agradecimento a todos os presentes e, em especial aos membros desta casa e à comissão que, tendo avaliado minhas poucas obras até agora publicadas, protestou pelo meu ingresso a tão prestigiada agremiação.

Quando, há cerca de dois anos, fiz minha primeira visita a esta Academia, tinha meus dois primeiros livros nas mãos, um convite para o lançamento do terceiro, e um tremendo receio sobre como tal visita seria interpretada. Tal sentimento desfez-se de imediato numa calorosa recepção. Conversei com a então Presidente, Senhora Gioconda Labecca, entreguei-lhe meus livros, expus meu desejo de ingressar para a Academia e aguardei. Confesso que aguardei sem tantas esperanças, por conta de minha enxuta obra, de minha pouca idade, por não conhecer os agora colegas senão por nome, por não ter entre eles quem me apresentasse.

Conhecia a Academia pelas mídias digitais, pelos concursos literários promovidos, pelo trabalho de seus membros. Mas ela ainda me parecia um sonho distante. Tão distante que aguardei como se nada houvesse para aguardar. O que me parece ter sido uma sábia atitude, pois proporcionou-me tão grande satisfação receber aquele correio eletrônico dando conta de minha aprovação, assim como um presente surpresa que transforma um dia comum em especial.

Deste modo recebi a oportunidade de aqui estar nesta noite. Reunir-me com os senhores sob a égide desta Academia por compartilharmos de um desejo e uma vocação: contar histórias. Cada qual em uma área, com especificidades próprias. Mas todos contamos histórias. Assim, gostaria agora de, justamente, contar uma bela história, a de um menino que saiu do interior de São Paulo para inscrever seu nome na memória do tempo.

Nascido em Avaré aos 25 de setembro de 1.914, José Herculano Pires publicou sua primeira obra aos 16 anos, um livro de contos intitulado Sonhos Azuis. O livrinho fora composto por ele próprio; à noite, após o expediente na tipografia onde trabalhava, imprimia as composições que, mais tarde, definiu como “de uma ingenuidade adolescente”. Mas foi o suficiente para que se tornasse o “menino escritor” na região sorocabana. Apenas dois anos depois foi a vez de aventurar-se pela poesia em Coração.

A precocidade na arte do texto escrito coincidia com profundos questionamentos íntimos que culminariam na formação em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Estudo coroado pela tese existencialista O Ser e a Serenidade, na qual o autor nos presenteia com uma singela explicação sobre o tema: “A serenidade baixa do céu sobre os homens. Mas, às vezes, serpeia docemente aos nossos pés, na cantiga de córrego, ou adormece em reflexos aos nossos olhos, na face de um lago”.

Enquanto crescia como homem e escritor, pôs a vida ao seu lado uma devotada companheira, Maria Virgínia, com quem teria quatro filhos: Herculano, Helena, Heloísa e Helenilda.

Tornou-se jornalista, redator, cronista parlamentar e crítico literário. Mergulhou sem pudores nas águas profundas da filosofia, da ciência, da educação e da religião, especialmente no tocante ao movimento espírita, o que inevitavelmente se refletiu numa produção literária invejável.

Foram 16 dissertações doutrinárias; 5 obras em ciência e parapsicologia; 3 em psicologia; 20 em filosofia, inclusive espírita; 15 livros de ficção; 4 de ficção científica; 6 crônicas e ensaios; 9 obras poéticas, entre outros. Seu primeiro romance, O Caminho do Meio, veio a público em 1.946.

Apesar da origem católica, por vinte anos manteve uma coluna espírita sob o pseudônimo Irmão Saulo, estudando e debatendo a imortalidade e a evolução espiritual. E realmente debateu. Confrontou tanto opiniões daqueles que o ridicularizavam como daqueles que defendiam cegamente as crenças que ele próprio professava. Assim, no livro O Homem Novo, afirma que se por um lado “A vida perde o seu sentido, a sua significação, a sua razão de ser, quando o homem se afasta da compreensão espiritual, buscando no mundo material a única explicação das coisas”, por outro, “O homem que crê sem indagar, sem compreender nem querer compreender, apegado a crenças que lhe impuseram através da tradição, está sujeito às mesmas dolorosas surpresas daquele que não crê”. O amor só tem sentido e lugar amparado na verdade.

Diretor da União Brasileira de Escritores e vice-presidente do Sindicato dos Escritores de São Paulo. Presidente do Instituto Paulista de Parapsicologia, atuou ainda como tradutor e conferencista. As palavras do menino do interior alcançaram ouvidos por diversas cidades e imortalizaram-se em centenas de página. Por isso, entre tantas homenagens, é patrono da cadeira 12 desta Academia.

Portanto, venho hoje pedir-lhe de empréstimo, diante de tão seleta plateia, essa mesma cadeira para ser ocupada por esta contadora de histórias, que é também uma menina do interior; e que pretende seguir seus passos não apenas pelas estradas de São Paulo, mas pelos caminhos insondáveis da literatura.

Escrevemos temas diferentes. Ele com suas teses, eu com meus contos de fadas… Mas bebemos da inspiração na mesma fonte, aquela inesgotável essência que nos diferencia das outras espécies, tornando-nos humanos: o poder do questionamento e da criação, depositado em cada um de nós.

Meu escritor favorito, Jostein Gaarder, descreve um peculiar extrato, ao qual nomeia bebida púrpura, capaz de, num único gole, fazer quem dela prova sentir todos os sabores do mundo em todo o seu corpo e ao mesmo tempo. Esta, para mim, é a definição do “criar”. Nosso trabalho consiste em verter todos aqueles sabores às páginas de modo que nossos leitores provem o mundo gole por gole, linha por linha.

Penso que exercer tal ofício, ao lado destes novos amigos que hoje aqui me recebem, tornará minha jornada muito mais proveitosa, engrandecida e, por que não, mais feliz.

Obrigada, Senhora Presidente, colegas acadêmicos, por me proporcionarem um momento tão emocionante.

Obrigada à minha família e a todos que prestigiam este significativo encontro.

Obrigada.

Ana Cristina Silva Abreu
Cadeira 12 – Herculano Pires


Quando Papai Noel Perdeu as Botas

Era véspera do dia mais esperado do ano e as casas enchiam-se de luz. Árvores enfeitadas, meias coloridas e sapatinhos nas janelas. As ruas, agitadas, testemunhavam passos apressados que transportavam sacolas e pacotes.

Enquanto isso, lá longe, lá ao norte, lá onde tudo é brancura da neve, o velho Noel abarrotava um trenó com pacotes de todos os tamanhos. As renas recebiam uma alimentação reforçada para suportar o desgaste da viagem e os duendes aprontavam os últimos brinquedos na fábrica.

Quando chegou a hora, a mesma hora em que, todos os anos, aquela cena se repetia, Noel agradeceu o empenho de todos, conferiu se não havia restado alguma cartinha por ler e foi vestir seu pesado casaco vermelho. Cuidou de colocar meias grossas e a touca na cabeça para proteger-se do frio das alturas. Foi até a cozinha tomar um chocolate quente e comer uns biscoitos feitos pela esposa antes de caminhar até a sala.

Já quase pronto para a partida, tirou as pantufas que usava para ficar em casa e procurou as botas pretas de couro que estavam junto à porta. Ou, pelo menos, deveriam estar!

Noel olhou para os lados, circulou pela sala, procurou nos quartos e nada!

“Onde estão minhas botas?” Perguntava à esposa, aos duendes, às renas.

Mas ninguém sabia responder. E os minutos foram passando, a noite foi chegando e a escuridão se acumulando.

“Papai Noel perdeu as botas!”

A notícia corria de boca em boca no Polo Norte. Foram procurar na lavanderia, na sapateira, no armário das tranqueiras que ninguém usa mais, sob a cama, sobre o guarda-roupas. Nada! As renas, já atreladas ao trenó, impacientaram-se. Os presentes congelavam sob uma espessa camada de neve e os duendes roíam as unhas, atemorizados.

“O que será do Natal?” Ecoavam as vozes nas mentes de todos.

“Não posso sair sem minhas botas! Meus pés vão congelar!” Repetia Noel.

“Use as minhas botas.” Sugeriu um dos duendes.

Mas bota nenhuma ali seria suficientemente grande para servir nos pés do bom velhinho.

“Use suas pantufas!” Sugeriu Mamãe Noel.

Mas ele ficou ridículo com sua roupa tradicional e aqueles ursinhos de pelúcia nos pés.

“Não posso sair assim! Todos conhecem o Papai Noel com suas belas botas pretas. Onde estarão minhas botas?”

Noel sentou-se na soleira da porta e cobriu o rosto com as mãos, como se assim pudesse impedir o choro de escapar dos olhos. Tudo no Polo Norte era silêncio.

E não somente lá. Nas casas de todo o mundo as pessoas olhavam para suas Árvores de Natal sem saber que dizer. As crianças procuravam em vão seus presentes, mas ninguém havia deixado algo sob as árvores. Nem os presentes caros das crianças ricas enfeitados com belas fitas, nem os presentes simples dar crianças pobres também enfeitados com fitas.

As meias, os sapatinhos vazios, ninguém entrou pela chaminé nem bateu à porta com um enorme saco vermelho cheio de surpresas. Meninos e meninas olhavam para o céu e não viam renas e um trenó cruzando o manto escuro da noite, ninguém gritava “Ho-Ho-Ho”.

Foi então que aconteceu. Dizem que foi um garotinho de cabelos negros cacheados como um anjo. Ele olhou para a árvore sem presentes. El olhou mais um pouco. E arregalou os olhos o mais que pôde.

“Mamãe, por que há uma estrela no topo da nossa árvore?”

A mãe olhou para o menino, espantada. Depois, olhou para a árvore.

“Nós a colocamos ali todos os anos.”

“Mas… Por quê?” Ele insistiu.

“Porque é a estrela que guiou os três reis magos até a manjedoura.”

“Manjedoura?”

A mãe calou-se por alguns segundos, olhou ao redor. A família toda observava a conversa e um clima de tensão tomou o lugar. Dentro da casa simplesmente não havia o que ela gostaria de mostrar ao filho. Caminhou até a janela e observou as casas vizinhas. Nada!

Aí lembrou-se. Apanhou o filho pela mão e saiu para a rua iluminada e enfeitada para o Papai Noel. A família toda, curiosa, seguiu-os. Caminharam até uma igreja ali perto. À frente do templo, um singelo presépio havia sido montado.

“Ali!” Apontou a mãe. “A manjedoura onde nasceu o menino Jesus.”

Ela começou a explicar ao filho que o rei dos reis havia nascido num lugar humilde para nos ensinar que os verdadeiros tesouros não pertencem a este mundo. Contou como José e Maia viajaram de Nazaré a Belém, como os reis magos os encontraram e porque o dia 25 de dezembro é o dia mais especial do ano.

Logo a notícia se espalhou. Começou com uma família que morava perto da igreja e, vendo a movimentação, foi perguntar do que se tratava. Depois outras famílias e pessoas solitárias e velhos casais e moradores de rua se aproximaram. Um foi contando ao outro e a cidade toda se reuniu, interessada na novidade.

Graças ao telefone e à internet, pessoas de outras cidades também receberam a notícia que, aos poucos, tomou conta do país.

Logo ninguém mais se lembrava de presentes, renas e trenós e o mundo todo brindava o aniversariante. A novidade se espalhou tanto que chegou ao Polo Norte e um duende correu até Noel, agitado.

“O senhor não vai acreditar no que está acontecendo! Ninguém ficou bravo pelos presentes que não chegaram. Eles estão sorrindo e abraçando uns aos outros e cantando ‘Parabéns a você’ para o menino Jesus!”

Noel levantou o rosto, seus olhos brilhavam. Um sorriso discreto encheu seus lábios.

“Finalmente eles compreenderam!”

“Compreenderam o quê?” Indagou o duende.

“Que o presentes nunca foram para eles. Eram para Jesus.”

O duende coçou a cabeça, confuso.

“Mas, se os presentes são para Jesus, então por que o senhor os entrega em todos os lares do mundo?”

Noel sorriu novamente.

“Porque ele disse que, onde dois ou mais se reunissem em seu nome, lá ele estaria. E, nesta noite, ele está em todos os lares. Finalmente.”

Ana Cristina Silva Abreu