Ana Stoppa

Ana StoppaPatrono: Rinaldo Gissoni
Cadeira 09


BIOGRAFIA

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BIBLIOGRAFIA

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Pronunciamento de Apresentação de Ana Maria Stoppa na sessão de Posse da Academia de Letras da Grande São Paulo proferida pelo Acadêmico João Bosco dos Santos.

Senhoras e Senhores,

Nesta noite iluminada, em que aqui estamos reunidos, sob a proteção do Criador, peço vênia para, preliminarmente, fazer um breve introito para recepcionarmos mais uma notável construtora de textos literários, uma obreira da literatura.

E começo indagando: o que é literatura?

Sem incorrer no primarismo de sugerir ou declinar uma definição para o termo, aproprio-me da afirmação de Roseana Baracat Nunes de Souza Figueiredo, da Universidade de São Paulo: A literatura é um discurso “não programático”, que não tem nenhuma finalidade prática imediata, referindo-se apenas a um estado geral de coisas. Ela pode dar diferentes enfoques a diferentes temas e usar uma linguagem autor referencial, uma linguagem que fale de si mesma. Com efeito, deve-se compreender que todo aquele que se dedica ao ofício de produzir literatura, deve ter em mente que a literatura tem um poder maior que o espaço, mais forte que o tempo, ela guarda ações e reações humanas capazes de influenciar gerações, movimentar massas e transformar consciências. Não é sem razão que se costuma afirmar que as obras literárias são, em grande medida, reescritos daquilo que é lido pelas sociedades. São inúmeras as obras literárias, pelo menos no âmbito da Língua Portuguesa, que contemplam juízos de valor predominantes nas sociedades, observados pelos seus autores, que os transferem aos seus personagens ficcionais criados. A literatura pode e deve ser vista como essencial para a formação do processo e da disseminação do conhecimento. 

Quando falamos de literatura, especificamente no nosso caso, estamos nos referindo à produção de textos literários, ou seja, uma construção textual de acordo com as normas da literatura, com objetivos e características próprias, como linguagem elaborada de forma a causar emoções no leitor. Os textos literários são aqueles que possuem função estética, destinam-se ao entretenimento, ao belo, à arte, à ficção. Mas há que se considerar que existem, também, textos não-literários. Devido às limitações do tempo, que nos impedem de avançar um pouco mais nesses conceitos, limitar-me-ei a algumas citações sobre duas modalidades do texto literário: a literatura infantil e o poema. 

No dizer de Sueli de Souza Cagnetti, em Livro Que Te Quero Livre, a literatura infantil é arte, fenômeno de criatividade que representa o Mundo, o Homem, a Vida, através da palavra. Funde os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real; os ideais e sua possível/impossível realização. Muito se escreveu sobre esse tema e alguns autores consideram que é a literatura que se preocupa com histórias para crianças, sendo forma literária voltada para a psique infantil, com vocabulário adequado ao conhecimento e à compreensão da criança. Outros inferem que a literatura infantil pode ser comparada com a própria alimentação destinada à criança e que ela proporciona nutrientes imprescindíveis para a sua formação intelectual. Historicamente, sabe-se que a literatura infantil surgiu, de fato, na França, na segunda metade do séc. XVIII, durante a monarquia absoluta de Luís XIV, cognominado o Rei Sol. Vale recordar que a literatura infantil brasileira surgiu tempos depois, e foi somente com a implantação da Imprensa Régia, em 1808, que começaram a serem publicados os primeiros livros para crianças no Brasil. Diversos autores incursionaram pela literatura infantil, mas deve-se creditar a Monteiro Lobato a real transformação da mesma. Para Nelly Novaes Coelho,A Monteiro Lobato coube a fortuna de ser, na área da literatura infantil e juvenil, o divisor de águas que separa o Brasil de ontem e o Brasil de hoje…

A outra modalidade de literatura à qual quero me referir é o poema, um gênero lírico muito confundido com a poesia. Não obstante, vale salientar que a poesia é um elemento maior que a estrutura textual e nem sempre está relacionada apenas com o poema. A poesia pode estar presente nas mais diversas manifestações artísticas, não sendo, pois, uma exclusividade da literatura. Mas o poema sim! Numa conceituação mais apropriada, diz-se que o poema é um gênero textual que apresenta características bem peculiares, que as identificam. Nunca é demais repetir que destas características sobressaem-se os versos, a musicalidade, a repetição e o emprego de metáforas.

E quanto ao poeta? Ele é o criador, o artífice das palavras que usa a imaginação como matéria-prima. A propósito, Vinícius de Moraes, um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea escreveu:

(…) O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica no mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros em relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos (…)

Minhas senhoras e meus senhores aqui presentes.

Quando Rachel de Queiroz, notável escritora cearense, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira Letras, declarou que entrava na Academia não por ser mulher, mas por ser escritora, estava plena de razão. Do mesmo modo, a pessoa que, a partir de hoje, ocupará uma das cadeiras deste silogeu, o fará mercê do seu trabalho como escritora.

Estou me referindo à escritora de livros infantis e poeta ANA MARIA STOPPA, ou Ana Stoppa, como assina suas obras. Desde a mais tenra idade Ana Stoppa manifestou interesse pelos livros e ainda que não soubesse ler, pedia para que o avô paterno o fizesse e lesse várias vezes os livros de uma antiga enciclopédia. Quando desenvolveu, aos oito anos de idade, a capacidade da leitura, devorou, até a saciedade, o primeiro livro infantil que ganhou da sua mãe, A Rainha da Neve, de Hans Christian Andersen, sobrevindo dessa época o gosto pelos livros e pela escrita. Aos treze anos deu vazão à sua criatividade e escreveu sua primeira crônica. Já adolescente, deleitava-se com a leitura de autores como Vicente de Carvalho, J.G. de Araújo Jorge, Mário Quintana, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa e outros. A leitura a incentivou a enveredar pelos caminhos da imaginação criativa e passou, então, a escrever poemas, inspirada, ainda mais, pelos filhos pequenos. Em 1989, seu primeiro livro, Diagnóstico, foi lançado pelo Rotary Club São Caetano do Sul-Leste, com renda destinada a fins humanitários.

Formada em Direito, passou a exercer a advocacia a partir de 1991. Como ela mesmo se define, é advogada por vocação, ecologista de corpo e alma, mãe e avó integral e incansável incentivadora da leitura.

Carrego em meu baú de lembranças, as fantasias vivenciadas, quando criança, ao ler o primeiro livro infantil, ou ouvir as histórias que o meu avô paterno contava, as que os meus valorosos professores do antigo curso primário compartilhavam – é desse modo que Ana Stoppa justifica o seu enveredamento pela literatura infantil. O Navegador dos Sonhos, de 1989, seu primeiro livro direcionado às crianças, foi contemplado com a primeira colocação em concurso literário promovido pela Secretaria de Educação e Cultura de Barueri, São Paulo. Outros se sucederam e, tal qual Monteiro Lobato, que também era formado em Direito, logrou solidificar a sua carreira de escritora de livros infantis, abordando temas tão diversificados como Meio Ambiente, Ética, Disciplina, Alimentação Saudável, Esporte, Autoestima e outros de real interesse. Humanista por excelência, Ana Stoppa, com o seu esforço pessoal, participa de um projeto de incentivo à leitura, criado em 2012, tendo distribuído cerca de 45.000 livros, em vários estados brasileiros, bem como em Portugal, Itália, Angola e Moçambique, com a colaboração de seletos parceiros. Dona de uma produção considerável agrega ao seu portfólio nada menos do que onze títulos de literatura infantil, já publicados, e um dedicado ao público leitor infanto-juvenil. Ainda no decorrer deste ano, serão lançados mais três livros em língua portuguesa e um em italiano. Todos destinados ao público infantil. Ana Stoppa publicou, igualmente, quatro livros de poemas, sendo dois em português e dois bilíngues (português-italiano). E no próximo mês de setembro, de 2017, mais uma obra poética da sua lavra será lançada na Itália. Como se observa, a escritora Ana Stoppa é uma incansável produtora de literatura. Um pequeno excerto do seu poema Esperança e Fé nos dá a real dimensão do seu grau de humanismo:

Nada quero, sinto a paz, sinto a tua luz,
Peço pelas mães que perderam seus filhos,
Pelos idosos depositados em frios asilos,
Pelo irmão que atravessa a prova da doença,
Por aquele que de tanto sofrer perdeu a crença
Nada almejo, pois, a fé sustenta os meus desejos

Falar de e sobre a escritora Ana Stoppa demandaria muitas horas. Farei, desse modo, um breve resumo, com a sua permissão, do seu histórico de vida.

Ana Maria Stoppa é natural de Santo André, São Paulo e detentora de dupla cidadania, é ítalo-brasileira. É Cidadã Honorária do Município de Mauá, desde 2013. Advogada atuante, é Diretora de Ação Social 2016-2018, da Ordem dos Advogados do Brasil, 38ª Subseção, Santo André, SP. É portadora de várias comendas oficiais, dentre elas a Medalha do Mérito Comunitário Tobias de Aguiar, que lhe foi outorgada pela Diretoria de Polícia Comunitária e de Direitos Humanos, da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Recebeu o Prêmio Excelência Mulher 2014, conferido pelo CIESP Distrital Sul e Fraternidade Aliança Aca Laurência, dentre outros de igual significação.

No campo das Artes e da Literatura, Ana Stoppa é membro da ANLPPB – Academia Nacional de Letras Portal do Poeta Brasileiro, sediada em Campinas, SP, onde ocupa a Cadeira nº 2; Vice-Presidente Internacional da Academia Literária ALPAS21, de Cruz Alta, RS, sendo titular da Cadeira nº 13, deste sodalício; Chanceler do Brasil para a Itália, da Academia Nacional de Artes, Ciência e Letras de Iguaba Grande, RJ.

São inúmeras as premiações recebidas como reconhecimento ao seu trabalho desenvolvido, no Brasil e na Itália, não só no campo da literatura infantil, mas também no da poesia. Cito, dentre eles, o Premio Internazionale de Literatura Infantil e Poesia Maestro Egidio Cofano, em Martina Franca, Itália, 2014; no mesmo ano, recebeu, também, o Prêmio Ponte Entre os Povos, na mesma cidade italiana. Foi eleita Presidente Honorária Brasil-Itália, pela Associazione Culturale Poiesis, de Taranto, Itália, 2016.

Desde 1989, Ana Stoppa vem publicando os seus livros – dezenove ao todo – muitos deles vertidos para o idioma italiano e distribuídos na Itália, onde obtiveram o justo reconhecimento. No Brasil, tem percorrido vários estados e desenvolvido ações visando incentivar a leitura, em inúmeras escolas infantis, com a distribuição gratuita de milhares de exemplares de seus livros. Quero ressaltar que todos os recursos destinados à edição de seus livros e realização dessas atividades advém do seu trabalho como advogada atuante. Ana Stoppa é uma realizadora que acredita no que faz e faz aquilo em que acredita.

Assim sendo, ao tomar assento na Cadeira nº 9, da Academia de Letras da Grande São Paulo, que tem como Patrono o escritor e poeta Rinaldo Gissoni, fundador deste sodalício, a escritora e poeta Ana Maria Stoppa estará contribuindo para o engrandecimento do silogeu, dada a relevância da sua produção literária.

Seja bem vinda a esta casa, pro bono et bello, escritora Ana Maria Stoppa!

João Bosco
Cadeira 28 – Patrono Catulo da Paixão Cearense


Pronunciamento de Posse de Ana Maria Stoppa à Academia de Letras da Grande São Paulo, em 20 de Julho de 2017, na Cadeira nº 09 – Patrono Rinaldo Gissoni.

Excelentíssima Acadêmica Senhora Maria Zulema Cebrian, ilustre Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo.
Excelentíssimo Sr. João Bosco Santos, amigo de longa data, de quem recebi o honroso convite para fazer parte desta Academia de Letras, padrinho e ilustre apresentador.
Digníssimo Secretário de Cultura João Manoel da Costa Neto.
Nobres Acadêmicos, Autoridades, Caros Amigos, Inestimáveis Colaboradores.
Querida Família, Senhoras e Senhores.

É uma honra poder, nesta data, ingressar na Academia de Letras da Grande São Paulo, como membro titular de sua Cadeira nº 9, que tem como patrono o seu fundador, Dr. Rinaldo Gissoni.

Por esta razão, invoco a proteção do grande Arquiteto do Universo para que consagre este momento em que a literatura nos une.  Movida pelo espírito da solidariedade, pela felicidade, imensa gratidão e o amor fraternal que nos aproxima, agradeço a presença de minha amada família, dos queridos amigos e a todos, que de alguma forma contribuíram para a realização deste momento.

Ao poeta e Acadêmico João Bosco Santos a quem tenho a honra de ter como padrinho nesta memorável solenidade.

Aos educadores por sua impagável importância na formação do processo educacional das vidas que se reciclam.

 Aos que hoje habitam a morada eterna, mas que através de suas trajetórias, postura e obras, deixaram suas marcas nesta breve estrada chamada vida, aos meus saudosos pais, Delphino Stoppa e Aparecida Bonfanti Stoppa, ao Patrono e fundador desta valorosa Academia, Dr. Rinaldo Gissoni.

Feliz aquele que encontrou a Sabedoria, e que alcançou grande prudência, ganhá-la vale mais do que negociar a prata e seu fruto, mais que o ouro fino.  Ela é mais preciosa do que todas as pedrarias e tudo o que aprecias não se compara com ela. Em sua mão direita, longos anos; em sua mão esquerda, riquezas e glória!  Os seus caminhos são belos e todas as suas veredas são de paz.  Árvore da vida é ela para os que a abraçam, e é feliz aquele que a conserva.  O Senhor alicerçou a terra com a Sabedoria e firmou os céus com a prudência. Por sua Sabedoria irromperam os abismos e as nuvens destilam o orvalho. Provérbios 13-20.

 O insigne médico-veterinário, advogado, arquiteto, contista, romancista e poeta Rinaldo Gissoni, nasceu em São Paulo, Capital, em 15 de abril de 1916, filho do médico-veterinário e arquiteto Mário Gissoni e de Filomena Gissoni. Faleceu em seis de novembro de 2010, em Santo André, São Paulo, aos 94 anos de idade.

Na época em que era estudante, foi despertado pela magia das letras. Apaixonou-se pelas palavras, fundou dois periódicos ─ o primeiro de caráter eminentemente literário ─ O Futurista, o segundo, de caráter científico, com o título de Veterinário.  No mesmo período fundou o Centro Literário Joaquim Queiroz Filho.

Um homem à frente de seu tempo Gissoni, nos anos 60 liderou um grupo de escritores, poetas e intelectuais da região, mostrando-lhes a necessidade e a importância da união de pessoas movidas pelos mesmos ideais a fim de se aprimorar e preservar a arte e a cultura objetivando a construção de um mundo melhor. Em 1970 foi um dos idealizadores da Academia de Letras do Pentágono Industrial Paulista, em São Caetano do Sul, que não chegou a ser inaugurada.  No ano de 1963 liderou a fundação da Academia de Letras da Região do ABC, extinta em 1980. Consciente quanto a importância de a região do Grande ABC contar com uma Academia de Letras, Rinaldo Gissoni, com o apoio do Dr. Walker da Costa Barbosa e outros literatos da região, aos 11 de agosto de 1981, ano em que se comemorou o primeiro centenário do poeta Gustavo Teixeira, em São Bernardo do Campo, fundou a Academia de Letras da Grande São Paulo — ALGRASP, pungente referência da cultura no cenário literário brasileiro. Em 1988 o poeta transferiu-se para São Caetano do Sul, SP, quando a Academia, assim como seu idealizador foram honrosamente recebidos por serem o marco efetivo de um grande diferencial para a cultura brasileira.

Aos 03 de abril de 1991, através do Decreto n. 767 esta Academia foi reconhecida de “utilidade pública”, quando conquistou sua Sede Oficial no Complexo Educacional do Ensino Fundamental da Cidade.

Rinaldo Gissoni, como seu fundador e Acadêmico, ocupa a cadeira número 01,teve seu nome imortalizado como Patrono da Cadeira nº.9, a qual, na noite de hoje tenho a imensurável felicidade de ocupar através da indicação do também Acadêmico e poeta João Bosco Santos.

Gissoni foi casado com Antonieta Puttini Gissoni, professora, com quem viveu por 67 anos e teve cinco filhos: Maria Guaraciaba Gissoni Fenício, Maria Guaraciema Gissoni Beber, Mário Ubirajara Gissoni, Rinaldo Ubiratan Gissoni e Celso Irapuan  Gissoni, oito netos e cinco bisnetos.

Publicou as obras: Brumas, Irisações Finais, Dimensões Humanas, Pedestal Inacabado, Os Mistérios da Montanha, O Enigma Rosângela, Braços Abertos, O Elemento RAM, Além das Trevas, Teatro do Efêmero e Dons Ocultos.

Dentre as várias e merecidas condecorações que lhe foram outorgadas na brilhante vida literária, registramos O “Colar de  Cunhãbebe ”, as medalhas “João Ramalho” e “ Cristóforo Colombo”.

 O tempo

Tudo é questão de tempo, e tudo ao seu tempo, digo isto porque no final dos anos 80, recebi em minha residência, à época no vizinho Município de Mauá, a visita de Rinaldo Gissoni, nos meses que antecederam a fundação desta honrosa Academia, quando o poeta ícone da cultura de nossa região, procurou-me para apresentar a proposta para me tornar membro da ALGRASP. Na ocasião, época em que os meus ensaios literários eram publicados esporadicamente nos jornais da região, o primeiro livro viria somente em 1989. 

Com a amabilidade que caracteriza os grandes na bondade, e a disciplina que norteia aqueles que se propõem a realizar um trabalho consistente, para que este possa se abrigar sob o manto do respeito e da credibilidade, o mestre explicou-me, que por não ter obras publicadas, não poderia ingressar como Acadêmica.

E o tempo, em cujos compassos bailam as vidas sorridentes, os amores, as tristezas, as glórias e as vitórias, nesta noite me presenteia com o ingresso nesta Academia, Cadeira n. 9, que tem como Patrono Rinaldo Gissoni.

Pondero neste momento, que sob a chuva da esperança e bom caminhar descalço, enfrentar com altivez todos os tipos de percalços, até encontrar a razão, para que a alma compreenda, que não se faz harmonia com remendos do passado.

 Assim no pouco espaço, entre sonhos espaçados, por vezes criamos coragem, mudamos a paisagem, partimos em busca do novo, perdemos o medo do escuro, porque descobrimos as estrelas, a magia da vida, a beleza da natureza, o calor do abraço, o valor da prece, a grandiosidade da família e dos amigos e a importância de construirmos a cada dia nossa breve trajetória. Que possamos seguir como aprendizes em busca da evolução, que invariavelmente habita a simplicidade.

Sob a proteção divina, revisito as páginas do passado, nas imagens e nas lembranças indeléveis armazenadas no imaginário baú de recordações onde a minha inesquecível primeira professora Dona Wilma de Oliveira ocupa um lugar especial.

Aos 8 anos ganhei dos meus pais, o primeiro e único livro infantil ─ A Rainha da Neve, de Hans Cristian Andersen. Aprendi a viajar nos livros até alcançar as estrelas. Preenchi-me de fantasias, aventuras, conhecimento até que pela permissão de Deus pudesse, através dos livros escritos, permitir que outras crianças pudessem vivenciar a mágica e enriquecedora experiência que a leitura nos proporciona.

Nesta noite, desejaria ter nos braços um ramalhete de brancas rosas, perfumadas de gratidão, amor e respeito para entregá-las aos meus pais. Como gostaria que eles estivessem aqui presentes, saudades…

Mas a menina que mora em mim, diz que hoje é dia de festejar a vida, de agradecer a Deus por tudo, a todos os presentes, dia de redescobrir a beleza e o encanto nos barcos de papel que povoam a infância de cada um de nós.

 

Sobre a arte de escrever…

O retorno da leitura é a escrita. Aos 13 anos, escrevi o primeiro texto, uma crônica intitulada Trapézio.  As palavras buscam o escritor, da mesma forma que os rios superam todos os obstáculos para alcançarem o mar. Jamais deixei de abraçar as letras… Vieram as poesias, o primeiro livro em 1989, a literatura infantil.

Aproprio-me neste instante das palavras de Monteiro Lobato, um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX, especialmente no gênero literatura infantil.

Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.

Que todos nós possamos construir um mundo melhor, e muitas moradas para as nossas crianças, assim como para os nossos semelhantes, não somente nos livros, mas através da arte, da cultura, da solidariedade, do respeito, do amor fraternal e da educação, proporcionar-lhes condições dignas para que alcancem odesenvolvimento, a independência o equilíbrio e a paz.

 

A família

A vida nos presenteia com o amor em sua mais sublime dimensão todas as vezes que refletimos sobre o quando somos amados por nossa família, eterno porto seguro no breve e etéreo existir.   Agradeço aos meus pais Delphino e Aparecida, pelos valores morais, éticos e cristãos transmitidos desde os primeiros passos, ensinamentos estes que me seguirão até o fim dos dias, a quem em memória dedico toda a honra desta solenidade. Aos meus amados e sempre presentes irmãos Odair Stoppa e Olinda Stoppa de Sousa e familiares minha eterna gratidão. Aos meus queridos filhos Marcelo, infelizmente nesta data fora do País, Thiago e Pedro Henrique, aqui presentes, reafirmo a felicidade imensurável, por Deus ter-me dado a alegria de ser a mãe de vocês. E saudando amorosamente todas as crianças, agradeço a presença de meu querido neto Enzo. E, neste momento de plena felicidade por estar entre tantas pessoas queridas, não posso deixar de agradecer a você Fabio, presente de Deus no outono do existir, assim como sua amada família aqui presente.

E mesmo ausente, registro minha gratidão, admiração e respeito à Dona Leontina , à senhora sua mãe, com quem tenho aprendido sábias lições de amor e paciência, ao longo dos dias. Agradeço aos Acadêmicos, às autoridades, à imprensa, aos queridos amigos, aos imprescindíveis colaboradores e aos meus amados familiares.


Padrinho

E o que dizer quando alguém sem qualquer interesse, a exemplo do imortal fundador desta Academia, Dr. Rinaldo Gissoni, lhe proporciona a oportunidade ímpar de fazer parte deste seleto grupo de Acadêmicos? Refiro-me ao também Acadêmico, poeta João Bosco Santos, responsável por minha posse nesta noite, a quem saúdo. Serei eternamente grata. Obrigada!

 

Finalizando…

Senhora Presidente, para finalizar meu pronunciamento, compartilho com todos um texto escrito há algum tempo.

Hoje senti saudades…

Hoje senti saudades da sombra da velha ameixeira no quintal dos meus avós, do perfume da dama da noite, do pote de doce de leite, dos canteiros de margaridas, dos lírios alvos, das histórias que o nono Francisco pacientemente me contava enquanto todos os primos brincavam…

Hoje senti saudades das procissões, dos anjinhos de branco, da chama das velas, dos rosários, da cruz, da coroa de Cristo, do domingo de ramos, das aulas do catecismo, das festas no salão paroquial, das missas, dos cantos religiosos…

Hoje senti saudades da única boneca de porcelana, presente recebido de meu pai aos quatro anos…Tão pouco durou pois deixei-a cair no chão logo que a recebi, não teve conserto…

Hoje senti saudades de ouvir minha mãe cantarolando baixinho enquanto preparava o nosso banho. E pensar que já se passaram tantas décadas…

Hoje senti saudades dos meus barcos de papel, das nuvens de algodão doce, do sorvete de creme holandês, do passeio no circo, da quermesse, de andar descalça, de colecionar figurinhas, de brincar de piques, esconde-esconde, de rodas, de pular amarelinha…

Hoje senti saudades do dia de minha primeira comunhão, do alvo vestido, do sorriso dos meus pais, do bolo feito com esmero pela minha saudosa mãe…

Hoje senti saudades da família reunida, dos contadores de causos, de ver meu pai tecendo redes, de admirá-lo quando lia para mim os jornais amanhecidos, de vê-lo chegar do trabalho, de irmos à igreja aos domingos…

Hoje senti saudades do céu rebordado de estrelas, dos milhares de vagalumes, de ouvir o coaxar dos sapos, o canto do sabiá-laranjeira, dos grilos e das cigarras, de ver as joaninhas passeando sobre as folhas…

Hoje eu senti saudades do dia em que ganhei meu primeiro livro, A Rainha da Neve, da pequena caixa com lápis de cor, dos doces vendidos na porta da escola, do canto da Verônica, dos confetes multicores, do banho de chuva, da minha casa caiada de branco, do gorjeio dos bem-te-vis, dos jardins repletos de borboletas, da revoada das andorinhas, das cores do arco-íris.

Hoje senti saudades… Saudades de um tempo chamado infância.

Obrigada a todos!
Deus os abençoe infinitamente!

Ana Stoppa – Cadeira 09