Antonio Roberto de Carvalho

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SÓCIO CORRESPONDENTES


BIOGRAFIA

Nasceu em 02 de Março de 1964 no município de Liberdade, no Estado de Minas Gerais. Sua formação Licenciatura em Letras (incompleto). No colégio onde teve suas primeiras lições, já se destacava pelas excelentes notas em Língua Portuguesa e suas redações sempre se sobressaíam às demais. Sua escrita, onde se destacavam os sonetos, tornou-se conhecida através dos concursos realizados pelo Ateneu Angrense de Letras e Artes, entidade cultural fundada em 1973, por literatos e artistas da histórica cidade fluminense. Em pouco tempo, Roberto, que já colecionava diversas vitórias naqueles concursos, foi indicado para ocupar uma cadeira no Ateneu Angrense, o que ocorreu no ano de 1988. Escreveu como colaborador para vários jornais e, por dois anos, foi redator do jornal comunitário angrense Grande Japuíba. No ano de 2004, Roberto mudou-se para São Paulo, onde foi contratado como assistente editorial da Editora Aliança. Em 2005, participou de um Concurso de Poesia com Temática Espírita e ficou em 1º lugar com o poema Tributo à Vida. A aproximação com a Doutrina Espírita e o conhecimento dos preceitos kardecistas, levaram o poeta a refletir sobre o origem de sua inspiração e, convidado ao trabalho mediúnico, passou a escrever romances com temas doutrinários, onde destaca, principalmente, o amor fraterno, a caridade e o perdão, como base fundamental das relações humanas. Como reconhecimento aos relevantes serviços prestados à cultura angrense, Roberto de Carvalho foi condecorado com as seguintes insígnias: – Medalha do Mérito Cultural Brasil dos Reis, concedida pela Câmara Municipal de Angra dos Reis, e – Comenda Colar de Cunhãbebe – honraria máxima concedida pelo Ateneu Angrense de Letras e Artes a quem se destaca por suas atividades culturais.  Trabalhos realizados e outros informes:      Membro Titular do Ateneu Angrense de Letras e Artes; Membro Correspondente da Academia Guanabarina de Letras; Membro da Comissão Julgadora de Concursos Literários do Ateneu Angrense; Membro do Conselho Editorial da Revista do Ateneu;1º e 2º Secretário Executivo do Ateneu Angrense de Letras e Artes;       Membro da Comissão Julgadora de Concursos Literários Gioconda Labecca; Vencedor de vários Concursos Literários em âmbito nacional; Colaborador de diversos órgãos da imprensa angrense;         Redator do Jornal Comunitário Grande Japuíba (por 2 anos);        Assistente Editorial da Editora Aliança


BIBLIOGRAFIA

Imersão (Sonetos) – 1997;
Transparência (Sonetos) – 2002;
A cabana das Flores(Romance) – 2006;
Alianças de Junco (Romance) – 2007;
Sem o Véu das Ilusões  (Romance) – 2008;
O Cultivador de Sonhos (Juvenil) – 2009;
O Semeador  (Infantil) – 2009;
Na Trilha do Passado (Romance) – 2010;
Escola de Almas        (Romance) – 2010;
O Pequeno Médium (Romance) – 2011;
Cicatrizes na Alma     (Romance) – 2011;
Uma História de Perdão        (Romance) – 2011;
De Ponta Cabeça (Contos) – 2012;
Arquipélago dos Pacíficos (Juvenil) – 2012;
Colhendo Bênçãos (Romance) – 2012;
Celebração (Sonetos e poemas) –      2013.


Pronunciamento de apresentação de Antonio Roberto de Carvalho na sessão de posse da Academia de Letras da Grande São Paulo, proferido pelo Acadêmico e Vice-Presidente Dr. Rinaldo Gissoni

                Diz o adágio popular, que a esperança é a última que morre.

                Quando Alexandre Magno se preparava para seguir rumo a Ásia, e então distribuía entre amigos os seus bens que não levaria nessa longa viagem e de imprevisível retorno, perguntou à Sacerdotisa de Delfos o que reservaria para si. Sem hesitar, ela respondeu: “A esperança, por que a esperança é a última que morre”.

                Através dos tempos, esta virtude teológica tem sido o pedestal de muitas realizações, compreendendo conquistas de possessões ou de subjugações espirituais. Nas suas finalidades, os propósitos de ambos os segmentos têm visado a um fim específico: dominar pela força da mistificação ou persuadir pelo impulso da qualidade.

                De um lado, a técnica de conquistar as multidões — impulsivas, móveis e fascináveis — sujeitando-se os seus caracteres pela exposição de imagens. É o que Jost Merloo quis chamar de Rapto do Espírito. De outro lado, nada mais que a arte de estimular a inteligência pela persuasão da palavra e do pensamento.

                Houve na história da humanidade, um imensurável descalabro, ou, mais precisamente, um apocalipse na hecatombe da explosão da bomba nuclear, que dizimou, num relâmpago, milhares de vidas e bens como se fossem reles migalhas. Lembrando aqueles e também, outros indescritíveis sacrifícios, vigorarão ainda por séculos, impressionantes escuridões: são as vicissitudes traduzidas em descrenças, em desamor, em indiferenças, em banalizações.

                Choremos a morte do espírito!…

                Em cada pronunciamento, em cada pulsar, não haverá somente uma lágrima, porém a majestosa figura de uma metáfora. Que escuridão será essa? Sim… A morte do espírito, por que se daquela hecatombe restou o caos, nesse espaço caótico e glacial, todas as grandezas — raízes, memória, identidade cultural, sentimentos e tudo que expresse valores — tudo foi tragado.

                Quiséramos acender uma luz que contribuísse para iluminar e aquecer as consciências e os corações reféns daquela força que vem mantendo, sob o seu domínio, a técnica de minimizar social e politicamente, assim como os princípios educativos, patrióticos, éticos e estéticos.

                O conjunto desses quadros é amplo, pois tem por escopo dar novas formas às personalidades morais e intelectuais. Os próprios educadores, ao invés de se oporem à mistificação, silenciam.

                Oh! Ilusão! Oh! Sonho dantesco, porque o poeta já escrevera no cimo de uma porta: Lasciate ogni speranza voi ch’entrate!

                Como, e de que forma, persuadir às regras, e aos atributos do espírito, num meio onde impera o seu colapso?

                Era preciso acender uma luz. Pois no cenário de apreensões fundou–se a Academia de Letras da Grande São Paulo reunindo-se, ali no seu cenáculo, elementos comprometidos em manter a chama da arte e de seus princípios tradicionais e, sem dúvida, a possibilidade de, com os melhores exemplos, contribuir para um mundo melhor, um mundo não de   idiossincrasias, mas de respeitável equilíbrio.

                Talvez pudéssemos demonstrar um pouco mais: amor às belas letras e a memorização daqueles imortais que registraram com sabedoria e arte a nossa identidade cultural, os nossos costumes, as nossas grandezas…

Apresentação

                Eis que, arquitetando grandezas, e consciente das prerrogativas que lhe são inerentes, a nossa querida Gioconda Labecca recebe, neste nosso convívio, as simbólicas figuras de poetas: Carmen Lúcia Hussein, e Antonio Roberto de Carvalho, que trazem como bagagens, nada mais que alegria, sonhos, e muito amor.

                Carmen Lúcia Hussein, foi agraciada com a “Cruz do Mérito Literário Brasileiro”, em razão de seu poemeto, O Relógio e o Tempo. Os seus temas, unificados, versam sobre o amor, o subconsciente, a realidade humana… Ela terá por patrono, o vulto do grande Euclides da Cunha que, genialmente, retratou a terra, a sociedade e a alma brasileira, na sua bíblia designada, “Os Sertões”.

                Antonio Roberto de Carvalho, condecorado com a medalha do “Mérito Cultural Brasil dos Reis”, é autor de belos versos heróicos, e orgulhosamente, proclama: “A vida é bela, porque nos eleva  /  à condição de doutrinados seus  /  porque através  da redenção nos leva  /  na direção de Deus…”  O seu patrono será o vulto do poeta Humberto de Campos cujas “Memórias” são marcadas de sofrimento e melancolia.

                Com certeza, o equilíbrio se delinea mais uma vez diante de nossos olhos, porque podemos contemplar, neste local e nesta mesma hora, uma das maravilhosas viagens rumo à imortalidade, de impossível retorno, como se a imortalidade estivesse profundamente gravada não no mapa daquela misteriosa e imaginária Ásia, mas no espírito de um imortal Machado de Assis.

                Gioconda Labecca como se fosse, não aquela Sacerdotisa de Delfos, mas uma deusa inspirada pela legendária Calíope, terá dito aos Acadêmicos, agora seus novéis e estimados pupilos, que: A esperança é a última que morre.

Rinaldo Gissoni


Pronunciamento de Posse de Antônio Roberto de Carvalho à Academia de Letras da Grande São Paulo, em 25 de março de 2010.

Ilustríssima Acadêmica Senhora Gioconda Labecca, digníssima Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Ilustríssimo Senhor Doutor Walter Figueira Júnior, Vice-prefeito, neste ato representando o Senhor Doutor José Aurícchio Júnior, Prefeito Municipal de São Caetano do Sul;
Ilustríssimo Senhor Doutor Rinaldo Gissoni, digníssimo Vice-presidente;
Ilustríssimo Senhor Victor Loidi Sobrinho, Diretor da Editora Aliança;
Dignas Autoridades presentes;
Distintos Acadêmicos presentes;
Senhoras e Senhores

                Primeiramente, quero agradecer ao Senhor Doutor Rinaldo Gissoni, pelas carinhosas palavras com que fez a minha apresentação. Ele que é inspiradíssimo escritor e poeta, de formação clássica, idealizador e fundador, em 1981, da Academia de Letras da Grande São Paulo, de cujo Sodalício foi presidente até o ano de 2008. O Doutor Rinaldo Gissoni tem vários livros de poesia e prosa publicados, e me deixa profundamente honrado e emocionado, neste momento que me é tão distinto, quando trago os singelos versos de minha inspiração e sou fraternalmente acolhido nesta nobre Academia de Letras.

                Agradeço de coração à também inspiradíssima poetisa, escritora, sonetista e trovadora, Senhora Gioconda Labecca, Digníssima Presidente desta Academia, que muito me honra com o convite para fazer parte deste seleto grupo, que tem por compromisso a propagação do Bem, por intermédio do Belo.

                É meu objetivo fazer jus a tão relevante distinção, procurando, como membro deste Sodalício, honrar e cumprir os seus preceitos; trazendo em minha humilde bagagem, não somente a inspiração do escritor e poeta, mas o comprometimento de um colaborador que pretende somar forças aos nobres ideais de cultura e dignidade, no momento em que boa parte da humanidade, envolta numa lamentável convulsão social, presencia a grande inversão de valores culturais, corrompendo a nossa juventude e arrastando grande parte dos nossos jovens para o obscuro caminho de uma cultura medíocre e altamente nociva aos bons costumes.

                Que possamos nós, caríssimos irmãos e irmãs das letras, soldados de um Exército Pacífico; armados de Prosas e de Versos; ostentando a Bandeira do Bem e do Belo, honrar os antecessores que tão bem ilustraram as páginas da nossa História cultural; buscando cumprir com dignidade a doce obrigação a que fomos conclamados por força da inspiração com que Deus nos agraciou.

                Que o Criador nos abençoe e nos ilumine em nossas atividades literárias!

                Se o convite para juntar-me aos seletos companheiros de ideal que compõem a Academia de Letras da Grande São Paulo já é, por si só, motivo de honra e imensa satisfação, imaginem a alegria que invade minha alma e o senso de responsabilidade que me envolve ao saber que a Cadeira de número 29, que passo a ocupar nesta nobre Casa, tem por patrono o jornalista, político, crítico, cronista, contista, poeta, biógrafo e memorialista Humberto de Campos.

                Humberto de Campos Veras, nascido no dia 25 de outubro de 1886, no Maranhão, no município que se chamava Miritiba, e que tem hoje o nome de Humberto de Campos. Foram seus pais Joaquim Gomes de Faria Veras, pequeno comerciante, e Ana de Campos Veras.

                Humberto foi menino pobre. Estudou com esforço e sacrifício. Ficou órfão de pai aos 5 anos de idade e sua infância foi marcada por imensuráveis dificuldades. Sobre sua origem  ele mesmo nos relata em suas Memórias:

                “Sou, física, moral e intelectualmente, o produto de quatro ou
cinco famílias portuguesas que o tempo e o meio vem debilitando, e
que aclimatou, sem se integrar, no ambiente americano. Isso explica,
talvez, as tendências disciplinadas e disciplinadoras do meu espírito, a
minha paixão pela ordem clássica, e a feição puramente européia do
meu gosto. Tenho horror à insubmissão e à desordem. Vibram
automaticamente, no meu sangue e nos meus nervos, oito séculos de
civilização.”

                Sua terra natal, Humberto de Campos descreveu no soneto intitulado Miritiba, quando fala justamente do momento em que, tendo perdido o pai, deixa aquela cidade.

É o que me lembra: uma soturna vila
olhando um rio sem vapor nem ponte;
Na água salobra, a canoada em fila…
Grandes redes ao sol, mangais defronte…

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte…
Duas ruas somente… a água tranqüila…
Botos no pre-amar… A igreja… A fonte
E as dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.
Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
Minha mãe, pela noite, agita um lenço…

Ao vir do sol, a água do mar se alteia.
Range o mastro… Depois… só me recordo
Deste doido lutar por terra alheia!

Sobre a fase difícil de sua infância, o próprio Humberto escreveu:

“A nossa mudança de Miritiba, onde meu pai era tudo e não
nos faltava nada, para Paranaíba, onde éramos nada e nos faltava
tudo, começou a influir muito cedo no meu caráter… Eu fui um menino
que não possuiu, parece, jamais um brinquedo delicado… No meu
aniversário, ou de minha irmã, o brinde consistia em servir o nosso
almoço fora da mesa, improvisando um ‘banquete’ sobre um caixão de
querosene, coberto com uma toalha de rosto…”

                Aos 17 anos, Humberto de Campos passou a residir no Pará, onde conseguiu um lugar de colaborador e redator na “Folha do Norte”.

                Em 1910, publicou seu primeiro livro, a coletânea de versos intitulada “Poeira”, cujo soneto, com este mesmo título, transcrevemos:


Poeira leve, a vibrar as moléculas: poeira
Que um pobre sonhador, à luz da Arte, risonho,
Busca fazer faiscar: pó, que se ergue à carreira
Do Mazepa do Amor pela estepe do Sonho.

Para ver-te subir, voar da crosta rasteira
Da terra, a trabalhar, todas as forças ponho:
E a seguir teu destino, enlevada, a alma inteira
O teu ciclo fará, seja suave ou tristonho.

Não irás, com certeza, alto ou distante. O insano
Pó não és que, a turvar o céu claro da Itália,
Traz o vento, a bramir, do Deserto africano:

Que és o humílimo pó duma estrada sem povo,
Que, pisado uma vez, pelo ambiente se espalha,
Sente um raio de Sol, cai na terra de novo.

                Em 1912, Humberto de Campos transferiu-se para o Rio de Janeiro. Entrou para o jornal “O Imparcial”, na fase em que ali trabalhava um grupo de escritores ilustres, entre os quais Goulart de Andrade, Rui Barbosa, José Veríssimo, Júlia Lopes de Almeida, Salvador de Mendonça e Vicente de Carvalho.

                João Ribeiro era o crítico literário. Ali também José Eduardo de Macedo Soares renovava a agitação da segunda campanha civilista. Humberto de Campos ingressou no movimento.

                Logo depois, o jornalista militante daria lugar ao intelectual. Fez essa transição com o pseudônimo de Conselheiro XX com que assinava contos e crônicas, hoje reunidos em vários volumes. Assinava também com os pseudônimos: Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios.

                Eleito em 30 de outubro de 1919 para ocupar a Cadeira número 20, da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Emílio de Menezes, Humberto foi recebido em 8 de maio de 1920, pelo acadêmico Luís Murat.

                Vejamos o que diz o próprio Humberto de Campos sobre este momento:

      “Ao tomar posse, a 8 de maio de 1920, da cadeira que ocupo
na Academia Brasileira de Letras, eu pronunciei estas palavras:
“nada me patenteia tanto a fragilidade humana como a presença
dolorosa de um cego”…

 

      A crítica não me conhece. Os homens de letras não me lêem.
As classes ilustradas ignoram a minha passagem pela Terra… Mas
como me sinto pago de todos os tormentos da vida, quando recebo
essas cartas que diariamente me chegam… Elas me dão a certeza de
que eu penetrei em uma casa pobre, na intimidade de um coração
dolorido, e alegrei um triste e confortei um desesperado… As
palavras de gratidão desses mártires são as moedas do meu cofre…

 

      É esse, igualmente, o dever de um escritor pobre, em um país
pobre: manter-se no seu posto até a morte, sem ser pesado a
ninguém, e comer, se preciso, o seu braço esquerdo, para que a mão
direita permaneça livre e trabalhe infatigável, condenando o erro,
espalhando o bem, semeando a Verdade.”

                Em 1920, já acadêmico, Humberto de Campos foi eleito deputado federal pelo Maranhão. Em 1923, substituiu Múcio Leão na coluna de crítica do jornal “Correio da Manhã”.

                A revolução de 1930 dissolveu o Congresso e ele perdeu seu mandato. O presidente Getúlio Vargas, que era grande admirador do talento de Humberto de Campos, procurou minorar as dificuldades do autor de “Poeira”, dando-lhe os lugares de inspetor de ensino e de diretor da Casa de Rui Barbosa.

                Em 1931, viajou ao Prata em missão cultural.

                Em 1933 publicou o livro que se tornou o mais célebre de sua obra, “Memórias”, crônicas do começo de sua vida.

                Autodidata, grande ledor, Humberto de Campos acumulou vasta erudição, que usava nas crônicas. Poeta neoparnasiano, fez parte do grupo da fase de transição anterior a 1922. “Poeira” é um dos últimos livros da escola parnasiana no Brasil. Fez também crítica literária de natureza impressionista.

                Humberto de Campos deixou a Terra no dia 5 de dezembro de 1934, legando-nos um vastíssimo acervo de excelentes obras. Menos de 3 meses depois de sua passagem, por intermédio da psicografia do médium mineiro Chico Xavier – à época um jovem de 24 anos de idade – o escritor e poeta enviava mensagens do além-túmulo, dando provas de que a vida humana não se encerra com os despojos da matéria perecível que nos abriga temporariamente. Vinha nos dizer que a inspiração é atributo do Espírito e que, assim como o próprio Espírito humano, é imperecível; uma ferramenta do Bem que transcende à equivocada idéia da morte e permanece conosco, vibrante e ativa, onde quer que estejamos.

                O fato abalou a opinião pública. Os jornais do Rio de Janeiro e outros estados estamparam aquelas crônicas, despertando a atenção de toda gente. Agripino Grieco e outros críticos literários famosos examinaram atenciosamente a produção de Humberto, agora no Além, e atestaram a autenticidade do estilo.

                Mais tarde, Humberto de Campos adotaria, para assinar suas mensagens mediúnicas, o pseudônimo Irmão X e enviaria uma produção considerável de mensagens de amor, fé, fraternidade e esperança, publicada pela Federação Espírita Brasileira.

                Sua passagem ele próprio descreveu, num emocionante relato mediúnico, pelas mãos de Chico Xavier:

      A morte não veio buscar a minha alma, quando esta se
comprazia nas redes douradas da ilusão. A sua tesoura não me
cortou fios de mocidade e de sonho, porque eu não possuía senão
neves brancas e rígidas à espera do sol para se desfazerem…
…Quando me encontrava nessa faina de semear a resignação, a
primeira e a última flor dos que atravessam o deserto
das incertezas da vida, a morte abeirou-se do meu leito… Adormeci
nos seus braços como um ébrio nas mãos de uma deusa…
… — Humberto!… Humberto!… – exclamou uma voz
longínqua – recebe o que te enviam da Terra!
Arregalei os olhos com horror e com enfado:
      — Não! Não quero saber de panegíricos e agora não me
interessam as seções necrológicas dos jornais.

— Enganas-te – repetiu – as homenagens da convenção não
se equilibram até aqui. A hipocrisia é como certos micróbios de vida
muito efêmera. Toma as preces que se elevaram por ti a Deus, dos
peitos sufocados, onde penetraste com tuas exortações e conselhos.
O sofrimento entornou sobre o teu coração um cântaro de mel.
Vi descer, de um ponto indeterminado do espaço, braçadas
de flores inebriantes como se fossem feitas de neblina
resplandecente, e escutei, envolvendo meu nome pobre, orações
tecidas com suavidade e doçura…
Nossa Senhora deveria ouvi-las no seu trono de jasmins
bordados de ouro, contornado pelos anjos que eternizam a sua
glória…
Encontrei alguns amigos a quem apertei fraternalmente
as mãos… E voltei cá. Voltei para falar com os humildes e os
infortunados, confundidos na poeira da estrada das suas existências,
como frangalhos de papel, rodopiando ao vento…
E posso acrescentar (…) no tocante a morte que me
arrebatou da prisão nevoenta da Terra:
— É minha carta de alforria.. Agora posso ir onde quero.
Os amargores do mundo eram pesados demais para o meu
coração…

                Este, meus queridos consócios, é o motivo pelo qual alego sentir o peso da responsabilidade, mas também a honra imensa em ocupar a Cadeira 29, cujo patrono é Humberto de Campos. Prometo dar o melhor de mim para me fazer digno desta honraria.

                É impossível encerrar este artigo sem a nítida sensação de que muito faltou a ser delineado para descrever o talento e a elevação moral deste homem das letras. Entretanto, para não me tornar abusivamente extenso, encerro estas palavras transcrevendo o belíssimo soneto ÁFRICA, de autoria do nosso ilustre e talentoso homenageado:

Na partilha das sáfaras conquistas
Desta Líbia de mouros rancorosos,
O Deserto foi dado aos Poderosos
E o Oásis, florido e mínimo, aos Artistas.

E os felizes, quais são? Os mil sofistas
Da Ventura, a pedir, de olhos gulosos,
Terra e mais terra? Ou o que limita os gozos
E em sete palmos acomoda as vistas?

Certo, não sereis vós, ó Donatários
Do alvo Deserto, que velais, em guerra,
A áurea carga dos vossos dromedários.

Mas, tu, ó Poeta, que, por onde fores,
Teus sete palmos hás de achar na terra
Abrindo em trigo, rebentado em flores!

 

Boa noite a todos, e que Deus nos abençoe!

Antônio Roberto de Carvalho


Dualidade

Uma parte de mim, que é só poesia,
e que vive vagando pelo espaço,
não possui o pesar de uma agonia,
nem se entrega à tortura do cansaço.

Outra parte, que é pura anatomia,
que se arrasta no chão de passo em passo,
traz a sombra tristonha da apatia
de manter-se nas teias do embaraço.

E, tentando escapar do duplo ofício
de ser fria razão e sonho leve,

cada parte de mim é um precipício…

Para ter, cada parte, um tempo breve,
uma parte pratica este exercício
de apagar o que a outra parte escreve.