Flávio Mello

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Patrono: Olavo Bilac
Cadeira 02


BIOGRAFIA

Possui graduação em Letras – Literatura, Especialização em Praticas e Vertentes – Literatura Africana e Infantil e Mestrado no curso de Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, Brasil. Título de tese: Notas biográficas e metáforas religiosas na poesia de Jorge de Lima, Orientador Dr. Ênio José da Costa Brito. É membro da Academia de Letras da Grande São Paulo, posse em 25/08/2011, à cadeira 02, Patrono Olavo Bilac, tendo como Padrinho o Escritor e Jornalista Hildebrando Pafundi. É professor, palestrante, coordenador editorial e escritor, autor de vários livros de ficção e artigos em revistas. Atualmente é professor convidado em Universidades e colégios onde ministra aulas sobre Literatura, Escrita Criativa, o Conto Contemporâneo e a Poesia. Oficinas em diferentes abordagens que vão desde a criação de peças e construção de fantoches a Poesia Modernista de Jorge de Lima.

Mais sobre Flávio Mello em:
www.escritorflaviomello.blogspot.com.br
E-mail: prof_flaviomello@hotmail.com
Celular: (11) 8772-9080


BIBLIOGRAFIA

Seleção Natural (Contos) 2006;
Amar só se for Armado (Contos) 2008;
João e seu baú mágico (Contos) 2009;
Cantos do cotidiano (Contos) 2012.


Pronunciamento de apresentação de Flávio Ferreira Melo, na sessão de posse da Academia de Letras da Grande São Paulo, proferido pelo Acadêmico Hildebrando Pafundi.

Digníssima Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo, poeta Gioconda Labecca;
Ilustríssima Senhora Dra. Regina Maura Zetone Grespan, representando o Excelentíssimo Senhor Doutor José Auricchio Júnior, Prefeito Municipal desta cidade;
Ilustríssimo Senhor Dr. Adauto Campanella representando o Presidente da Câmara Municipal de São Caetano do Sul, o Senhor Sidnei Bezerra da Silva;
Senhora Sonia Maria Franco Xavier, Presidente da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul;
Dignas Autoridades presentes;
Distintas confreiras e confrades desta Academia;
Senhoras e Senhores.

Começo este pronunciamento com muita honra, acentuando que conheci o escritor Flávio Melo em maio de 2008, no lançamento da antologia Entrelinhas da Andross Editora, em São Paulo, na Casa das Rosas, porque nós dois fazíamos parte desse volume, ele com o conto O Pilão, e eu com Janela da Liberdade (infantil). Depois desse encontro, passamos a trocar idéias por e-mail, eu fiz comentários elogiando o conto dele, que passou a fazer parte do seu novo livro, Amar só se for armado publicado no final de 2008 pela Editora Espaço Idea, para o qual eu tive o privilegio de fazer o prefácio a convite do autor.

Nesse inicio de amizade também fizemos trocas de livros de nossa autoria. E fiquei conhecendo seu primeiro livro, Seleção Natural, que tem prefácio do editor Mauricio Miranda, que assim começa: “Os contos coletados em Seleção Natural, compilados ao longo de uma vida literária intensa refletem a potencialidade de Flávio Melo. Em um momento decisivo, cuja arte despertara sob uma poética lírica, sublime, descobriu-se o prosador”.

Mais adiante, Mauricio, ressalta: “Numa situação ainda que confortável é praticamente irresponsável definir a estrutura teórica para seus contos, pois estes fogem deliciosamente à regra, ao seu próprio estilo, ilimitado a narrativa ao próprio ato de narrar, daí a concepção contraditória, um teorema sem cartesiana”.

Na realidade, os textos do Flávio são uma mistura de conto, crônica e narrativa poética, que a escritora, Alitta Guimarães Costa Reis, que faz parte do grupo Movimento Médico Paulista Cafezinho Literário (MMCL), definiu como cronto. E no seu segundo livro, ele já utilizou essa denominação que ainda não é oficial, porque no registro aparecem contos brasileiros crônicas brasileiras e poesias, que continuam existindo. Só deve ter a classificação de cronto, quando houver uma mistura dos dois ou três gêneros, ficando difícil definir se é crônica ou conto ou poesia.

No entanto, como eu digo em Deliciosos crontos de amor, título do prefácio, a narrativa ficcional de Flávio Melo é fluente e natural, com emprego econômico das palavras, com crontos de amor, todos bem urdidos e interessantes, com personagens bem estruturados, e com a necessária verossimilhança.

Além desses dois livros, Flávio também publicou João e seu baú mágico, que conta a história de um menino que sobe numa árvore e começa a cantar com se fosse passarinho. Os pais de João ficaram tão felizes, que resolveram entrar no baú mágico, que o menino guardava no sótão de seu quarto, e também se transformaram em passarinhos.

Flávio Melo nasceu em nove de julho de 1978, na cidade de São Paulo, onde vive. Casado com a professora e artista plástica Rosimeire da Silva Melo, com quem tem duas filhas.

Filho de Izaias Ferreira de Melo e Elza Elizabeth de Melo. Antes de ser escritor, na juventude foi desenhista e músico. Aprendeu a ler e gostar de livros com o pai.

Depois que se formou em letras/literatura, iniciou seu processo e linha de pesquisa sobre a obra do poeta alagoano Jorge de Lima. Terminada a faculdade casou-se com Rosimeire, com quem namorava desde a adolescência.

Foi também um dos fundadores da Editora Espaço Idea, para a qual se dedicou ao projeto de publicação de livros de novos autores, escrevendo orelhas e prefácios.

Além de escritor, Flávio é professor de Literatura, Escrita Criativa e Língua Portuguesa. Ministra palestras e oficinas de literatura sobre diversos temas, em escolas públicas, particulares e universidades e também escreve para o blog www.escritorflavioMelo.blogspot.com – (crônicas e rascunhos).

Hildebrando Pafundi


Pronunciamento de Posse de Flávio Mello à Academia de Letras da Grande São Paulo, em 25 de Agosto de 2011, na Cadeira número 2, Patrono Olavo Bilac.

Ilustríssima Acadêmica Senhora Gioconda Labecca, digníssima Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Ilustríssima Senhora Dra. Regina Maura Zetone Grespan, representando o Excelentíssimo Senhor Doutor José Auricchio Júnior, Prefeito Municipal de São Caetano do Sul;
Ilustríssimo Senhor Dr. Adauto Campanella representando o Presidente da Câmara Municipal de São Caetano do Sul, o Senhor Sidnei Bezerra da Silva;
Ilustríssimo Acadêmico Senhor José Roberto Espíndola Xavier, digníssimo Vice-Presidente (a) da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Ilustríssimo Sr. Acadêmico Hildebrando Pafundi, amigo, padrinho e nobre apresentador;
A querida e presente Maria Aparecida Mancini Fedatto, nossa Cidinha;
Prezadas Autoridades presentes;
Prezados e Nobres Acadêmicos;
Prezados amigos e familiares.

A Sabedoria se deixa encontrar
A Sabedoria é radiante, não fenece,
facilmente é contemplada por aqueles que a amam
e se deixa encontrar por aqueles que a buscam.
Ela mesma se dá a conhecer aos que a desejam.
Quem por ela madruga não se cansa:
encontra-a sentada à porta.
Meditá-la é, com efeito, a perfeição da inteligência;
quem vigia por ela
logo se isenta de preocupações;
ela mesma busca, em toda parte, os que a merecem;
benigna, aborda-os pelos caminhos
e a cada pensamento os precede.[1]

Agradecimentos

…ainda sou um esboço do que Deus projetou.

Até hoje, era comum em minha vida me ver em um enorme salão luxuosamente decorado e tomado por silêncio, dotado de dezenas de portas, todas elas fechadas, e atrás de cada uma delas outros salões silenciosos, luxuosamente decorados e dotados de outras dezenas de portas tão bem fechadas quanto, vivia preso a uma gravura de Escher.

Hoje, mesmo diante de tantas portas que se cerram, curiosamente, uma delas se abre para mim, e dela uma brilhante e quente luz se espalha por toda a nave, assim como em meu corpo, iluminando e aquecendo minha alma. Essa luz, Senhoras e Senhores, vem da Graça de Deus, pois a Luz de sua Sabedoria é onisciente e infinita, meu amparo, e dos olhos, que agora vejo lagrimejados, das muitas pessoas que amo, muitas delas aqui presentes nesta noite tão importante para mim.

Pessoas como meus pais, que passo e passarei lutando para deixá-los cada dia mais orgulhosos, lutando para provar que tudo que fizeram por mim valeu e vale a pena. Meus irmãos, base de minha formação, que por mais distantes que estejamos, estão tão presentes que ainda posso sentir o cheiro de nosso quarto, de nossa infância, em minha memória. Meus sobrinhos, hoje são tantos, que me alegram e me fazem sorrir só por imaginar que existem. Meus amigos e amigas recentes e aqueles que caminham comigo nessa estrada do viver a tanto tempo, que escolhidos por Deus me ajudam a caminhar com passos firmes. Minha esposa, doce criatura, que me fez homem e me ensinou lições que jamais vou me esquecer e poder retribui-las à altura. As minhas filhas, minhas flores, meu Lírio e meu Copo de leite, que Deus sabiamente semeou em nosso jardim, elas nem bem cresceram e já fizeram de mim uma pessoa melhor, são elas o que tenho de melhor em mim.

Não posso me furtar, e deixar de recordar, meu falecido avô Arvidis Briedis, que veio da Letônia semear terras americanas, fez sua magnifica lavoura verdejar, hoje sou parte dessa colheita.

A todos que caminham comigo e que amo, e me perdoem se nesse momento de grande emoção me esqueci de alguém.

O porquê de fazer parte desta Academia

Lembro-me das palavras do grande artista, de quem tenho o maior apreço, e dedico parte de minha vida a pesquisa-lo, Jorge de Lima, ao se referir a Academia Brasileira de Letras, “[…] representa uma tradição, uma continuidade, uma fundação que dispõe das maiores garantias de perpetuidade.” [2] Faço minhas tais palavras, e vou além, estar aqui hoje é estar emoldurado e dependurado na parede do grande Salão da Literatura, do grande Museu chamado Arte e que tem Deus como seu maior curador.

Meu estimado Antecessor

Por cuidado e reverência, pois estou nesse momento entre os grandes, gostaria de saudar e trazer à luz meu antecessor o Confrade Luís Máximo de Souza, que após contato com a família, e a leitura de alguns textos, entre eles originais inéditos, compreendi o porquê de seu sobrenome Máximo, e o tamanho da responsabilidade que agora carrego, assim como os deveres aos quais me comprometo.

Luís Máximo de Souza autor de vários livros, foi um dos fundadores dessa Casa, Primeiro Secretário e amigo leal do saudoso Rinaldo Gissoni (Presidente e fundador da Academia de Letras da Grande São Paulo), foi o máximo como professor, sua paixão, amado pai, esposo, amigo e confidente, como também foi um grande como poeta, dobrando versos e os transformando em partículas de ouro. Obtive, por intermédio da família, textos magníficos do poeta, e dentre eles um texto escrito pelo Confrade Gissoni, por ocasião da morte de Máximo, texto esse carregado de saudosismo, respeito e admiração, que fez meu peito se encher de entusiasmo e orgulho pelas pessoas que fazem parte desse universo, ao qual hoje também farei parte.

Quero agradecer do fundo de meu coração a esposa do poeta Eulina de Barros Souza, a toda família Máximo, em especial ao Sr. Valter Máximo de Souza, que com muito carinho me ofereceu valiosas informações sobre o vulto que fora seu pai. Obrigado e ficam aqui cunhados meus agradecimentos, meu respeito e minha admiração.

Meu estimado Patrono

Hoje venho tomar posse à Cadeira de Número 2 que tem como Patrono o grande Príncipe dos Poetas, Olavo Bilac[3], homem que na poesia nos fez adentrar o cosmo e sentir o brilho e o poder das explosões das estrelas.

Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, ou apenas, e já nos basta, Olavo Bilac, “o mais antológico dos nossos poetas” [4], foi além de poeta, cronista, ensaista, jornalista, grande orador, inspetor de ensino e um virtuose. Nasceu o poeta no Rio de Janeiro, no dia 16 de dezembro de 1865, e veio a falecer na mesma cidade, em 28 de dezembro de 1918. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde criou a Cadeira nº 15, que tem como patrono o grande romântico Gonçalves Dias.

Tentou ser médico, frustrou-se, assim como se frustrou nas leis ao tentar Direito, mas dedicou sua vida, desde muito cedo, ao jornalismo e à literatura, felizmente. Na politica e em atos cívicos sua figura elegante também circulou, foi fundador de jornais, como A Cigarra, O Meio, A rua… apenas para citarmos alguns. Apresentou sua visão classicamente “tupiniquim”. Tão clássico era Bilac, que na constelação em que viveu até mesmo o “Sol” substituiu, uma vez que na seção “Semana” da Gazeta de Notícias, foi o substituto de Machado de Assis, trabalhando ali durante alguns anos.

Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.[5]

Ao lado de Alberto de Oliveira e Raimundo Correia formou a tão complexa e perfeita triade parnasiana, e o requinte e beleza de sua obra tornou o artista Bilac uma celibridade de sua época, e foi eleito o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, pela Revista Fon-fon no primeiro dia de Março de 1913.

Olavo Bilac tinha em suas mãos o poder de transformar em literatura assuntos antagônicos, não apenas como o tão comparado ourives, mas um verdadeiro mago, um alquimista transformando assuntos banais, triviais, belos, sagrados… em palavras polidas e profundamente poéticas. Como no seguinte poema,

Sou como um vale, numa tarde fria,
Quando as almas dos sinos, de uma em uma,
No soluçoso adeus da ave-maria
Expiram longamente pela bruma.

É pobre a minha messe. É névoa e espuma
Toda a glória e o trabalho em que eu ardia…
Mas a resignação doura e perfuma
A tristeza do termo do meu dia.

Adormecendo, no meu sonho incerto
Tenho a ilusão do prêmio que ambiciono:
Cai o céu sobre mim em pirilampos…

E num recolhimento a Deus oferto
O cansado labor e o inquieto sono
Das minhas povoações e dos meus campos.[6]

E em noites frias

…estou aqui distante do turbilhão da rua, humildemente escrevendo, escrevente, escrevedor… o que resultou nesse discurso prosaico, que escrevi em madrugadas frias, tendo como trilha sonora o silêncio de minha casa cortado pelas contrações de minha filha caçula Beatriz e os sonhos angelicais de minha filha mais velha Alice… (entre fadas, bruxas, príncipes e dragões), minha esposa repousa em (e no) silêncio, faz coro a casa e as minhas reflexões.

Do claustro, no silêncio e no sossego,

Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua![7]

Minha morada é meu templo. O coração das pessoas que amo é meu templo. Deus é meu templo. Ler, escrever, pesquisar… são meus templos. Minha família é meu templo. E hoje, irmãos e irmãs, essa Casa é meu templo.

Inúmeras vezes, em minha vida, ouvi daqueles infiéis e incrédulos “Ora (…) ouvir estrelas! (…)” como se fosse eu um louco, e mesmo que lhes dissessem que as ouvia, e as ouço, como ouço agora, ao abrir meu peito, ao abrir um livro. Ou mesmo a janela me deparando com o cosmos, com a silhueta do Ressuscitado (em todas as coisas), que ouço cada partícula do universo gritar aos meus ouvidos (em uma sinfonia de poesia e prosa), ao passo que me quedo pálido e anestesiado. Por isso sou escritor, por isso coso com palavras as cores e cheiros que as lapadas e lufadas de vento trazem à minha mesa de trabalho.

Atravesso sem medo a porta e adentro augusto este átrio (como o corvo de Poe), saio da sala dos passos perdidos, e me entrego por inteiro à Arte, ao Amor, à Fé e ao Passado, sim ao passado, de que essa Casa é dotada. A experiência dos membros dessa Academia é a argamassa que sustenta e dá cor a esse universo, que me deparo como o poeta[8] diante do esplendor de Mira-Celi. E tão maravilhado quanto ele, me dedicarei a ostentá-la, amá-la e lutar para que ganhe, na enorme constelação (seu futuro), o brilho e o poder que são emanados de seu ventre.

Graças a Deus a porta se abriu.

Quero dizer que ganho muito mais que apenas a Medalha e o Diploma, que abraços e afagos, ganho a graça de aprender, ouvir e degustar o que cada membro dessa Casa pode me oferecer, além é claro da irmandade e carinho, dividiremos o pão, o peixe, o vinho… algumas tristezas, sim é claro…, dividiremos amor, ideias, palavras, mas acredito que acima de tudo dividiremos ainda mais o Sopro Divino, demonstrando ao Criador a dignidade de sermos Seres Humanos.

Domamos palavras e agora diante de todos me quedo.

Flávio de Melo

Bibliografia utilizada:
______. Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Editora Paulus, 6ª impressão, 2010.
BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. Poesia Completa e Prosa. RJ: Nova Aguilar, 1986.
BOSI, Alfredo História concisa da literatura brasileira, São Paulo: Cultrix, 1994.
BUENO, Alexei, Jorge de Lima: poesia completa ; textos críticos, Marco Lucchesi… [ET al.]. – Rio de Janeiro : Nova Aguilar, 1997.
CANDIDO, Antônio; CASTELLO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira, (II Romantismo, Realismo, Parnasianismo, Simbolismo) DIFEL, 9ª Ed., 1979.
COUTINHO, Afrânio, A Literatura no Brasil ; codireção Eduardo de Faria Coutinho.  – 5. Ed. Ver. E atual. – São Paulo : Global, 1999. http://www.academia.org.br/?sid=184
JORGE, Fernando Vida e Obra de Olavo Bilac, São Paulo, T. A. Queiroz, Editor, 4ª Ed. 1992.
[1] Livro de Salomão, 2010, p. 1114.
[2] LIMA, Jorge, 1997, pg. 59.
[3] Obras: Poesias (1888); Crônicas e novelas (1894); Crítica e fantasia (1904); Conferências literárias (1906); Dicionário de rimas (1913); Tratado de versificação (1910); Ironia e piedade, crônicas (1916); Tarde (1919); Poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas.
[4] BOSI, Alfredo, 1994, p. 226.
[5] Hino à bandeira letra de Bilac, Música de Francisco Braga.
[6] O Vale, poema de Bilac.
[7] A um poeta, poema de Bilac.
[8] Jorge de Lima em Anunciação e Encontro de Mira-Celi.


E, NUM DIA CINZA
ou quem somos

Esses dias me botam pra baixo, Eu sei, Sabe, será que sabe mesmo, Acho que sim, amor…, Nossa quanto tempo faz, quanto tempo, Quanto tempo o quê, Que não me vem de amor…, me chamar assim, nossa, séculos, nem nas guerras, nem nas pazes, nem nos mares, parece que me vejo perdida num deserto e num deserto de mim, de mim mesma, sem meu eu, seu um eu para encher-me até a tampa, mesmo não havendo tampa, Como não há tampa, eu sou a tampa, É, quem sabe, pode ser, Pode ser, como assim, o que foi, Nada lindo, esquece, acho que é o tempo, esse céu cinza, esse lar escuro, com cheiro de mofo, tão vazio de cor e cheio de sombras largas e profundas, as vezes parece que me afogo nelas, que me perco dentro de um mar de escuridão, Sou um ponto de luz nessa hora, É, pode ser, mas distante, entende, Nossa, vive acabando com minha poesia, Por que nem tudo é literatura, Nossa eu sei, como você pode, nossa… Nossa… como posso, como posso erguer-me de manhã e olhar o céu, um céu como esse olhe, vê…, entende, Sim, está feio mesmo, Nossa demais, parece que as corres escoaram durante a noite e foram ralo abaixo em algum rio poluído da humanidade, Nossa como você fala bonito, Bonito, É profundo, sei lá, parece que filosofa tudo, que tudo há porquês? acho tão bonito, tão bom te ouvir, você me inspira, Inspirar, sei lá, parece tudo tão perdido, não aguento ver o dia assim, Assim como, Morto, Morto, É morto, fenecido, estiolado, como se uma foice tivesse rasgado a barriga da vida e sugado toda a essência da humanidade, olhe as pessoas, olhe as pessoas, O que tem as pessoas, Olhe para as vestes, olhe o que cobre seus corpos, olhe tudo tão antigo, com cheiro de naftalina ou gosto do guardado, guarda-chuvas, sobretudos, tudo tão escondido, Pronto, Pronto o que amor, A energia voltou, Graças a Deus… a novela.

(Texto Completo)

Livro: Cantos do Cotidiano – 2012
Autor: Flávio Mello