Hildebrando Pafundi

Patrono: José Lins do Rego
Cadeira 21


 BIOGRAFIA

Nasceu em São Paulo, Capital, em 26 de outubro de 1939, mas reside em Santo André desde 1942, onde estudou, exerceu diversas profissões, antes de se dedicar ao jornalismo e a literatura. A partir de 1963 foi colaborador da antiga Folha do Povo e de diversos outros jornais e revistas, publicando nesses órgãos, os primeiros contos e crônicas. Começou a trabalhar como jornalista profissional em 1968, no Diário do Grande ABC, passando depois pela Folha Metropolitana, O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, sendo que nos dois últimos permaneceu mais de vinte anos, atuando como repórter e fotógrafo. Trabalhou ainda no jornal semanário Gazeta do ABCD como jornalista responsável, repórter e editor, e exerceu também a função de assessor de imprensa no Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André; na Associação e Sindicato dos Gráficos do Grande ABC e Baixada Santista (patronal) e na ONG mista das Prefeituras da Região, Consórcio Intermunicipal Grande ABC, onde se aposentou como jornalista no ano 2000, mas permaneceu trabalhando até 2007. Nessa mesma data, 2007, iniciou no jornal virtual Clique ABC, do jornalista Léo Júnior, a coluna Esquina Descontraída, onde publica crônicas, artigos e resenhas de livros e noticias literárias e culturais, entre outras. Hildebrando Pafundi foi empossado como membro da Academia de Letras da Grande São Paulo em 26 de novembro de 2004, ocupando a Cadeira 21, que tem como patrono o romancista José Lindo Rego.


BIBLIOGRAFIA

O primeiro conto de Hildebrando Pafundi publicado em livro também ocorreu no ano 2000, Promessa de Vingança, numa antologia da Scortecci Editora como parte do prêmio Concurso de Contos José Antonio Riani, realizado no ano anterior pela Academia de Letras da Grande São Paulo. Já participou de mais de 30 antologias de contos e crônicas, além de livros coletivos. Livros individuais do autor:
Tramas & Dramas da Vida Urbana (contos) – 2004/ segunda edição/ 2008;

No Ritmo Sensual da Dança (contos) / 2006; Cotidiano e Imaginário do Ano 2000 (diário) / 2007;
Janela da Liberdade e outras histórias (infantil) / 2008;
Barzinho Sórdido ou (a herança) – contos/ 2012;
Esquin@ Descontraíd@ (crônicas) / 2013 / 14. Inédito: Antes de falhe a memória (crônicas).


Pronunciamento de apresentação proferido pelo Acadêmico João Bosco dos Santos, na sessão de posse de Hildebrando Pafundi, da Academia de Letras da Grande São Paulo.

Quero, de início, parafrasear Nicolas BOILEAU, célebre escritor francês, o qual, ao salientar a importância do aparecimento do não menos célebre poeta François de MALHERBE, declarou: “Enfin Malherbe vint” (Afinal chegou Malherbe). Digo, portanto: “Afinal chegou Pafundi”. E o faço pleno de felicidade, até porque Pafundi, no dialeto quimbundo significa “feliz”. Boileau, em nome do bom senso e da natureza opõe-se à ênfase, à erudição pedantesca, ao preciosismo de mau gosto. O cronista e contista que hoje toma assento na Cadeira 21, deste sodalicium, igualmente, está longe do pedantismo literário. Vejamos um exemplo:

“O menino era muito distraído, vivia no mundo da lua. Gostava de ficar olhando as estrelas no firmamento. Os próprios pais costumavam dizer que o menino era um poeta, alienado, que vivia no mundo da lua. Adorava ver o céu estrelado. Mas, era também muito curioso e gostava de pesquisar tudo que estava relacionado com o mundo celeste. Certa noite, antes de dormir, passando em frente a um grande espelho, parou e abriu bem a boca, tentando ver as estrelas. Nessa noite fez uma grande descoberta em seus sete anos de vida, três dos quais dedicados às pesquisas siderais: o céu da boca não tem estrelas”.

(“O céu da boca não tem estrelas”. Arpoesia em Revista, Ano IV, No. 36, 2003, p.25).

Esse pequeno texto nos dá mostra da veia literária de Hildebrando Pafundi. Simples e objetivo como um contador de histórias. Sim, meus confrades, é isso mesmo: Pafundi é contador de histórias. Suas narrativas, que primam pela coerência, são construídas a partir de personagens, tempo e espaço, como convém a um bom contista. Neste outro exemplo, o também jornalista – que é, aliás, sua profissão de fato – fala sobre a inseparável companheira, a caneta.

“Só naquele dia, há dois anos, quando a tive pela primeira vez em minhas mãos, comecei a pensar na sua beleza, e pude manipulá-la a meu bel prazer. Atendeu a todos os meus pedidos e desejos, até mesmo aqueles mais libidinosos. Bastava meu olhar sensual e o desejo manifesto através do pensamento para que, entre meus dedos, ela se transformasse, ficando ali, como doce e obediente criatura. Era o atual amor de minha vida”. (“Obediente criatura”. Artpoesia em Revista, Ano IV, Abril/Maio 2003).

Na sua labuta cotidiana, esse jornalista-contista-cronista consegue verter sobre o papel uma torrente de palavras que, numa linguagem absolutamente coesa e coerente, transforma-se numa narrativa de formação, num conto que privilegia o aspecto estético-lúdico, transmitindo uma experiência e, ao mesmo tempo, conduzindo a uma reflexão. Na verdade, diferentemente da noticia – que retrata um fato real ocorrido, e que tem um compromisso com a verdade – o compromisso do conto é com a verossimilhança. O trecho seguinte, de A Greve dos Coveiros nos remete a essa compreensão:

“Os coveiros da pequena cidade do interior do Estado de São Paulo estavam com os seus salários defasados. Há mais de dois anos não recebiam um aumento. Aproveitaram a onda de bem sucedidas greves com bons acordos para os metalúrgicos do ABC, naquele ano do final da década de 70 para decretar a paralisação por melhores salários. (…) Não quiseram marcar a greve para o dia 1º. de abril, porque ninguém acreditaria. A paralisação acabaria servindo de gozação e piadinhas de mau gosto, que são freqüentes nessa data, quando se comemora o Dia da Mentira. Mas, para azar da unida classe, no dia 1º. foram realizados os três últimos sepultamentos de abril. Não morreu mais ninguém até o final do mês”.

O conto A Greve dos Coveiros foi premiado no Concurso de Poesia e Conto “Professora Marly Cerqueira Lima”, realizado no Rio de Janeiro em 2002/2003. A respeito dele disse o advogado e escritor Valdecirio Teles Veras: “A Greve dos Coveiros está bem escrito e prende o leitor até o final. A greve retratada é singular”. Antonio Possidonio Sampaio, também advogado e escritor, assim se manifestou: “Acabo de ler A Greve dos Coveiros que me fez lembrar das greves do final dos anos 70 e começo dos 80, dos metalúrgicos do ABC, as quais deve ter marcado a memória do companheiro contista…”.

A verossimilhança aqui aludida inspirou Hildebrando Pafundi a escrever Promessa de Vingança, outro trabalho brilhante e que foi premiado no Concurso de Contos “José Antonio Riani”, promovido pela Academia de Letras da Grande São Paulo, em 1999 e que, posteriormente, foi publicado em coletânea pela Scortecci Editora (2000).

O Novel Acadêmico

Hildebrando Pafundi é paulistano, filho de Antonio Pafundi e Carolina dos Anjos Pafundi. Nascido em 1939, mudou-se com a família para Santo André, nos idos de 1942, cidade onde vive até os dias de hoje, razão pela qual se considera andreense. Desde muito jovem, com apenas 13 anos de idade, começou a trabalhar em farmácia, já que seu pai almejava um futuro brilhante para o filho, como médico, e a atividade farmacêutica seria um bom começo. No entanto, o Sr. Antonio Pafundi, já falecido, não viu seu intento coroado de êxito. Depois de muitos anos de trabalho nessa atividade econômica, nos mais tradicionais estabelecimentos farmacêuticos da cidade, chagando a tronar-se proprietário, as adversidades impostas pelas condições administrativas e financeiras fizeram-no mudar completamente: tornou-se funcionário em empresa do setor metalúrgico. Data dessa época o despontar para a área de comunicação social, quando iniciou sua trajetória de cultor das letras, colaborando com publicações internas (jornais e revistas) das empresas onde trabalhava. Autodidata, mas possuidor de um texto agradável, Pafundi passou a colaborar nos periódicos que circulavam na região.

O apoio recebido de Paulo Zingg – um dos fundadores da Academia de Letras da Grande São Paulo – e que era proprietário do jornal Folha do Povo, foi decisivo na carreira do iniciante jornalista. Aliás, sua primeira credencial profissional, com data de 18 de dezembro de 1963, foi assinada pelo próprio Paulo Zingg. Iniciava-se, então, naquele momento, uma longa trajetória de sucesso. Em 1968, Hildebrando Pafundi ingressou no jornal Diário do Grande ABC, onde trabalhou em três diferentes ocasiões, exercendo as funções de repórter, editor e chefe de reportagem. Atuou também, como redator e repórter no jornal Correio Metropolitano, Folha do ABC e Gazeta do ABCD, tendo sido um assíduo colaborador da revista Expressão. Por mais de vinte anos trabalhou como repórter e fotógrafo no jornal O Estado de S. Paulo. Durante sua extensa jornada, foi assessor de imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra e, também, do Sindicato dos Empresários Gráficos do ABC, no qual foi editor de um jornal corporativo. Atualmente, Hildebrando Pafundi é assessor de imprensa do Consórcio Intermunicipal Grande ABC, onde é editor responsável pelo Informativo Grande ABC. O extenso currículo desse que, em pouco tempo, será o mais novo membro da Academia de Letras da Grande São Paulo é enriquecido por sua participação em entidades como: GIPEM – Grupo Independente de Pesquisadores da Memória do Grande ABC; AMUSA – Associação Amigos do Museu de Santo André; CONDEPHAAPASA – Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico e Urbanístico de Santo André; Casa da Palavra (Santo André) e grupos de escritores do Grande ABC. Seu nome foi incluído como fotógrafo no Guia Cultural de Santo André, editado pelo Fundo de Cultura do Município (2002) e citado como escritor em História da Literatura de Santo André: um ensaio através do tempo, de Tarso M. Melo, e Alpharrabio 12 anos: uma história em curso, de Dalila Teles Veras e Luzia Maninho Teles Veras.

O Literato

No mundo das letras, Hildebrando Pafundi tem sua obra esparsa de vez que colabora com inúmeras publicações do gênero, desde que se iniciou na carreira jornalística. Participante ativo de eventos culturais entrevistou figuras importantes como Jorge Amado, Lygia Fagundes Teles, Ignácio de Loyola Brandão, Maria de Lourdes Teixeira e muitas outras. Produziu incontáveis crônicas autobiográficas e outras a respeito do seu antigo e tradicional bairro, a Vila Assunção, em Santo André. Todas publicadas na coluna Memória, assinada pelo jornalista Ademir Medici, no Diário do Grande ABC. Em 2002, participou com outros escritores do Grande ABC e de São Paulo, do livro Guido Poianas – Retratos da Cidade, organizado por José Armando Pereira da Silva, editado pelo Fundo de Cultura da Prefeitura Municipal de Santo André, em memória ao conhecido pintor.

Além dos contos premiados e já citados anteriormente, Hildebrando Pafundi foi contemplado com a inclusão do seu Um Noite em São Paulo, na Antologia do IV Concurso Grandes Nomes da Nova Literatura Brasileira, editado pela Phoenix Editora (São Paulo), em 2003. Outros trabalhos de sua autoria foram incluídos em livros-documento de grande expressividade: no ABC da Luta Ecológica, de José Contreras e Virgílio Alcides de Farias (uma reportagem sobre esse tema publicada no jornal O Estado de S. Paulo, na década de 90); no Caderno VII Encontro de Pesquisadores (“Atividades Culturais e Literárias de Dom Jorge Marcos de Oliveira”, artigo); e no volume Retratos MetropolitanosA experiência do Grande ABC em Perspectiva Comparada (fotografias ilustrativas) editado pela Fundação Konrad Adenauer. A publicação Artpoesia em Revista, editada no Estado da Bahia, mas distribuída em vários estados da região Nordeste, tem se constituído no seu principal veículo de divulgação literária. Autor de livros que deverão ser publicados em breve – Memória aos Pedaços (crônicas), Nem a Morte Pára o Baile da Vida (contos) e Cotidiano do Ano 2000 (diário), Hildebrando Pafundi lança, nesta ocasião, uma coletânea de contos, Tramas & Dramas da Vida Urbana, pela Elosul Editora. Judith Vilas Boas Ribeiro, que prefacia a obra afirma: “Pafundi quase não apela para a intertextualidade, nem recorre a metáforas inusitadas. Seu texto flui simples e natural, no manejo mágico das palavras necessárias, com equilíbrio e discrição, usando como matéria-prima às emoções e os sentimentos que os fatos, em si só, fazem corroborar”.

Como vemos, caros confrades e convidados, discorrer em poucas palavras sobre a vida e a obra de Hildebrando Pafundi não é tarefa fácil. Não obstante, na minha avaliação subjetiva, deverá ser tranqüila, para ele, a sua convivência neste silogeu. Ao ocupar a Cadeira 21, desta Academia de Letras, cujo Patrono é a fulgurante figura de José Lins do Rego, o notável romancista brasileiro, Hildebrando Pafundi sucede Dom Jorge Marcos de Oliveira, poeta e cronista, preenchendo uma lacuna de mais de quinze anos. Dom Jorge Marcos de Oliveira, bispo diocesano e emérito de Santo André, falecido em 28 de maio de 1989, foi um dos fundadores da Academia de Letras da Grande São Paulo. Cônscio de suas responsabilidades como membro deste sodalício, Hildebrando Pafundi, tenho absoluta convicção, contribuirá efetivamente para que a Academia de Letras da Grande São Paulo ganhe a mais simbólica das constelações: das Letras e das Artes.

Seja bem-vindo Acadêmico Hildebrando Pafundi!


Pronunciamento de Posse de Hildebrando Pafundi na Academia de Letras da Grande São Paulo, em 26 de outubro de 2004.

Senhor poeta romancista e cronista Dr. Rinaldo Gissoni, digníssimo Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Componentes da mesa de honra;
Autoridades políticas, eclesiásticas e militares presentes;
Senhores Acadêmicos;
Senhoras, Senhores.

Antes de iniciar meu pronunciamento, agradeço aos escritores acadêmicos José Antonio Riani (São Paulo) e João Bosco dos Santos (Santo André) a indicação do meu nome para ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Grande São Paulo.

Há 15 anos falecia meu antecessor na Cadeira 21 da Academia de Letras da Grande São Paulo, Dom Jorge Marcos de Oliveira, primeiro Bispo Diocesano e Emérito de Santo André, que neste ano de 2004 está comemorando 50 anos de existência. Dom Jorge foi um dos fundadores deste Sodalício. Poeta e cronista, sua obra esparsa foi publicada por jornais e revistas, e será reunida em livro pela Irmã Maria Miele, responsável pelo acervo do bispo. A mais recente edição da revista Raízes, da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul publica ampla matéria a respeito de Dom Jorge e da Diocese, que inclui artigo de minha autoria falando a respeito das atividades culturais e literárias do bispo, que também já apresentei em forma de palestra no VII Encontro de Pesquisadores do Museu de Santo André.

O patrono da Cadeira 21, escritor, romancista e cronista, José Lins do Rego, era também advogado e jornalista. Nasceu no engenho Corredor, município de Pilar, Estado da Paraíba, em três de junho de 1901. Em 1923 começou a publicar artigos em suplementos literários. Filho de João do Rego Cavalcanti, ainda menino, ficou órfão de mãe, e com o pai sempre ausente foi criado no próspero engenho do avô materno, tendo uma tia que ele chamava de mãe. Mas José Lins trazia “consigo raízes do sangue e da terra, que vinham dos pais, as quais acrescentaria outras, passando de geração em geração por outros homens e mulheres, sempre legados ao mundo rural do Nordeste açucareiro, às senzalas e aos negros rebanhos humanos que a escravidão havia formado”, como informa Wilson Lousada, em Breve Noticia – Vida de José Lins do Rego, que serve como prefácio da 17ª. de “Doidinho” –  José Olympio Editora, 1978.

Começou os estudos no interior da Paraíba, em Itabaiana e depois na Capital, João Pessoa. Formou-se advogado na Faculdade de Direito do Recife, Pernambuco. Era casado com Philomena Massa, com quem teve três filhos: Maria Elizabeth, Maria da Glória e Maria Cristina.

Em 1925, foi nomeado promotor público em Minas Gerais, exercendo essa atividade na cidade de Manhuaçu, que em tupi-guarani quer dizer chuva grande, tempestade. Mas um depois deixa o Mistério Público, e como fiscal de bancos transfere-se para Maceió, onde se tornou colaborador do Jornal de Alagoas, e integra-se ao grupo de escritores constituído por Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda, Rachel de Queiroz, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti, Alísio Branco e outros, também lança os três primeiros romances: Menino de Engenho, publicado em 1932, Doidinho (1933) e Bangüê (1934). O livro de estréia, Menino de Engenho, além de receber o prêmio da Fundação Graça Aranha, foi aclamado com entusiasmo pela crítica. A primeira edição, de dois mil exemplares, esgotara-se rapidamente e, em 2002, esse romance de estréia já estava na 83º. Edição. Em 1935, nomeado fiscal do Imposto de Consumo, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde passaria o resto da vida.

A seu respeito escreveu Carlos Drummond de Andrade: “… Era um romancista fabuloso, no sentido de que o humilde material nordestino de que ele se servia ganhava contornos de fábula, uma fábula apaixonada como a dos contos populares…” Antonio Carlos Villaça comentando Menino de Engenho e citando Paulo Prado, chegou a dizer que “era simplesmente o nosso Proust”, ressaltando: “O Brasil estava realmente no livro sincero daquele rapaz de trinta anos”. Para Jorge Amado, José Lins do Rego era “figura humana inesquecível, foi um dos maiores narradores da língua portuguesa, em todos os tempos”.

Mas Menino de Engenho, segundo Ivan Cavalcanti Proença, “não é apenas a primeira obra cronologicamente, mas a mais significativa no Ciclo da Cana-de-açúcar e fora dele”.  Esse ciclo se completa, além dos livros já citados, com outros dois romances: Moleque Ricardo e Usina. No entanto, seu romance Fogo Morto, publicado em 1943, é a última obra-prima do regionalismo neo-realista, que surgiu no Brasil na década de 1930. E acaba também incluído como último romance da serie que o próprio José Lins do Rego chamou de Ciclo da Cana-de-Açúcar.

Neste primeiro pronunciamento, a respeito de José Lins do Rego vou me ater às obras relacionadas a esse ciclo.

“Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã me acordei com um barulho enorme na casa toda. Eram gritos para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá, e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco”. Trecho inicial do romance Menino de Engenho, que revela o drama de um menino que aos quatro anos de idade perde sua mãe, morta, e logo depois perde também o pai, que a partir daquele momento será sempre ausente devido à doença mental.

Personagem narrador, o menino Carlinhos, e o autor José Lins do Rego se confundem perambulando pelas páginas desse bonito romance, que assim termina: “Levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que o meu corpo. Aquele Sérgio de Raul Pompéia entrava no internato de cabelos grandes e com uma alma de anjo cheirando virgindade. Eu não: era sabendo de tudo, era adiantado nos anos, que ia atravessar as portas do meu colégio”. / “Menino perdido, menino de engenho”.

A partir do sucesso do primeiro livro, José Lins do rego não pára mais de escrever: publicou 12 romances, um volume de memórias, livros de crônicas, de viagem, conferências e literatura infantil. Vários de seus livros foram traduzidos e publicados na Alemanha, França, Inglaterra, Argentina, Rússia, Espanha, Estados Unidos, Itália, Portugal e Coréia. Alguns foram transformados em filmes.

Em 15 de setembro de 1955 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, sendo empossado oficialmente em 15 de dezembro de 1956, passando a ocupar a Cadeira 25, que tem como patrono Junqueira Freire, como sucessor de Ataulfo de Paiva, a quem tratou com sarcasmo no discurso de posse. Foi saudado pelo acadêmico Austregésilo de Athayde. Em 12 de setembro de 1957, com 56 anos de idade, morreu José Lins do Rego, sendo sepultado no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista.

Encerro este discurso, ressaltando que a obra de José Lins do Rego é imortal, transcrevendo o que escreveu Otto Maria Carpeaux, em outubro de 1960, citado por Wilson Lousada nas apresentações da 8ª. Edição de Bangüê e na edição de 1973 do romance Pedra Bonita: “A obra de José Lins do Rego é mais. Muito mais do que um documento sociológico; é qualquer coisa de vivo, porque seu criador lhe deu o próprio sangue, enche-a de seus gracejos e tristezas, risos e lágrimas, conversas, doenças, barulhos, disparates, de sua grande sabedoria literária. Deu-lhe o hálito da vida. Essa obra não morre tão cedo. É eternamente jovem, como o povo; é eternamente triste, como o povo. É o trovador trágico da província”.

Obras de José Lins do Rego

Romances: 1932, Menino de Engenho; 1933, Doidinho; 1934. Bangue; 1935, O Moleque Ricardo; 1936, Usina; 1937, Pureza; 1938, Pedra Bonita, 1939, Riacho Doce; 1941, Água-mãe; 1943, Fogo Morto; 1947, Eurídice; e 1953, Cangaceiros. – Crônicas; 1942, Gordos e magros; 1945, Poesia e vida; 1952, Homens, seres e coisas; 1954, A casa e o homem; 1957, A presença do Nordeste na literatura brasileira; 1958, O vulcão e a fonte; 1981, Dias idos e vividos (antologia). Conferências: 1943, Pedro Américo; 1946, Conferência do Prata; 1957, Discurso de posse e recepção na Academia Brasileira de Letras, José Lins do Rego e Astrogésilo de Athayde. Viagens: 1951, Bota de sete léguas; 1955, Roteiro de Israel; e 1957, Gregos e troianos. Infanto-juvenil: Histórias da velha Totônia. – Em colaboração: 1942, Brandão entre o mar e o amor, (romance, segunda parte) com Jorge Amado, Graciliano Ramos, Aníbal Machado, Rachjel de Queiroz); 1980, O melhor da crônica brasileira – I (com Raquel de Queiroz, Armando Nogueira e Sérgio Porto).

Muito obrigado a todos!

Hildebrando Pafundi


Esquina 1

A importância do livro nas nossas vidas e até na cesta básica; a literatura, leitura e as bulas de remédios

*Hildebrando Pafundi

E a escola não consegue estragar esse meu amor pelas histórias e pelas palavras.

Lya Luft

Hildebrando Pafundi – Leio todos os domingos à coluna Alfarrábios do jornalista Evaldo Novelini, no Caderno Cultura & Lazer do Diário do Grande ABC, e me chamou atenção e guardei para depois comentar e aproveitando também para escrever a respeito o texto intitulado, “Gente que lê de tudo e as bulas de remédios”, publicada na página 3, de 19 de abril de 2015. A página estava guardada, quando neste mês de julho comecei novamente a pensar nesse tema, e lembrar que eu também costumo dizer que leio tudo, até bulas de remédios. Mas eu tinha uma justificativa: minha primeira profissão foi a de auxiliar de farmácia, na qual aprendi a ler até as quase indecifráveis letras das receitas de médicos. Logo no inicio de sua crônica Evaldo acentua: “Leio de tudo, até bula de remédio! Tenho inveja danada de gente assim, com tanto tempo e disposição”. E depois explica o motivo: a falta de tempo de ler todos os livros que compro com compulsão e gostaria de ler e vão se acumulando “completamente virgens”.

Eu também enfrento esse problema há muitos anos, mesmo como no caso do colega Evaldo, tendo agora a obrigação de ler livros de muitos escritores para escrever crônicas e comentários para a coluna Esquina Descontraída, que é publicada semanalmente na internet. Além disso, depois que abandonei a profissão de auxiliar de farmácia comecei a colaborar como colunista em semanários da Região do ABC e depois iniciei a carreira de jornalista profissional no Diário do Grande ABC e nos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde (antiga Sucursal ABC) e em seguida passei exercer as atividades de assessor de imprensa e escritor autônomo, publicando e lançando meus próprios livros de contos e crônicas. E como sou membro da Academia de Letras do Grande ABC, ocupando a Cadeira 21, que tem como patrono o romancista José Lindo Rego, acabei arrumando mais trabalhos de leituras e produção de textos, pois preciso ler as obras dos colegas acadêmicos e os livros de novos candidatos a ocupar alguma Cadeira vaga, aprovando ou reprovando. Além disso, preciso produzir textos para a Revista Tamises, órgão oficial anual da Academia de Letras.

Recentemente li três livros infantis da escritora Ana Cristina Silva Abreu, que é candidata a uma vaga na Academia. Acabei de ler o excelente livro de memória, histórias e crônicas, “Eu, Professor: reflexões” – Páginas & Letras Editora (142 páginas) /2015, de autoria do amigo e colega acadêmico Clóvis Roberto dos Santos, Cadeira 16, que tem como patrono Euclides da Cunha. Gostei do livro, que relata os muitos problemas da educação e dos professores no Brasil, e sugere soluções, mas me chamou a atenção uma crônica de Lya Luft, “Brasileiro não sabe ler”, publicada na Revista Veja em 12-8-2009, e que Clóvis reproduziu no Capitulo Leitura 5, na página79 do seu livro, e devido algumas coincidências, como ocorreu também com a coluna Alfarrábios, incluindo suas opiniões, aproveitei ainda uma frase da Lya para usar como epigrafe desta crônica. Para a escritora, “alfabetizado não é quem assina documento, mas quem consegue escrever, ler e… entender”. Segundo ela, “ler e escrever fazem parte da gente.” É também o que eu penso.

Depois tiveram inicio outras coincidências com o meu modo de pensar e de outros jornalistas e escritores, além dos já citados, inclusive no livro “Eu, Professor: reflexões”, depois dos capítulos Leituras, com textos de outros escritores, pois no final do livro, Clóvis incluiu depoimentos familiares de seus três filhos: Clóvis Roberto, Márcia Maria e Liliana Maria Pinheiro dos Santos, a caçula, amiga e que foi minha colega de jornalismo na antiga Sucursal ABC, do Estadão. Neste caso vou citar também apenas algumas partes do seu texto, intitulado “Bom dia, vizinhos”, na página 125, porque não disponho de muito espaço.

As coincidências começam logo depois do inicio de sua crônica: “Meu nome é Liliana, sou filha caçula dos professores Clóvis e Tida, jornalista de profissão”. Não vou entrar em detalhes sobre o motivo o título, mas a respeito de livros, jornais e revistas espalhados pela casa, exatamente como ocorreu nas muitas casas e apartamentos que eu

morei, quando solteiro, casado e mesmo depois da separação. Na minha família éramos cinco irmãos, sendo eu o mais velho e único jornalista e escritor, que desde pequeno quando eu estudava o antigo curso primário já gostava de ler tudo. E foi logo depois dessa época, quando eu estava com 13 ou 14 anos, que comecei a trabalhar em uma farmácia perto da minha casa, na Vila Assunção, em Santo André, e mesmo sem entender, lia bulas de remédios. Em sua crônica, Liliana explica: “Os livros estão à mão, para serem lidos ou não, mas habitam a casa tanto quanto as conversas sobre eles; os jornais fazem parte do café da manhã, no qual são servidos pão, manteiga e noticias; as revistas de informação passeiam de quarta a quarto, junto com os brinquedos; até interessantes bulas de remédios vivem aparecendo nos banheiros…” Bem parecido com minha casa. Atualmente leio poucas bulas de remédios, mas elas continuam com as letrinhas miúdas e informando sobre os efeitos colaterais.

Também na casa de escritora Lya, “livro era um objeto cotidiano, como pão e leite”. Na minha residência quando eu era jovem, não chegou a tanto, mas atualmente como em outras épocas, tem livros nos quartos, na sala na cozinha, nos banheiros. E minha neta Iris Odara, que tem sete anos de idade e já gostava de livros quando tinha cinco anos, foi encostando livros infantis em pé numa das paredes da escada que nos leva aos quartos e banheiros do andar de cima de nossa casa e formou sua pequena biblioteca, que conta até com um cantinho de leitura, que ela fez com almofadas.

E para terminar, tanto a Lya, como a Liliana e outros escritores, jornalistas, professores, advogados e profissionais de diversos ramos, eu também costumo misturar livros, jornais e revistas com refeições. Por esse motivo e outros surgiu à idéia defendida por alguns escritores, de que o livro deveria fazer parte da cesta básica. Eu já defendi essa idéia em palestras e em algumas crônicas.