José Bueno Lima

Patrono: Álvares de Azevedo
Cadeira 14


 BIOGRAFIA

JOSÉ BUENO LIMA, brasileiro, casado com Iara Balieiro Lima, advogado, pai de quatro filhos, pela ordem José Antonio, Antonio Celso, Patrícia e Luís Felipe, nascido em Santo André, aos 27/12/1937, filho de Antonio e Adelina Lima, procurador-chefe da Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo, aposentado, escritor, autor de três livros:  Um Passado Sempre Presente (Crônicas-2010), Como Se Fosse Hoje (Crônicas-2010) e Crônicas e Contos de Um Saudosista (2012), membro da Academia de Letras da Grande São Paulo-ALGRASP, onde ocupa a cadeira nº 14, patrono Álvares de Azevedo.

CURRICULUM VITAE
1947/1950 – Grupo Escolar Prof. José Augusto de Azevedo Antunes; 1951/1958 – Colégio Arquidiocesano de São Paulo; 1962/1966 –  Faculdade Católica de Direito de Santos; 1967/1987 – Procurador – Chefe da Prefeitura Municipal de S. B. do Campo;
1978/1982 – Presidente do Instituto  Municipal de  Previdência de  S.  B. do  Campo;
1994/1996 – Diretor Executivo da Companhia Regional de Abastecimento de Santo André (CRAISA); 2008/2012 – Membro  da Junta de Recursos Fiscais da Prefeitura Municipal de Santo André; 1998 – Membro do Rotary Clube de Santo André.

E-mail: jblima37@gmail.com


BIBLIOGRAFIA

Um Passado sempre presente  (Crônicas) – 2010;
Como se fosse hoje…! (Crônicas) – 2010;
Crônicas e Contos de um Saudosista (Crônicas e Contos) – 2012.

 


Pronunciamento de Apresentação de José Bueno Lima, na sessão de posse da Academia de Letras da Grande São Paulo, proferido pela Acadêmica Marina Rolim.

Ilustríssima Acadêmica, Senhora Gioconda Labecca, Digníssima Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Digníssimas Autoridades presentes;
Distintos Acadêmicos presentes;
Senhoras e Senhores.

Formou-se na Faculdade Católica de Direito, de Santos. Foi Procurador Judicial de São Bernardo, aposentado como Procurador-Chefe.

Também foi presidente do Instituto Municipal de Previdência, da mesma cidade e Diretor Executivo da Companhia Regional de abastecimento integrado de Santo André.

Nascido em Santo André, na rua Guilherme Marconi, Vila Assunção, filho de Antonio de Lima e Adelina Lima, teve uma  infância feliz. Pai, mãe e irmãos vivendo harmoniosamente.

Suas memórias fixaram-se primeiro por ter estudado no Primeiro Grupo Escolar Prof. José Augusto de Azevedo Antunes, hoje Museu Octaviano Gaiarsa. Espírito observador, todas as lembranças gravadas da infância e juventude naquela Santo André de outros tempos, fazem parte de suas crônicas nos livros Um passado sempre presente (2009) e Como se fosse hoje (2010).

Cronista, bairrista, memorialista. Suas crônicas deliciosas trazem à lembrança  acontecimentos, fatos e pessoas que aqui viveram ou vivem, preservando valores sociais, culturais e históricos.

Ouçam por favor trecho de uma crônica:

“Seu Carmine Rossini era um italiano desses bem gordos. Tenho-o ainda em minha memória. Rosto vermelho, sempre suado, usando aqueles aventais só de cobrir a barriga (e que barriga), vozeirão de tenor, atrás de um balcão de madeira envernizada, com tampo de mármore branco. Em cima deste ficavam certas bebidas em vidros, como a pinga no Cambuci, a com uva passa chamada “Passarela” que eram servidas através de conchas. Também recipientes com amendoim japonês, balas, doces de abóbora, de batata, da antiga marca “Confiança”.

Na frente do balcão restavam abertos sacos de arroz, feijão, batata, quirera, milho e outros alimentos tradicionais.

Não vou dizer que naquela época as coisas eram melhores. Porém, as vendinhas, fizeram parte das comunidades ao seu redor, com uma presença muito sensível.

Ninguém comprava a dinheiro. Tudo marcado na caderneta para ser pago no fim do mês. E ainda, no ato do pagamento, o freguês recebia como presente um pacote de biscoito, uma lata de doce ou qualquer mercadoria em agradecimento. Na verdade os compromissos eram cumpridos. A honestidade imperava. O nome preservado. Com muita honra.”

José Bueno Lima, casado com a professora Yara Balieiro, tem quatro filhos: José Antonio e Luis Felipe, advogados. Dr. Antonio Celso, médico. E Patrícia, única filha. É avô de seis netos.

E para finalizar, como o cronista, de autor desconhecido:

“As pessoas esquecerão o que você disse, as pessoas esquecerão o que você fez, mas jamais esquecerão o que você as faz sentir.”

Dr. José Bueno Lima, seja bem vindo entre nós!

Marina Rolim
Cadeira 15


Pronunciamento de Posse de José Bueno Lima à Academia de Letras da Grande São Paulo, em 29 de março de 2012, na Cadeira 14, Patrono Álvares de Azevedo.

Ilustríssima Acadêmica Sra. Gioconda Labecca, digníssima Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Ilustríssima Sra. Maria Terezinha Dario Fiorotti, Presidente da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul, neste ato representando o Excelentíssimo Sr. Dr. José Aurícchio Júnior, Prefeito Municipal de São Caetano do Sul;
Ilustríssimo Sr. Dr. Adauto Campanella, neste ato representando o Senhor Sidnei Bezerra da Silva, Presidente da Câmara Municipal de São Caetano do Sul;
Ilustríssimo Sr. Evenson Dotto, Presidente da Associação Comercial e Industrial de Santo André.
Dignas autoridades presentes;
Distintos acadêmicos presentes;
Senhoras e Senhores;

Você quer ser universal, disse Tolstoi ao novel escritor, fale de sua rua. Se você quiser ser um pintor conhecido, pinte o seu quintal, respondeu Marguerite Yourcenar. Qual o rio mais importante do mundo ? O da minha aldeia, respondeu Fernando Pessoa. Por que?  Ora, porque é o rio que passa pela minha aldeia, ué!

Estes são os pilares sobre os quais construí toda a base inicial de minha caminhada pela literatura.

Já com a idade bem avançada, a fim de, como costumo dizer “espantar o alzheimer”,  comecei a colocar no papel minhas recordações dos tempos de infância, juventude, e fase adulta. Aproveitei um dom me concedido por Deus, que já havia se manifestado desde os primeiros anos de minha vida escolar. Dom que foi se aprimorando durante os anos de vida profissional. Sempre fui um advogado de escritório. Nunca muito ligado às lides forenses, sempre preferindo a tranquilidade da sala de trabalho, na elaboração de pareceres, processos administrativos e outras peças jurídicas.

Então, iniciei a narrar minhas primeiras travessuras no quintal da casa onde nasci, em Santo André, na rua Guilherme Marconi, na minha amada Vila Assunção, uma pequena chácara, com as mais diversas espécies de frutos. Recordei dos primeiros chutes, os jogos de futebol dos “moleques da rua de baixo (Agenor de Camargo), contra os da rua de cima (Santo André)”, onde o campo era a própria rua, a bola era de meia, e os gols apenas duas pedras. Lembrei-me dos apitos das fábricas, e do trem com os quais acordávamos, e dos sons do amolador de facas, do soldador de panelas, dos vendedores de sorvetes e biju, do entregador de gelo, e assim por diante.

Já numa fase mais adulta, lembrei-me dos primeiros jogos de futebol, defendendo clubes, e do Colégio Arquidiocesano, em São Paulo, onde fiz todo meu curso de humanidades, em regime de internato. Nessa época, nos fins de semana de folga, e nas férias escolares, vindo para Santo André, convivi com a turma do Panelinha, estimado clube andreense, conhecendo as figuras tradicionais, como o bêbado Gasolina, o velho Cabral, sempre carregando um sem número de medalhas no paletó, e um monte de documentos debaixo do braço, “as escrituras” de suas sonhadas dezenas de propriedades, e outros personagens característicos que toda cidade possui.

Depois, narrei algumas viagens tanto pelo Brasil, como para o exterior. Seria demasiadamente cansativo, e nem é o momento, citar todas as minhas aventuras, pois o número de crônicas que escrevi, nestes quase três anos, já ultrapassa a 200. Daí surgiram meus dois livros publicados: Um Passado sempre Presente (2009) e Como se fosse hoje…! (2010).

Advogado formado, passei a maior parte de minha vida profissional, se não toda, na Prefeitura de São Bernardo do Campo, procurador judicial, onde me aposentei como procurador-chefe. Presidi o Instituto Municipal Previdenciário de São Bernardo do Campo e a Companhia Regional de Abastecimento Integrado de Santo André (CRAISA), em Santo André.

Como salientou minha madrinha Marina Rolim, poetisa das mais talentosas, de quem falarei mais adiante, em meu breve currículo, sou casado, tenho quatro filhos e seis netos.

Sobre meu patrono, o poeta Manoel Antônio Álvares de Azevedo, um romântico, que dá o seu nome à Cadeira 14 que passarei a ocupar, por coincidência, o nome da rua em que moro há 40 anos, em Santo André, seus dados biográficos mostram que ele nasceu em 12 de setembro de 1831, em São Paulo. Teve uma vida efêmera, morrendo em 25 de abril de 1852, de tuberculose. Apesar de seus 21 anos de vida, sua obra poética é volumosa. Sarcástico, irônico, e auto-destruidor, foi influenciado por Lord Byron e Musset. A morte sempre esteve presente em sua obra. Tanto que sugeriu como seu epitáfio, à sombra de uma cruz, que se escrevesse:

– Foi poeta – sonhou – e amou na vida (Lembrança de morrer)
De sua obra, pincei o poema

AMOR

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Declaro ser uma grande honra, para mim, passar a pertencer a esta Academia. Jamais poderia pensar que, um dia, principalmente depois de ultrapassada grande parte de minha estrada nesta vida, estaria eu diante de, primeiro, minha família toda aqui presente, minha esposa Iara, meus filhos José Antonio, Antonio Celso e Luís Felipe, minha filha Patrícia, minha nora Miryan e dois de meus netos o João Vitor e o Gustavo; segundo, meus amigos que ora vislumbro neste momento, e para não cometer a injustiça deixar de citar algum, aponto o Professor Doutor Clóvis Roberto dos Santos, eminente pedagogo, e por fim, de todos vocês, jamais poderia pensar, repito, estar adentrando neste templo da literatura regional, como um de seus membros, tornando-me imortal, o que me deixa extremamente orgulhoso e feliz.

Agradeço imensamente à minha madrinha neste sodalício, a premiada poetisa acadêmica Marina Rolim, a indicação de meu nome para dele fazer parte. Conheci a Marina por volta dos anos 70, ela como jornalista do então News Sellers, hoje Diário do Grande ABC. Voltei a vê-la mais recentemente, em eventos literários promovidos pelas municipalidades de Santo André e São Caetano do Sul. Inclusive, tive a felicidade de estar presente no lançamento de seu livro de poesias “Reminiscências”, na Casa da Palavra, em Santo André, no ano passado. Magnífico compêndio da excelente obra poética da Marina. Obrigado querida acadêmica!

Terminando prometo, citando Fernão Capelo Gaivota, que “Aqui será a areia fina… A falésia…, onde entre vôos pousarei para descansar e meditar. E depois, voltar a voar, entre o azul do mar, e o azul do céu”.

Obrigado!

José Bueno Lima



MELHOR IDADE, VELHICE OU IDOSO?

Dia 03 de Agosto de 2009. Com os apitos da Ipiranguinha e da Conac, assim éramos acordados, naqueles tempos de minha infância. Santo André apenas engatinhava, dando os primeiros passos para o seu desenvolvimento.

Acordava, como definiu o saudoso Dr. Octaviano Gaiarsa, de seu pesado sono, no livro sobre a história da cidade.

Nessa tomada de cena, é que eu apareci como ator, e bem figurante, como simples membro de família classe média, apesar de ser das mais tradicionais da região. Nas crônicas que ousarei escrever, logo todos perceberão tratar-se o autor de um fanático bairrista, qualidade (… ou defeito?) que será somada ao tremendo saudosista que sou. E, para que não haja dúvida, como todo brasileiro, vidrado em futebol, Sãopaulino de quatro costados. E, também, Ramalhão!

Outro dia, um de meus netos, o Guga, 12 anos, corinthiano, me perguntou:

— Vô, se jogar Santo André e São Paulo, p’ra quem você torce?

Respondi:

— Para os dois! Quem ganhar, ganhou. Com leve coloração tricolor, devido à tradição”.

Portanto, em todas ou quase todas, abordarei fatos, acontecimentos, coisas de uma Santo André onde eu vivi, que testemunhei, momentos inesquecíveis que, ainda hoje, já com a idade um tanto avançada, me trazem indeléveis recordações.

Abro parêntesis, aqui, para esclarecer, de vez por todas, que não sou daqueles que “…no meu tempo era melhor …” e, também, que não faço parte da “melhor idade”, pois, como Rubem Alves, não me incluo dentre aqueles que assim se definem…Ele acha melhor “velhice”, mais poético”, e eu “idoso”.

Como também, longe de mim a intenção de querer contar minha vida. Meu foco será atingir aqueles que tiveram a oportunidade de testemunhar os fatos, ou aqueles que não, porém, que gostarão de conhecê-los; satisfazer as pessoas citadas, os lugares referidos, na certeza de que isso trará a todos, a mesma felicidade e alegria que eu sinto, quando me fazem relembrar coisas do passado, principalmente as que presenciei! Ai, será impossível não me referir à minha pessoa.

Abordarei muito a Vila Assunção, onde nasci e vivi meus primeiros anos, um bairro de muita tradição na cidade, uma espécie de Brás ou Mooca daqui, reduto, em sua grande maioria, de italianos e seus  descendentes; falarei das primeiras peladas de futebol, jogos de grandes disputas entre “a turma da rua de baixo contra a da rua de cima”, quando a bola…era de meia, o campo… o meio da rua e o gol… duas pedras; das peraltices da molecada na praça da Matriz; do tempo de escola; das figuras tradicionais da cidade (qual dela não as tem?); das primeiras namoradinhas (engraçado, naquele tempo, a gente se encantava com a garotinha, e apontando-a para os amigos “ – Minha namorada”. O outro respondia: “Que nada, é minha”. E ela não tinha o mínimo conhecimento disso!. Você ai que está lendo, não era assim?

Então, veio a revolução! Calma! A minha! A partir do término do curso primário, em 1950, a vida se transformou completamente, quando uma nova fase se iniciou com os estudos em São Paulo, obrigando-me a me distanciar, durante uns dez anos, desta querida terra. Afastamento em termos, pois, nos finais de semana aqui retornava, mas, ai, numa outra fase, com novas amizades, outros fatos, curiosidades, que, sem dúvida, serão igualmente objetos de abordagem da minha parte.

Enfim, como todos sabem que recordar é viver, com a pretensão de ainda ter um bom tempo para exercitar a memória, espero poder resgatá-la o máximo possível, pois, sem medo de errar, infeliz é aquele que não tem nada para contar.

José Bueno Lima