José Carlos Donadão

Patrono: José de Alencar
Cadeira 17


 BIOGRAFIA

O Acadêmico e escritor José Carlos Donadão é jornalista profissional diplomado, formado em 1976, na primeira turma da Faculdade de Comunicação Social do Instituto Metodista de Ensino Superior, hoje Universidade Metodista de São Paulo, da qual foi Mestre de Cerimônia.

Cursou o ensino básico (primário) no Colégio Nossa Senhora da Glória, em São Caetano do Sul e concluiu o ginasial e o colegial (segundo grau) no Instituto Estadual de Ensino Cel. Bonifácio de Carvalho, também de São Caetano do Sul. Representou a escola em diversos eventos culturais e no teatro anexo à ela encenou Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

Ex-bancário, trabalhou oito anos na Financiadora General Motors e outros quatro anos nas coligadas Volkswagen. Durante sete anos foi Repórter na Editoria de esportes do Diário do Grande ABC. Foi também empresário no ramo de concessionárias de automóveis e considera-se escritor desde sempre.

Paulistano, nascido no Bairro do Ipiranga, adotou Santos como moradia há mais de 25 anos.

É admirador confesso de Machado de Assis que coincidentemente teve como seu Patrono na Academia Brasileira de Letras, José de Alencar, e sobre ele historiou: “José de Alencar escreveu as páginas que todos lemos, e que há de ler a geração futura. O futuro não se engana”.

José Carlos Donadão é casado, tem quatro filhos e três netos.

E-mail: zecadonadao@gmail.com


BIBLIOGRAFIA

Tem as seguintes obras publicadas:

PADRE CHICO DE TODOS NÓS (biografia, editora Comunicar);
DE ENCONTRO AO SOL (romance, editora Comunicar);
HORIZONTES (romance, editora CBJE);
MEU FILHO É MACONHEIRO (autoajuda, editora CBJE);
A ÁRVORE QUE FALAVA (com os pássaros), (infantil); e
ÁRVORES QUE ENCANTAM, publicado pela Escola Pueri Domus de Santo André.


Pronunciamento de Apresentação de João Bosco dos Santos na Academia de Letras da Grande São Paulo na posse de José Carlos Donadão

Acadêmica Gioconda Labecca, mui digna Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Prezados Confrades;
Senhoras e Senhores Convidados;
Cogito, ergo sun!

Esta frase, pronunciada por René Descartes e replicada em seu livro O Discurso Sobre o Método (1637), no qual apresenta o seu método de raciocínio, Penso, logo existo, base de toda a sua filosofia e do futuro racionalismo científico, serve-me como mote para essa peroração. Na obra, Descartes expõe as quatro regras para se chegar ao conhecimento:

1– nada é verdadeiro até ser reconhecido como tal;
2 – os problemas precisam ser analisados e resolvidos sistematicamente;
3 – as considerações devem partir do mais simples para o mais complexo; e
4 – o processo deve ser revisto do começo ao fim para que nada importante seja omitido. Retornaremos ao assunto logo mais adiante.

Permitam-me, entretanto, preliminarmente, os que cá se encontram ─ neste sodalício─ tecer breves considerações sobre comunicação, já que comungo a ideia de que Comunico, logo existo, parafraseando o notável filósofo francês. O conceito de “comunicação” está evidente em diversas disciplinas, tais como Sociologia, Linguística, Psicologia, Economia; na fisiologia do sistema nervoso, na teoria dos signos, na engenharia de comunicações, e a consciência da natureza universal da comunicação existe desde há muito tempo.

Mas o que é comunicação? É uma questão essencialmente social. Aprendemos com Colin Cherry que “o homem desenvolveu uma porção de diferentes sistemas de comunicação que lhe tornam possível a vida social”. A própria palavra “comunicar” significa “partilhar” e na medida em que estamos nos comunicando, tornamo-nos um só, uma unidade. Um grupo de pessoas, uma sociedade, uma cultura, podem ser definidas como “pessoas em comunicação”. A comunicação torna a verdadeira vida social praticável. É comum referir-se ao homem como “animal comunicativo” e sabe-se que de todas as suas funções, a de construir sistemas de comunicação de infinita variedade e finalidade é uma das mais características, lembra-nos Colin Cherry, ex-professor do Imperial College, da Universidade de Londres.

Norbert Wiener, professor e cientista norte-americano, considerado o criador da Cibernética, observa que os padrões de comunicação nas sociedades humanas variam amplamente e que é preferível “viver numa comunidade social moderadamente frouxa, na qual os obstáculos para a comunicação entre indivíduos e classes não sejam por demais grandes”.

Alberto Dines, notável jornalista brasileiro afirmou, com propriedade, que a comunicação é o arcabouço da sociedade coletiva e que ela, igualmente, é o produto de maior consumo da sociedade de consumo. Para Dines, o homem sobrevive dentro do grupo na medida em que mais ele se comunica ou recebe comunicação. E mais: a escalada social de um indivíduo dentro do grupo é uma decorrência direta do seu grau de informação. E este grau de informação é fruto do seu entrosamento com o sistema do qual faz parte. Citando Wilbur Schramm, professor e pesquisador norte-americano, diz que os governos deveriam preocupar-se em criar condições para o livre trânsito de informação, alcançando todo o país e assim permitindo que cheguem à comunidade todas as informações que deverão despertar nela a vontade de progredir.

Citado por Gabriel Cohn, da Universidade de São Paulo, Harold D. Lasswel, pesquisador pioneiro do estudo da comunicação, faz-nos entender que o processo de comunicação na sociedade desempenha três funções:

a – vigilância sobre o meio ambiente, revelando ameaças e oportunidades que afetam a posição da comunidade e de suas partes componentes ao nível dos valores;

b – correlação dos componentes da sociedade, na sua resposta ao meio ambiente;

c – transmissão da herança social.

E porque faço todas essas citações na parte introdutória desta minha peroração? Pelo simples fato de que a pessoa de quem estou prestes a enunciar o nominativo e que, ato contínuo, deverá tomar posse em uma das cadeiras deste sodalício, é essencialmente, um homem de comunicação.

Conheci-o no início da década de 1970, quando ingressamos na Faculdade de Comunicação do Instituto Metodista de Ensino Superior, atual Universidade Metodista de São Paulo, de São Bernardo do Campo. Quis o destino que percorrêssemos caminhos diversos. Quis o destino, igualmente, que depois de décadas de distanciamento nos reencontrássemos e, só então, pudéssemos constatar que buscamos – e encontramos – o caminho que nos conduziu ao vértice da pirâmide que hierarquiza as necessidades humanas, conforme teorizou Abraham Maslow, no início da década de 1960, qual seja o das realizações pessoais; no caso em voga, o de amante e cultor das letras.

Em verdade, meus amigos, refiro-me a JOSÉ CARLOS DONADÃO, aqui presente, 62 anos de idade, nascido em 23 de julho de 1952, paulistano do bairro do Ipiranga, em São Paulo. Casado, pai de quatro filhos e avô de três netos, é um humanista por excelência, pois, como empresário, sempre incentivou seus colaboradores a progredir na carreira profissional e na vida pessoal oferecendo-lhes os meios para tal, como cursos motivacionais e participando de atividades em grupo, principalmente esportivas.

“Ajudei anonimamente muita gente e me decepcionei com algumas, mas hoje preciso de muito esforço para lembrar-me das decepções. Em contrapartida, as boas ações afloram nas minhas orações diárias. Sou católico e costumo ir à missa todos os domingos. Sou um rezador nato e dedico minhas orações aos amigos e também aos descrentes que já se foram e com os quais costumo brincar dizendo preciso rezar por eles porque senão ninguém vai lembrar-se deles!”, observa José Carlos Donadão.

Como afirmei há pouco, embora egressos da mesma faculdade, do mesmo curso, seguimos trajetórias distintas: enquanto eu enveredava pelos caminhos da Publicidade e da Propaganda, José Carlos Donadão trilhava o caminho do Jornalismo. Tornou-se jornalista profissional. João Ribeiro, em “Fabordão”, assim se refere a esse tipo de profissional:

“O jornalista é o que governa sem ser governo; é o juiz sem lugar entre os magistrados; é o tribuno sem assento nos parlamentos; é, enfim, um suplemento que a civilização deu às suas mesmas fórmulas imperfeitas de escolha e de organização social”.

E, como jornalista profissional atuou em diversos periódicos, incluindo-se entre eles o Diário do Grande ABC, jornal sobejamente conhecido de todos nós. Ao referir-me, no início deste texto, a René Descartes, minha intenção era inferir que o humanista e escritor José Carlos Donadão, que ora toma assento na Cadeira 17 deste sodalício, prima por pautar sua conduta pelas regras cartesianas. Do mesmo modo, compartilha o pensamento dos teóricos da Comunicação retrocitados. E isso se torna evidente quando lemos os seus textos, compilados na sua produção literária.

O Escritor.

Georges Weill, citado por José Nabantino Ramos, em seu “Jornalismo – Dicionário “Enciclopédico” afirma que “para ser jornalista não é preciso saber escrever”. Não obstante, essa afirmação não encontra respaldo quando nos referimos a José Carlos Donadão. Tanto é verdade que a sua desenvoltura no trato com as palavras levou-o a se tornar um escritor.

“Sempre gostei de ler e escrever, tinha habilidades e quando lia algum texto que mexia comigo pensava ‘eu seria capaz de escrever isso’.Cedo, ainda, comecei a rascunhar e a jogar fora meus escritos. Escrevia-os e mais tarde relia-os e jogava fora. Fiz isso até o advento do computador quando aprendi a mexer com os arquivos do word.

É desse modo que José Carlos Donadão descreve sua paixão pela arte da escrita. E para dar vazão a todo o seu cabedal de inspiração, publicou, em 2006, o romance De Encontro ao Sol, em cuja narrativa observa-se uma mistura de fatos verídicos da juventude com uma boa dose de ficção. Dele, extraímos o seguinte excerto:

“O tempo me ensinou a repensar atitudes. A longevidade me tornou mais exigente. A experiência me deixou mais perspicaz e contundente. Todas estas qualidades, eu vivi em plenitude, como meras virtudes. A vicissitude delas me deu sabedoria”.

Horizontes, trabalhado na terceira pessoa trata de um assunto corriqueiro (um filho que não conhece o pai e a mãe numa busca incessante por eles, já que os perdeu ainda criança…) é uma história romanceada com boa dose de espiritualidade.

Meu Filho é Maconheiro é um livro de autoajuda que conta a história – bem sucedida – de um rapaz que entra e consegue sair da droga e apresenta um manual para pais, professores e escolas de como proceder com esses elementos que devem ser tratados como doentes e não viciados segundo o ponto de vista do autor.

José Carlos Donadão publicou, também, livros infantis, cujas narrativas são inspiradas nos seu netos. Além disso, o escritor transita, com desenvoltura, pelo gênero biográfico. Prova disso é o livro Padre Chico de Todos Nós no qual retrata, com fidelidade, a trajetória existencial do clérigo Francisco das Dores Leite.

Senhoras e senhores!
Caríssimos confrades!

Como visto, o escritor José Carlos Donadão é um apaixonado cultor das Letras. Para mim, é motivo de regozijo apresentá-lo a esta Casa. Tenho a mais absoluta convicção de que ao fazê-lo, a nossa Academia de Letras da Grande São Paulo sentir-se-á em júbilo ao acolhê-lo de portas abertas.

Por ocasião da posse, neste sodalício, do Acadêmico Hildebrando Pafundi, fiz a citação de uma expressão pronunciada pelo poeta francês Nicolas Boileau, (L’art poétique, chant I, v.131-162), ao recepcionar François de Malherbe, considerado o pai da poesia francesa na Academia: “Enfin Malherbe vint...” Peço vênia a todos para repetir e dizer, em tradução livre, Finalmente, chegou Donadão

Seja, pois, bem-vindo, Acadêmico José Carlos Donadão!

João Bosco dos Santos
Acadêmico Cadeira 28


Pronunciamento de Posse de José Carlos Donadão à Academia de Letras da Grande São Paulo, em 25 de Setembro de 2014, na Cadeira 17, Patrono José de Alencar.

Ilustríssima Acadêmica Sra. Gioconda Labecca, digníssima Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Digníssimas autoridades presentes;
Distintos escritores e Acadêmicos presentes;
Senhoras e senhores.

Costumo dizer que um livro nos remete a outro e ao ser indicado pelo acadêmico João Bosco dos Santos a esta digníssima Academia fui remetido a um filme de muitas realizações e boas lembranças. Algumas interrogações também! Como meus pais conseguiram me influenciar a ponto de hoje ter o privilégio de conviver com pessoas tão ilustres como os membros da Academia de Letras da Grande São Paulo? A conclusão favorece minha lembrança para algo simples: começou com aquela caneta Parker 51 com tampa folhada a ouro que ganhei, num distante Natal, quando ainda cursava o ginasial no Bonifácio de Carvalho. Confesso que naquele ano queria ganhar uma bola de “capotão”, mas para minha decepção minha mãe apareceu com aquele pacotinho embrulhado num papel verde. A pedido dela meu pai fizera um carnê de várias prestações para custear o mimo.

A biblioteca Paul Harris também contribuiu nestas lembranças. Era lá o nosso ponto de encontro para as pesquisas encomendadas pelos nossos exigentes professores e ali adquirimos o gosto pela leitura. Lembro-me de cada um dos mestres e peço a Deus que ilumine o caminho dos que já se foram e abençoe os que ainda estão entre nós.

Aqui, no teatro ao lado, encenamos Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

Minha geração foi a da criatividade e da escola exigente e rígida. Era lá que buscávamos informação e ficávamos atualizados. Participávamos de eventos os mais diversos possíveis: feiras de ciência, concursos interescolares de matemática, português e aulas de inglês, francês e até noções de latim. Educação física tinha presença obrigatória e reprovava por faltas, o aluno preguiçoso. As aulas de desenho tinham uma correlação com história e geografia: desenhávamos mapas e identificávamos estados, capitais, principais cidades e a demarcação das históricas colônias hereditárias.

Informática era algo longínquo! Apenas fomos apresentados a alguns computadores e a nossa familiaridade não passou do teclado “quase” igual ao da máquina de escrever, mas tínhamos domínio dele, autoridade esta adquirida no curso de datilografia.

A escolha pela faculdade de comunicação deu-se devido à facilidade que tinha na interpretação e preparação de textos e o gosto pela leitura, porém a opção para a área de jornalismo somente se daria no início do terceiro ano e minha ansiedade era tanta que logo no segundo ano de faculdade fazendo um paralelo ao meu emprego principal que era na General Motors fui trabalhar como repórter esportivo no Diário do Grande ABC. No primeiro dia de trabalho, ao sair para a primeira reportagem o editor disse-me: – Faça apenas uma lauda da matéria. Meio tímido perguntei a um colega de trabalho – o que é lauda? Em voz baixa ele me respondeu: – É essa folha que você está levando para fazer anotações. Bendito Divanei.

De lá para cá nunca parei de escrever, mas não tinha o hábito de arquivar tudo o que produzia até o advento do computador. Com ele comecei a criar arquivos e guardar anotações, até que em 2002, comecei a gerenciar melhor o meu tempo e passei a dedicar parte dele à terapia que mais prazer me deu até hoje: escrever livros.

Sinto-me honrado pela indicação a esta Academia, e ela só terá brilho e significado com o registro dos meus sinceros agradecimentos:

Agradeço a Deus acima de tudo pelas oportunidades que me proporcionou até aqui;
Aos meus pais, in memoriam, pelo exemplo e dedicação;
À minha esposa pela tolerância, compreensão e apoio;
Aos meus filhos e netos pelo incentivo e respeito ao meu trabalho;
Ao acadêmico João Bosco dos Santos, pela lembrança e indicação;
Aos amigos que dividem comigo o orgulho de partilhar a alegria que estou sentindo.
Muito obrigado.

Agora gostaria de falar algo sobre José de Alencar

”É um teimoso esse filho de padre”

Teria dito aos seus pares o imperador D. Pedro de Alcântara, o II, num acesso de raiva, ao então ministro da Justiça José Martiniano de Alencar. Quem o conhecia sabia que ele deveria estar muito furioso para pronunciar tal frase.

O fato marcaria José de Alencar para sempre e apesar de sentir-se injustiçado, os amigos também foram se afastando dele e sua vida política foi desmoronando. Alencar nunca se curvou para os casos de política e evitava sistematicamente comparecer às festas e solenidades oficiais. Isso irritava o imperador.

Herdou do pai apenas o gosto pela política, mas não tinha a mesma astúcia e flexibilidade do velho José Martiniano d’Alencar, vigário por dois anos de Messejana, interior do Ceará, onde celebrou aproximadamente 50 batizados. D´Alencar foi deputado pelo Ceará, senador pelo Rio de Janeiro e finalmente governador do Ceará. José de Alencar foi fruto de uma união ilícita do padre com a prima Ana Josefina de Alencar e nasceu em primeiro de maio de 1829. Existem controvérsias sobre a data verdadeira do seu nascimento uma vez que no registro de batismo consta “nascido em primeiro de março” e a data do batismo no dia nove do mesmo mês, porém a família comemorava seu aniversário em primeiro de maio. Antes de tornar-se nacionalmente conhecido por José de Alencar era chamado de Cazuza pelos familiares e amigos.

Aos 15 anos de idade acompanhou um primo que o visitou na casa dos pais no Rio de Janeiro e veio para São Paulo dividir uma república com ele na Rua São Bento para estudar Direito. No curso preparatório foi companheiro de Álvares de Azevedo. Com o pai doente transferiu-se para a faculdade de Olinda e com a recuperação do pai voltou a São Paulo onde concluiu o curso. Aos 18 anos de idade já havia esboçado o primeiro romance, Os Contrabandistas.

Aos 25 anos novamente no Rio, foi trabalhar num escritório de advocacia. Começava o exercício da profissão que jamais abandonaria e que garantiria o seu sustento. Afinal, como ele próprio assinalou, não consta que alguém já vivesse, nesta abençoada terra, do produto de obras literárias.

Arriscou-se como colaborador no jornal Correio Mercantil, do Rio, mas depois de um artigo censurado desligou-se da função.

Foi no Diário do Rio de Janeiro que estreou como romancista: em 1856 publicou em folhetins o romance Cinco Minutos. Ao final de alguns meses, completada a publicação, juntaram-se os capítulos em um único volume que foi oferecido como brinde aos assinantes do jornal. No entanto, muitas pessoas que não eram assinantes procuraram comprar a brochura. Alencar comentaria: ”foi a única muda, mas real animação que recebeu essa primeira prova. Tinha leitores espontâneos, não iludidos por falsos anúncios. Em miúdos ilustrava a queixa que se tornaria obsessiva ao longo dos anos: a de que a crítica atribuía pouca importância a sua obra.

Como redator-chefe José de Alencar usava o Diário do Rio de Janeiro como um veículo de comunicação que lhe permitisse expressar livremente seu pensamento. Polêmico e politicamente correto o escritor confrontava-se indiretamente com ninguém menos que o imperador D. Pedro II.

Domingos Gonçalves de Magalhães (que seria posteriormente considerado como o iniciador do Romantismo brasileiro e favorito do imperador) escreveu um longo poema intitulado A Confederação dos Tamoios, onde fazia um exaltado elogio à raça indígena. D. Pedro II, homem voltado às letras e artes, viu no poema de Magalhães o verdadeiro caminho para uma genuína literatura brasileira. Imediatamente, o imperador ordenou que se custeasse a edição oficial do poema. Alencar, sob o pseudônimo “Ig”, utilizando o jornal como veículo, escreveu cartas a um suposto amigo, questionando a qualidade da obra de Magalhães e o patrocínio da publicação por parte do imperador: “As virgens índias do seu livro podem sair dele e figurar em um romance árabe, chinês ou europeu (…) o senhor Magalhães não só não conseguiu pintar a nossa terra, como não soube aproveitar todas as belezas que lhe ofereciam os costumes e tradições indígenas…“.

Ninguém sabia quem era o tal Ig, e mais cartas foram publicadas sem merecer réplica. Após a quarta delas alguns escritores e o próprio imperador, sob pseudônimo, vieram a público na defesa de Magalhães. Ig não deixou de treplicar. Considerava-se injustiçado e perseguido e até passado para trás, pois já escrevia sob o tema e a cultura indígena.

Alencar considerava a cultura indígena como um assunto privilegiado, que, na mão de um escritor hábil, poderia tornar-se a marca distintiva da autêntica literatura nacional. Mas veja bem: na mão de um escritor hábil.

Aos 35 anos casou-se com Georgiana Cochrane e muitos historiadores vêm no romance Sonhos d´Ouro algumas passagens que retratam a sua felicidade conjugal.

Na mesma época enveredou para a política e foi eleito deputado. Em seguida foi nomeado Ministro da Justiça. Candidatou-se ao senado, contrariando a opinião de D. Pedro II e foi o mais votado dos candidatos de uma lista tríplice. Ocorre que, de acordo com a constituição da época, a indicação definitiva estava nas mãos do imperador. E o seu nome foi vetado.

Refugiou-se no seu sítio da Tijuca, onde voltou a escrever. Desse período resultam O Gaúcho e A Pata da Gazela (1870). Tinha 40 anos, sentia-se abatido e guardava um imenso rancor de D. Pedro II. Eleito novamente deputado, voltou à Câmara, onde ficaria até 1875. Nunca mais, como político, jornalista ou romancista, iria poupar o imperador.

Em 1865 e 1866 foram publicadas as Cartas Políticas de Erasmo. Partindo da suposta condição de que D. Pedro ignorava a corrupção e a decadência em que se achava o governo, Alencar dirige-se ao imperador tentando mostrar a situação em que se encontrava o País, com seus inúmeros problemas, entre eles o da libertação dos escravos e o da Guerra do Paraguai (1865-1870), onde o Brasil perdeu quase 100 mil homens.

Em 1876, Alencar leiloou tudo o que tinha e foi com Georgiana e os seis filhos para a Europa, em busca de tratamento para sua saúde precária. Tinha programado uma estada de dois anos. Durante oito meses visitou a Inglaterra, a França e Portugal. Seu estado de saúde se agravou e, muito mais cedo do que esperava, voltou ao Brasil.

Apesar de tudo, ainda havia tempo para atacar D. Pedro II. Alencar editou alguns números do semanário O Protesto durante os meses de janeiro, fevereiro e março de 1877. Nesse jornal, o escritor deixou vazar todo o seu antigo ressentimento pelo imperador, que não o havia indicado para o Senado em 1869.

Com a glória de escritor já um tanto abalada, morreu no Rio de Janeiro, em 12 de dezembro de 1877. Ao saber de sua morte, o imperador D. Pedro II teria se manifestado assim: “Era um homenzinho teimoso”. Mais sábias seriam as palavras de Machado de Assis, ao escrever seis anos depois: “José de Alencar escreveu as páginas que todos lemos, e que há de ler a geração futura. O futuro não se engana”.

É o patrono da Cadeira 23, da Academia Brasileira de Letras por escolha de Machado de Assis.

José Carlos Donadão
Cadeira 17


Escritor é o individuo que usando da arte de escrever expressa emoções publicando-as principalmente num livro. Principalmente, porque e não necessariamente precisa ser considerado escritor só o individuo que publica um livro, porém o fato de ter a sua autoria registrada com nome e numero na obra corrobora e dá fé a profissão.

Considero-me escritor antes mesmo de formar-me em jornalismo. Cultivo o hábito de escrever desde os tempos de ginásio. Ouvia alguma “pérola” de algum professor e registrava-a na ultima página do corriqueiro cadernão de sete ou oito matérias, nem lembro mais… No trabalho, também não deixava escapar nada.

Tinha a esperança de algum dia publicar algo engraçado e que interessasse ao publico, assim como me interessavam estórias de Monteiro Lobato, Machado de Assis, José de Alencar e a poesia de Vinicius de Morais.

Sempre tive predileção por romances e por vezes sonhava com aquele monte de papel que juntei. Nestes sonhos, meu cérebro criava situações que misturavam personagens e ações. Meu subconsciente alinhavava estórias e a comunicação dele com o meu consciente deixavam-me eufórico quando acordava.

Quando decidi que estava pronto para publicar um livro comecei pelas antigas lembranças e a partir delas intercalei a ficção que escrevera no passado e que agora pertenciam aqueles sonhos que sonhei.

Quando me perguntam “como nasce um escritor” respondo:

– É simples, é preciso sonhar.