Maria do Céu Formiga de Oliveira

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Patrono: Mário Quintana
Cadeira 38


BIOGRAFIA

Profissional da área da Psicologa aplicada  as áreas Clínica, Organizacional, Institucional e Comunitária com projetos relacionados à promoção da vida nos países : Cuba, Inglaterra, França, Estados Unidos , Israel e Suíça.

Professora universitária , escritora  e aquarelista com experiência  no trânsito livre entre a ciência e a arte enquanto expressão do íntimo.

E-mail: avedosol@uol.com.br


BIBLIOGRAFIA

Visões de um anti herói;
Trajetória do silêncio;
Primeiro Pôr-do-sol;
Remanso e outros Recantos;
Um piscar do Infinito;
e
Delicadezas.

Participações em coletâneas:

As cidades cantam o Tamanduateí que passa;
Um olhar Poético sobre São Caetano;
Cantos e Recantos;
Ler para Crer;
Terapeutas na Cozinha;
Noi, DonneSfide e Conquiste Dei Nuovi Tempo (lançado no XXVII Salão Internacional de Torino, Itália);
Women Writes in The World (Lançado III Encontro Mundial de Escritores Brasileiros no Exterior e II Seminário sobre a Literatura de Brasileiros no Exterior na New York University em parceria com Queen Mary University of London e a Biblioteca Brasileira em Nova York).


Pronunciamento de Apresentação de Maria do Céu Formiga de Oliveira, em sua posse na Academia de Letras da Grande São Paulo, proferido pelo acadêmico José Roberto Espíndola Xavier.

Caríssima Maria,

Aliada a uma grande satisfação, maior ainda é a responsabilidade em saudá-la nesta academia, principalmente sabendo-a, a partir de agora, lídima depositária da memória do imortal Mário Quintana.

Profunda conhecedora da obra deste genial poeta, torna-se-lhe fácil admitir fundamento em nossa preocupação, analisando a perspicácia e irreverência do notável gaúcho ao opinar sobre estas situações, quando diz: “Um discurso em nossa homenagem é uma verdadeira surra às avessas: fica-se naquele estado horrível e sem palavras para revidar.” Esperamos não merecer nenhum revide.

Tentaremos, por outro lado, contradizer aquela assertiva lançando mão da liberdade que ele mesmo nos confere nesta outra: “A modéstia é a vaidade atrás da porta”. Oxalá tenhamos o equilíbrio necessário para permear as portas abertas do coração sem colidir com os oxímoros: modéstia vaidosa ou vaidade modesta.

Sras. e Srs, Confrades e Confreiras,

Nesta noite engalanada, nesta casa de letras, nesta vida em quimeras vivida, uma artimanha do destino se sobrepõe, hoje, a um pretenso mérito, em favor de honroso privilégio ao guindar-nos a este púlpito e nos dar a oportunidade de lhes dirigir estas palavras. Tanto assim o é, que ora nos assoma a convicção inequívoca de que aqui, neste momento, se faz justiça. Não falo da justiça como ato reparador de um erro que por intenção houvéssemos cometido, mas no reconhecimento de que tardamos no resgate de um talento que desabrochou e floresceu bem junto a nós, no átrio das nossas convivências literárias e ao alcance dos nossos sentidos. Se estes falharam e se, por ato do Criador, a nós incumbe comandá-los, negligenciamos na luta em prol do Bom e Belo; princípios inscritos  em nosso brasão como alicerces dos propósitos desta casa.  Assim, creiam, apresentar Maria do Céu neste sodalício, além de elevada honra, nos traz a alegria do dever cumprido.

Há mais de meio século, nos idos de 1953, de Pombal da Paraíba, chegavam a São Caetano do Sul Francisco e Anathildes, com a conhecida garra dos migrantes nordestinos. No ventre da mãe, Maria do Céu. Os anos trouxeram, além de Maria, Manoel e Maria de Lourdes, compondo uma família unida pelos princípios religiosos e consciente da necessidade do aprimoramento cultural, este sempre priorizado apesar das restrições econômicas. Francisco, ferroviário falecido há poucos anos, costumava presentear os filhos com livros e, Anathildes (D. Nenê), além de exímia cozinheira, ainda escreve pensamentos.

Nesse sadio ambiente cresceu Maria, cuja brilhante trajetória escolar, até tornar-se professora universitária com experiência internacional, os Srs. tomaram conhecimento na apresentação resumida do seu vasto currículo.

O pendor pelas letras foi sempre, como o é para muitos escritores, um refúgio para a sua timidez. Sabemos que esta associação gesta nas almas sensíveis o embrião do lirismo. Cresce, invade, sufoca e irrompe de maneira tão impetuosa que se assume geratriz de metamorfoses que transmutam as mais discretas personalidades em gigantes da dialética. Diferentemente dos poemas épicos e dramáticos, a poesia lírica materializa irrealidades, exala sentimentos e revela elos existencialistas ao desnudar inquietudes esconsas nos recônditos do Eu.

A primeira irrupção literária de Maria do Céu veio com o livro Visões de um Anti-Herói (1980). Antes, durante a faculdade, fizera parte do grupo de teatro, encenando as peças: Fernando Primeira Pessoa e Francisco de Assis. Corria o ano de 1980; fervilhava no peito dos jovens a revolta pelo cerceamento de liberdades durante fase obscura da história do Brasil.

Confiram nestes versos do poema Contramão: “Que a gente não passa de uma estrutura ideológica e didaticamente dividida, que a gente que ama a arte, batalha às vezes contra, às vezes a favor dos sonhos, mas raramente se encaixa no contexto, que o espaço vital foi roubado e o negócio é se encolher e proteger o coração trincado.”

Aconteceu na nossa juventude, época de auto-afirmação, de entusiasmo com o futuro, de cultuar mitos e eleger ídolos, com muitos dos quais hoje jamais nos permitiríamos identificar! Destarte, pertencemos a uma geração carente de líderes, acéfala de heróis, mas que traz no sangue o vírus libertário que revolucionou a cultura dos anos 60 ao contestar os costumes vigentes, muitas vezes com arroubos de ingenuidade ufanista.

Pouco tempo depois, Maria nos brinda com Trajetória do Silêncio (1981). O amadurecimento refletido na constante preocupação com o social faz com que se anteveja o afloramento do viés romântico e, ainda, sua decepção com o “status quo”. Nele, alguns versos são como gritos ecoando no despenhadeiro, quando a certeza da impotência dos atos faz da voz a única opção de protesto. Assim, Maria, apesar do título deste livro, você se negou ao silêncio. Ganhamos todos nós com a profundidade de versos tais como: “Se te parar na rua não açoite a iniciativa; sou marginal, embora não coma sob o sol. Meus limites são rígidos assim como meus pedaços e meus sonhos…”

No dia seguinte ao sucesso do relançamento desta obra, Manoel partiu subitamente, inesperadamente, aos 36 anos. A angústia e a dor traçaram um inesquecível caminho de saudade por onde você trilhou, espalhando fecundas sementes de amor que germinaram no seu terceiro livro, Primeiro Pôr do Sol, em 1987.

Nele se nos apresentam metáforas belíssimas e a acentuação da suavidade lírica como uma definição de estilo; a profunda religiosidade e a identificação com a natureza, com o bucólico. Explicita aqui sua crença na continuidade da vida: “E o sol continua vermelho e vespertino, continua se pondo, independente de mim e além de mim”. Permita-me dizer-lhe: ele também é matutino e, felizmente, continua a se levantar sempre para iluminar trevas e dissipar as névoas de cada novo dia…

Em 1994 veio Remanso e Outros Recantos, seu quarto livro. O dicionário nos mostra: remanso – pausa, repouso, paz. Trecho em que o rio se alarga diminuindo o ímpeto da correnteza. Recanto: esconderijo, escondedouro. Este título define por si só o trecho da sua carreira literária no qual o caudal das emoções se amaina em águas profundas e serenas do autoconhecimento, onde você se harmoniza com os sentimentos mais rebeldes e retoma o leme do barco da vida, dando-lhe direção e sentido no périplo em busca dos recantos sonhados. Aqui, você plasma suas ilusões, esculpe seus desejos.

Ouçam: “Sou livre para as confissões de amor sem aparente retorno e para viver o alumbramento tão inútil aos que só sabem pensar. Tenho amado coisas que ninguém vê. Por isso me acham solitária. Sou tímida, apenas”.

Em sua última publicação, Um Piscar do Infinito, em 2004, fui encontrá-la, Maria, lá onde a terra se funde com o céu, no horizonte em cuja tela o arco-íris da esperança repousa seus extremos; no oráculo onde o intelecto, em comunhão com o numinoso, engendra respostas aos nossos mistérios, pacificando lutas e eximindo temores. Sintam nestes versos que intimizam criatura e Criador: “O gesto mais nobre que se pode fazer a uma semente é sepultá-la… Alguém fez isto por mim, enquanto calmamente eu dormia sob o efeito da graça que cria a certeza de que nada é permanente…”

Por tanta paz emanada, por tanta luz recebida , por tanta fé compartilhada, eis algumas razões do imenso júbilo em recebê-la. A ALGRASP cresce hoje em talento, fortalece suas colunas e se aprimora na missão de contribuir para a evolução da cultura literária da nossa gente. É do nosso ofício, confreira presidenta, perseverar neste garimpo, que pedras preciosas as encontraremos, muitas outras, ricas em quilates e pródigas em cores.

Urge rompermos a redoma do hermetismo pela aglutinação criteriosa de novos literatos e pela participação efetiva nos movimentos culturais que nos sejam afins, para não estagnarmos em procedimentos bizantinos. Acreditemos na força da palavra escrita, ampliada pela incrível capilarização e vertiginosa velocidade da comunicação na era eletrônica, como fator modificador do comportamento humano e catalisador na construção de um mundo mais justo. Nestes tristes dias de liquescimento da ética nas relações e de miséria moral das instituições, lembremos dois pensamentos positivos,  unindo o passado e o presente:

“Sapere Audi”- Ousai saber – Quando Immanuel Kant, no auge do Iluminismo, instava o Homem a sair do estado de minoridade, pela decisão e coragem de usar o intelecto.

“Yes, we can” – Palavra de ordem de Barack Obama, num momento sócio-econômico difícil do país símbolo do capitalismo, superando preconceitos étnicos e religiosos.  Sinal dos tempos. Tempos em que não há mais lugar para ilusões sebastiasnistas ou aventuras quixotescas.

Sras. e Srs., iniciamos nossas palavras com a irreverência de Quintana; com suas devidas vênias, vamos encerrá-las com uma heresia. Que nos perdoem os muito cristãos, pois, dos amantes da poesia, já esperamos contar com a indulgência.

Ave Maria, cheia de versos,
Com louvor, estais conosco.
Bem-vinda sois vós a esta confraria,
Bem-vindo é o fruto da vossa arte,
O encanto da vossa poesia…

 Jose Roberto Espíndola Xavier
Cadeira 24  – Patrono Alberto de Oliveira


Pronunciamento de Posse de Maria do Céu Formiga de Oliveira na Academia de Letras da Grande São Paulo, em 27 de Agosto de 2009.

A HONRA DE TER UM LUGAR PARA SONHAR

Ilma. Acadêmica Gioconda Labecca, digníssima Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Ilmo. Acadêmico Rinaldo Gissoni, digníssimo Vice-Presidente;
Ilmo. Acadêmico José Roberto Espíndola Xavier nobre apresentador;
Prezados e nobres acadêmicos;
Senhoras e Senhores.

Amigos,

Antes de protagonizar possível cena desalinhada pelo excesso de emoção, quero agradecer ao caro amigo que me apresentou, nobre acadêmico José Roberto Espíndola Xavier, cuja delicadeza de gesto me emocionou a tal ponto que me senti dentro de um verso sincopado, flutuando, sonhando e tocando o céu.

Natural e esperado que agora relute em sair deste estado de vigília, pôr os pés no chão e… declamar.

Observo que estou sob o efeito do encantamento.

Muito obrigada… De todo o coração.

Como um macinho de frases que consteladas lá no íntimo, escapam das mãos e viram poema, por este mesmo caminho, aqui cheguei.

Não planejei… Nunca pensei em ser contemplada com tamanha graça.

Mas, aqui estou e embora pequena, sou real.

Vim em turma, foram meus versos que me trouxeram pelas mãos.

Esses amigos de infância… frutos de amor à primeira vista que exalam o aroma da eternidade, não me largam… são sinceros e sentidos como chuva de verão.

Embora tenha consciência da longa trajetória, escrevo desde os nove anos, não imaginei que os pequenos escritos em papel de embrulhar pão, guardados secretamente na lancheira, fossem se tornar não só meus companheiros de jugo, mas companheiros de tantos que hoje, contemplo neste sodalício.

E quando penso em que cadeira me sentarei nesta Casa de Cultura tão respeitada e reconhecida pelos ilustres moradores, dou-me conta da textura da honra que é sentar na quininha de Quintana, meu patrono – o pequeno grande MÁRIO QUINTANA – que escrevia para redesenhar os lapsos com a indisciplina de quem precisa sempre se surpreender.

Grande literato que sempre admirei com paixão…

Justo ao lado dele vou ficar?

Perguntaria o inquieto Carl Jung: – que sincronicidade é esta? O que têm vocês em comum?

Fora a singularidade da estatura, o que temos em comum?

Será que o fato dele ter dito e repetido: “Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente… Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão?”.

Ou será que por conta do bom humor revelado quando lhe pediram que se apresentasse, tenha respondido: “nasci no rigor do inverno, temperatura um grau e ainda por cima prematuramente, o que me deixou meio complexado, pois achava que não estava pronto?” Pequenez insinuada e resolvida até que descobriu que Einstein era tão miudinho quanto ele, no entanto…

Ou será a forma como discretamente se apresentou?

“Dizem que sou tímido. Nada disso. Sou é caladão. Introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?”

Quem tem uma inclinação introspectiva não tem medo da dança das sensações, dos sentimentos extremes, os acolhe no rascunho, não se preocupa em passar a limpo, não se torna refém da euforia, da irregularidade das circunstâncias, afirma que se agitação é defesa, é preciso encontrar um lugar de silêncio para encontrar a si mesmo e saborear a solitude, inclinação a excelência, experiência do infinito.

Essa vida toda repicada de verdades e lamentos que embala a humanidade de cada um de nós é cantada em seu poema:

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa
Quando se vê, já são seis horas
Quando se vê, já é sexta-feira
Quando se vê, já terminou o ano
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida
Quando se vê, já se passaram 50 anos
Agora é tarde demais para ser reprovado
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho a casca dourada e inútil das horas. 

Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta devido a falta de tempo,
pois a única falta que terá,
será desse tempo que
infelizmente não voltará mais”.

Só para avivar a memória selecionei alguns dados biográficos.

Em 1906 nasce Mário Quintana, numa noite fria de 30 de julho em Alegrete, Rio Grande do Sul. Quarto filho de Celso de Oliveira Quintana, farmacêutico e de dona Virginia de Miranda Quintana. Em 1914 frequenta a Escola Elementar Mista de Dona Mimi Contino. No ano seguinte, a escola do mestre português Antonio Cabral Beirão, concluindo ali o curso primário. Aos 13 anos matricula-se no Colégio Militar de Porto Alegre, em regime de internato e publica suas primeiras produções literárias. Em 1924, deixa o colégio militar empregando-se na Livraria Globo e, no ano seguinte, já em Alegrete, começa a trabalhar na farmácia do seu pai.

Em 1926 morre-lhe a mãe. Neste mesmo ano é premiado em um concurso de contos do jornal Diário de Notícias de Porto Alegre com o trabalho A Sétima Personagem.

Em 1927 morre seu pai. Dois anos após, em 1929 – ingressa na redação do jornal O Estado do Rio Grande, em Porto Alegre.

Em 1930 alista-se como voluntário do Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre partindo para o Rio de Janeiro, onde ficaria por seis meses. No ano seguinte em 1931, regressa à Porto Alegre e à redação de O Estado do Rio Grande. Passados três anos, tem sua primeira tradução publicada: “Palavras e Sangue” de Giovanni Papini e começa a traduzir efetivamente para a Editora Globo. Traduz entre outros autores: Fred Marsyat, Alessandro Varaldo, Emil Ludwig, Lin Yutand, Charles Morgan, Marcel Proust, Virginia Woolf.

Algumas de suas memoráveis produções:

A RUA DOS CATAVENTOS, 1940 – coletânea de sonetos de temas diversos em tom melancólico. Poesia sincera, que declara o quanto o ser humano é assim mesmo, às vezes não aguenta, adere à falta de fôlego e depois retoma porque a desordem lá, de dentro do peito, não é opcional, acontece simplesmente.

O LIVRO DAS CANÇÕES, 1946 – nesta coletânea aposta um piscar de olhos num certo mundo revisitado por uma estrada mais alegre onde os lugares são lagares aconchegados pelo Sol. Isentando-se da preocupação de escrever em prosa ou em verso, apresenta seu Anjo Malaquias, misto de criança e pássaro talhado para a inocência e para o sofrimento. Assim, entrega ao leitor, passaporte para uma viagem vizinha do indivisível.

Já familiarizado até o penúltimo fiapo com a literatura e com a poesia, vemos escancarada a sua definição de poema como um “objeto súbito” ou “um gole de água bebido no escuro”.

Sua produção literária corre solta feito andorinhas em praça pública anunciando a mudança de estação. Alguns títulos: Aprendiz de Feiticeiro, 1950; Espelho Mágico, 1951; Pés de Pilão, 1968; Apontamentos de História Sobrenatural, 1976; Esconderijos do Tempo, 1980; Nariz de Vidro, 1984; Bando de Espantos, 1986; Preparativos de Viagem, 1987; Da Preguiça como Método de Trabalho, 1988; Porta Giratória, 1988; A Cor do Invisível, 1989 e Velório sem Defunto, 1990.

Ao completar 80 anos, é lançada a coletânea 80 Anos de Poesia e recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Unisinos e pela PUC-RS.

Um fato importante: em 8 de julho de 1983, após aprovação por unanimidade na Assembléia Legislativa, o prédio do antigo Hotel Magestic (onde foi hóspede de 1968 à 1980), tombado como Patrimônio Histórico do Estado, passa a denominar-se Casa de Cultura Mário Quintana, – ponto de encontro dos apaixonados pela delicadeza da arte como expressão do íntimo.

Em 1990 é eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, tornando-se o quinto poeta a receber este título. Seus antecessores: Olavo Bilac, Alberto Oliveira, Olegário Mariano e Guilherme de Almeida.

Em 5 de maio, próximo dos seus 87 anos, discretamente, morre.

Na época, movida pela nostalgia de quem perdeu no meio do nevoeiro, um querido do coração, escrevi:

O gesto mais nobre que se pode fazer
a uma semente é sepultá-la e ensiná-la
que a vida sempre se renova
com o pouco que lhe resta…


Agora, neste quarto minguante de lua, sacralizada pelo silêncio, constato que a vida sempre se renova mesmo com o tanto que se lança no escuro terra abaixo.

Olho para vocês e não tenho dúvida, estamos aqui porque cada um, a seu modo, descobriu entre as miudezas da vida que, pode ser, não chegue de verdade, mas, sempre chegará através da imaginação. E quanto requinte há em chegar através da imaginação, trazendo sempre à memória apenas o que pode redundar em esperança.

Mário Quintana continua ensinando muito.

Existem literatos que são assim mesmo, são especiais, defensores da liberdade de criação, rejeitam valores políticos e ideológicos, descartam o engajamento a qualquer escola literária. Não se deixam influenciar mesmo durante o apogeu de certas ondas. São atentos ao mundo e dialogam com ele através da sua obra.

Com um conjunto de sonetos, canções, poemas de forma livre, epigramas e tantas outras composições, a obra surpreendente de Quintana prima por sua irreverente diversidade.

Gestos amarfanhados em tom regredido, ele os viveu quase todos e nem por isso deixou de orvalhar e entreluzir.

Disse Quintana certo dia:

“Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquele(a) cara que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem(a mulher) da sua vida. Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas… é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando você”.
Quem nunca o parafraseou escrevendo o “Bilhete” para enviá-lo ao objeto do seu amor, recém-conquistado?
“Se tu me amas, ama-me baixinho
não o grites de cima dos telhados
deixa em paz os passarinhos…”

 Por essas e outras é que iniciei meu canto, nesta noite, dizendo que quando penso ao lado de quem me sentarei nesta Casa de Cultura – quininha de Quintana – eu corria o risco de protagonizar cenas desalinhadas pelo excesso de emoção… Fui sincera, cuidei bem dos melindres, mas quase perdi o tom.

Como disse, vim em turma, foram meus versos que me trouxeram pelas mãos, e eles não existiriam se eu não tivesse sido agraciada, em primeiro lugar, pelo mimo de Deus, por ter Ele sonhado comigo salmodiando e tomando-me em seu colo como uma ovelha de beicinho cor-de-rosa quando a noite aninhava assombros em meu peito pelos desertos da Judéia. Agradeço, Senhor, por constelar milagres sobre os pequenos e os inamáveis.

Meus versos também não existiriam se não tivesse sido contemplada pela família que tenho. Pelos que ainda andam sobre o mar e pelos que descansam pelos campos de alfazema. Amados que saíram voando feito andorinha anunciando nova estação e ainda assim, sinto que continuam por perto soprando a penúltima lágrima que insiste em escapar por tanto e insistente amor: meus tios José, Carlos e minha doce tia Matilde.

Meu pai, tímido franciscano, íntegro ferroviário, autodidata amante do silêncio, leitor contumaz que nunca deixou faltar um livro sequer da lista dos meus desejos, nem aquele olhar de ternura sem fim que ficou retido na memória afetiva de cada encontro.

Meu irmão Manoelzinho, mimoso e cheio de “bigode”, sensível feito uma camélia que se desvanece ao afago, que fazendo escadinha para eu olhar por cima dos muros, encantou os jardins da nossa meninice. Um Marcelino Pão e Vinho que, em sonhos, até hoje, trago do céu para brindar a vida.

De modo especial, meu Tio Joaquim Formiga cuja história de vida reeditou e continua reeditando grandes heróis da literatura… Seu amor à palavra escrita ou inflamada pelos palanques, alumbrou meu peito e sinto, mais do que nunca, orgulho por ter tomado água limpa em sua caneca amassada pelas merecidas glórias e conquistas.

Minha mãe, pequenina, humilde, generosa senhora que flagrei infindáveis vezes me expondo ao mundo com incorrigível admiração. Escritora de pensamentos poéticos registrados em cadernos de “araminho” com aquela letra romanticamente bordada e ávida para salvar o indefeso, independente do gênero, origem, história ou futuro.

Minha irmã, Lurdinha, especial em sua indiscutível capacidade de reproduzir com requinte o milagre da vida, com quem tenho aprendido dia após dia a aceitar o destino pelo espectro do mistério e a amparar sementes prenunciando flores e frutos que me envolvem em encanto e esperança.

A todos vocês dos quatro cantos e de todos os tempos.

Ao alcance do olhar amigo sinto-me como um botão de tulipa que só precisa de setembro para florescer. Com vocês divido este capítulo que enternece meu peito já tão apertado de gratidão.

E que eu saiba honrar o privilégio de ter aqui um cantinho para sonhar.

Graças a Deus por tudo.

Maria do Céu Formiga de Oliveira


OS PRIMEIROS PASSOS E A POÉTICA DE DEUS

Escolho sempre escrever momentos da vida que podem promover uma espécie de união consolidada entre a declaração sincera do que vivi de fato e uma discreta viagem poética. Minha opção é pela delicadeza do olhar, pelo que é digno de ser eternizado.

Quando eu era criança, criança mesmo, não como sou hoje, de uma meninice eventual, morávamos numa casa térrea, pequena, graciosa, simples, bem cuidada, caiada pelo meu pai em tons claros, infalivelmente, na época que antecedia o natal. Uma casa com varanda discreta e um jardim cultivado como se cultiva um sonho que tem estação certa para despertar. Neste, os copos de leite não paravam de surgir, assim como as lavandas que eu colhia, esfregava na gola do uniforme da escola na tentativa de fazer diferença, deixar um rastro por onde passasse. Foram essas miudinhas em tom lilás que me ensinaram que perfume mesmo só se colhe no jardim da infância.

Minha casa ficava guardada, quase escondida no fundo de um corredor comprido, piso de cimento queimado, varrido, escovado sem lamento. Cinco metros de largura por doze de comprimento separavam nosso bangalô da rua. Entre nosso cotidiano e a calçada, havia uma estrada que nos permitia retocar nossos desejos antes de partilhá-los.

Ali morava uma família de bom coração. Todos muito sensíveis.

Meu pai, um trabalhador honestíssimo que nas horas de folga, dedicava-se às suas habilidades especiais, como confeccionar sapatos de couro sob medida, mobília de madeira para casa, e aos seus prazeres como ouvir música de qualidade inquestionável e ir ao cinema famoso da cidade que, por sinal, a ganância da expansão imobiliária, há poucos anos, levou pelos ares.

Minha mãe, miudinha e charmosa, incansável em colocar encanto na mesa, no jardim, nas roupas que vestíamos, feitas com muito requinte pelas suas mãos, não repousava.

E no meio deste cenário, brincávamos eu e meu irmão cinco anos mais velho. Menino de cabelo escuro, liso, bem aparado, bem arrumado, sério, de olhar meigo e muito solidário.

E eu, pequena demais, cabelos claros, encaracolados e sempre enfeitados. Criança atenta a tudo, às mínimas expressões, preocupada e parceira até o último capítulo.

Vivíamos os quatro um dia de cada vez, sem preocupação com a véspera. Gastávamos o nosso prazo sem medo de nos ferirmos a cada curva de prazer.

E foi nesta família que Deus decidiu permitir a chegada de mais uma criaturinha. Chegou uma irmã. Linda, cabelos escuros, cachos para todos os lados, pele clarinha feito bruma de outono, olhos vivos e alumbrados pelo desconhecido. Chegou com a motricidade comprometida, sequela de uma paralisia inesperada. Nos primeiros dias a condição especial, doeu em todos nós. Uma dor que de tão incômoda levou-nos a procurar um canto para deixá-la descansar… E a deixamos no jardim onde tudo se renova em silêncio, em segredo…

Mas, como minha irmã chegou insistentemente mais acesa e mais disponível à alegria que os quatro juntos, foi impossível não nos contagiar. E nós, nos encantamos pela ideia da reorganização dos bastidores, das descobertas que só seriam possíveis nos redemoinhos das urgências, dos arrepios que viriam sem serem convidados, de habitarmos dali para frente, no colo da eterna promessa: na nova caminhada, sensível e incansavelmente, Deus estaria conosco. Acreditamos.

E fomos aprendendo que amar também é maternar. Desenvolvemos habilidades e virtudes preciosas; como o toque, que chegando com cheirinho de esperança, interrompe desistências e fracassos; como o olhar, que ajuda a atravessar a solidão do inverno; como a paciência para acompanhar, pausadamente, o crescimento de quem não desabrocha de súbito, desabrocha devagar deixando o vestígio das pequenas conquistas, como a linguagem que imprime compaixão duradoura que não desaparece ao nascer do dia… permanece como o infinito.

Foi naquele corredor largo e comprido que desenvolvemos, com aprovação dos especialistas da saúde, o método de exercitar o tônus muscular das pernas daquela meiguice de dois anos, que ainda não andava. Fazê-la caminhar tornou-se o brinquedo que sonhávamos fora do pacote. Presente exposto feito um espetáculo aguardado pelos apaixonados pela vida.

Por longos meses eu e meu irmão, ele pela manhã, eu à tarde, diariamente, colocávamos minha irmã de pé, dobrávamos uma toalha de banho em quatro, formando uma faixa larga, que colocávamos em sua cinturinha delgada, e segurávamos atrás em suas costas com nossas mãos pequenas, mas firmes e seguras. Sob nossa proteção e com calma, forçávamos a sua andança, uma passada a frente da outra.

Havia tanto amor naqueles pequenos gestos… O amor tem esse dom, o de nos socorrermos do que surge sem retoque e sem aviso.

Por um bom tempo transitamos pela estradinha do milagre esperado, eu e meu irmão com empenho, ela com tremenda dificuldade e animação que nos sensibilizava e nos impulsionava cada vez mais a, juntos, arrastarmos nossos sapatos e sonhos. Aprendemos cedo que sonhar anestesia os temores e impede a descortesia de reduzir a vitória às constatações que só pulsam nos superlativos. Víamos evolução nas pequeninas conquistas e celebrávamos. Como celebrávamos! A inerrância dos seus passos nos presenteava constantemente com aquelas inesquecíveis delicadezas escondidas.

Presentes do céu não têm dia marcado para acontecer, sempre nos pega distraídos. Vou descrever a cena. Num dia de finados, tendo terminado o exercício da caminhada, minha irmã descansava encostada à mureta do jardim. Ao seu lado eu mantinha minha mão em seu peito para evitar qualquer possibilidade de queda, enquanto meu irmão, sentado na varanda, lia um gibi qualquer. Minha mãe que havia ido à missa para rezar pelas suas perdas, retorna e aparece na calçada, lá no início daquele corredor limpo e escovado.

 Minha irmã, ao vê-la, afasta minha mão do seu peito e sai andando, quase correndo, sozinha, na direção daquela que tanto lhe oferecia flores e frutos sem descanso desde seu primeiro suspiro. Saiu sem olhar para os lados, meio tortinha é verdade, mas, toda dona de si. Eu e meu irmão ficamos sob o efeito do encanto e nem por um segundo pensamos que ela poderia tombar. Minha mãe ficou parada, feliz, com os braços estendidos e prontos para a chegada triunfal, pronta para afagá-la e para aquela declaração de amor que lembra a eternidade.

Ninguém a ajudou. Reconhecemos que a pequena estava mesmo decidida.

Naquele final de tarde, minha irmã seguiu emoldurada pelas cores brilhantes do pôr-do-sol que refletiam sua silhueta pelos muros daquele pedaço de céu.

O encontro da mãe e daquela filha frágil e segura de sua conquista, paralisou a rua. Os vizinhos vieram nos abraçar com tanto gosto que quando demos conta, estávamos eu e meu irmão, abraçados no beiral do jardim, bem ao lado das lavandas, em silêncio, tocados pela poética de Deus, nosso instrumento de paz. Chorávamos baixinho. Ao nosso lado ouvíamos rumores de um novo tempo. Tempo de liberdade conquistada e irreversível.

Ajudá-la a andar sempre foi um investimento surpreendente, seríamos surpreendidos por este milagre. Nunca duvidamos da eterna promessa: pela vida afora, sensível e incansavelmente, Deus estaria conosco.

Novos desafios continuaram e vão continuar surgindo. A cada novo ciclo de vida virão novas aventuras, outros corredores, outros finais de tarde, novas silhuetas alaranjadas pelos muros. A vida sempre pode se renovar com o tanto que lhe resta. Esse é o grande milagre.

Fico aqui pensando, onde houver alguém se retraduzindo, nele o universo estará vivendo a alegria de renascer. O que nasce do encontro, promove o nascimento da terceira pessoa. São vigas de sustentação.

As quedas não criaram dores que insistem em doer em algum canto, ninguém ficou à deriva, sem significado. Pelo contrário. Em nossos corpos apenas singelas missivas poéticas foram tatuadas. Salmos de louvor e agradecimento.

A vida continua e eu aprendi a ver no outro o que ainda não sou e em mim, o que o outro ainda não é. Por isso posso continuar falando a linguagem que permite a compaixão, porque aprendi muito cedo que só é possível se dar, quem primeiro se possui.

O tempo só anda para frente, não aceita demoras, por isso continuo investindo com sabedoria e sem macular minha opção que é, sem dúvida, pela delicadeza, pelo que é digno de ser eternizado, pelos vínculos que me lembram quem eu sou.