Maria Zulema Cebrian

academicos__0002s_0023_04_ZULEMA

Patrono: Guilherme de Almeida
Cadeira 03


BIOGRAFIA

Natural de La Coruña, Espanha. Filha de Rodrigo Cebrian Perez e Mercedes Barreiro Prego de Cebrian. FORMAÇÃO ACADÊMICA — Pedagogia pelo Instituto de Ensino Superior Senador Fláquer – Santo André.Educação Artística pelas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila – Licenciatura Plena em Música e História da Arte. Filosofia e Letras – Diploma superior de Español Universidad de SalamancaEspaña. Museologia pela Secretaria de Estado dos Negócios da Educação, Serviço de Museus Históricos – São Paulo. Marketing pelo Instituto ABEC – Cook de Marketing Editorial. Poliglota. Inglês pela Cultura Inglesa de Santo André – Cambridge. Espanhol pela Universidad de Salamanca – Diploma Superior de Español. Galego como Autodidata.

E-mail: mzcebrian@uol.com.br


BIBLIOGRAFIA

Diversos Workshops: Como entender uma obra de arte,Como publicar um livro.Escreva um conto – esquematizando a escrita e Escrevendo na Melhor idade. Produção Técnica: Vídeo Institucional, do rascunho às livrarias, apresentando a obra Kunumim Poranga de Nely Guiguer. Vivência Internacional:Cursos: Arte na sua totalidade Moma em New York . El arte español y la Obra de Picasso nos museus Del Prado, Reina Sofia e Museo Picasso, na Espanha. Análise escultural -Vitória da Samutracia no Museu do Louvre em Paris.Curso de técnicas de catalogação e restauração de obras e patrimônios históricos. Técnicas de curadoria para exposições e acervos itinerantes, além de visita às galerias de arte monitoradas por espertes Reuniões com marchands e galeristas, internacionais na National Galery, Victoria and Albert Museun e no The British Museum.

Livros Publicados:
Vontade de Ir Além, Romance Ficção, 2001;
Escreva seu livro é mais fácil do que se imagina, 2005;
Conto De São Luiz a Paris, em 2011;
Varal Antológico, 2012;
Coletânea Bilingui, Editora Sem Fronteiras, 2016.



Pronunciamento de Apresentação proferido pelo Acadêmico Hildebrando Pafundi, na solenidade de posse de María Zulema Cebrián, na Academia de Letras da Grande São Paulo.

Senhor Presidente, escritor Rinaldo Gissoni,  confrades Acadêmicos, Autoridades, senhoras, senhores:

Confesso sentir-me honrado ao ser escolhido para fazer a apresentação da nova Acadêmica, competente empresária e editora e ao mesmo tempo, brilhante escritora María Zulema Cebrián, nesta sessão solene de sua posse.

Fiquei conhecendo María Zulema durante um curso de literatura que ela proferiu na Livraria Siciliano, no Shopping Center ABC, em Santo André, e dessa época em diante mantivemos contatos esporádicos em eventos culturais e literários, sendo o mais importante deles, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que se realizou em março de 2006, no Parque Anhembi, onde a MZCebrián Editora expunha suas publicações, dentre as quais figuravam dois livros de sua autoria, Vontade de ir além e Escreva seu livro; e eu estava expondo o meu primeiro livro de contos, Tramas & dramas da vida urbana, no estande da União Brasileira de Escritores (UBE). Comunicamo-nos com certa freqüência pela Internet, para contatos profissionais.

Para iniciar sua apresentação sinto que é necessário fazer um retrospecto, lembrando que ela é filha de Rodrigo Cebrián Perez e Mercedes Barreiro Prego de Cebrián, que se casaram em 12 de outubro de 1948, na Galícia, Província de La Coruña. Dessa união nasceram dois filhos: Maria Zulema Cebrián Barreiro e José Luiz Cebrián Barreiro. Ela nasceu em La Coruña e seu irmão no Brasil. Maria Zulema completou três anos de idade, quando ela e mãe chegaram ao Brasil, seu pai já se encontrava aqui desde 1951, quando veio com a intenção de fazer fortuna e retornar para a Espanha, o que acabou não ocorrendo.

O Brasil acabou sendo adotado como pátria do coração de seus pais e de forma mais concreta por María Zulema, brasileira naturalizada. Durante um de nossos encontros revelou-me que aprendeu a falar português em 15 dias.

Morando em Santo André foi semi-interna do Externato Santo Antonio, depois transferida para o Instituto Coração de Jesus, onde cursou até a terceira série e conclui o curso primário no Grupo Escolar Carlina Caçapava de Melo. A antiga admissão cursou-a no Ginásio e Escola de Comércio Santa Terezinha. Foram muitas as emoções da jovem María Zulema, porém ela jamais esquecerá o dia que passou no vestibular para faculdade. Nesse dia o Brasil foi tricampeão mundial de futebol e ela participou da carreata pelas ruas de Santo André. Foi reprovada na Faculdade Armando Álvares Penteado para Artes Plásticas, mas passou em vigésimo segundo em Pedagogia na Faculdade Senador Fláquer, atual Universidade Santo André (UniA). Em dois de junho de 1973 casou-se com Mário Sérgio Gonçalves Leite. Dessa união nasceram os filhos Mário Ricardo Cebrián Leite e Ana Cláudia Cebrián Leite.

Mais tarde retornou a Espanha, em busca da sua verdadeira nacionalidade, com a intenção recuperar a identidade geográfica. Mas depois de muito sofrimento, acabou descobrindo o que talvez já soubesse: era brasileira.

 Com o diploma superior de Língua Espanhola pela Universidad de Salamanca (Espanha) deu aulas de espanhol e mais realizou um antigo sonho, ao cursar a Faculdade de Educação Artística – Plena em Música, nas Faculdades Integradas Teresa D´Ávila.

Tem formação em Museologia pela Secretaria de Estado dos Negócios da Educação, Serviço de Museus Históricos de São Paulo; Marketing pelo Instituto ABEC – Cook de Marketing Editorial; Inglês (avançado), Cultura Inglesa de Santo André – Cambridge; e Galego (fluente), autodidata.

A sua experiência profissional em arte e o contato com importantes nomes das artes plásticas revela capacidade critica. De 1968 a 2000 foi marchand, organizando exposições, cursos de arte, palestras e expertises em análise de obras de arte. Ministrou cursos de: História da Arte: Espaço Cultural da Cultura Inglesa, em Santo André e no Museu Barão de Mauá, em Mauá, além de cursos de arte, práticos e teóricos ministrados em museus nacionais. Realizou ainda trabalhos de observação e aprendizado teórico, técnicas de composição e execução de obras de arte em ateliês de artistas plásticos de renome como Adélio Sarro Sobrinho, Grudzinsky, Sinval, Euclides Rios e Nadir Moro.

Para se aperfeiçoar ainda mais, María Zulema fez viagens ao exterior, visitando museus para apreciação de técnicas de catalogação e restauração de obras e patrimônio histórico, visita galerias de arte e reunião com marchandes internacionais adquirindo técnicas na elaboração de exposições itinerantes e acervos.

Foi curadora da Primeira Exposição feita no Espaço Cultural Carlos Galante e proferiu palestras e workshop, Como entender uma obra de arte, bem como sobre História da Arte Geral, História da Arte Espanhola e Arte da Tauromaquia em museus, ateliês, escolas de arte e outras instituições. Participou como ajudante do leiloeiro Arnald Baroni em leilões de arte beneficentes.

LITERATURA

Em 2001 María Zulema Cebrián publicou o romance, Vontade de ir além, 142 páginas, pela Editora do Autor, com apoio e incentivo do médico e escritor, Dr. Roberto Lopes. Na introdução, ela explica: “Sempre tive vontade de escrever um livro. Comecei a escrever bem cedo, sem nunca haver terminado nada. Sempre achei que escrever um livro era algo muito demorado para se fazer”. Confessa que é uma pessoa imediatista e por esse motivo preferia os contos, que são mais curtos e rapidamente trazem o final da história.

Mas esse romance é uma grande história de amor, no qual Letícia, a personagem narradora se apaixona nos dias atuais por César que é casado e pai de dois filhos com outra mulher. Ambos retornam ao passado em pensamento e trazem o amor daquela época para o presente. Delírios do imaginário consciente. Tornam-se amantes e encontram-se às escondidas.

Descobriram que eram almas gêmeas. Para viver esse amor que os une, mais livremente inventam uma viagem de negócios para os Estados Unidos. Em Nova York, o motorista de táxi que os leva até o hotel, entende o casal e ao os deixar no balcão de entrada, recomenda: “Cuide bem deles, pois trazem consigo um grande tesouro: o amor além da vida”. Dias de felicidade, uma verdadeira lua de mel… É evidente que não vou contar o final para não desmanchar o prazer de quem ainda não leu a obra.

Mas foi devido as dificuldades que encontrou para divulgar e distribuir esse romance, que María Zulema criou a empresa MZCebrián Editora que já tem um considerável catalogo de títulos publicados, inclusive, sua mais recente obra, Escreva seu livro, um manual sobre a arte de escrever. MZCebrián Editora/ 2005.

Cara escritora María Zulema Cebrián seja bem vinda a Academia de Letras da Grande São Paulo.

Hildebrando Pafundi


Pronunciamento de Posse de Maria Zulema Cebrianà Academia de Letras da Grande São Paulo, em 28 de Junho de 2007, na Cadeira 03, Patrono Guilherme de Almeida.

Ilustríssimo Acadêmico Dr. Rinaldo Gissoni, mui digníssimo Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Prezados e nobres Acadêmicos;
Senhoras e Senhores.

“En un lugar de la mancha cuyo nombre no puedo recordar…”
Miguel de Cervantes

Difícil expressar o que se sente quando se alcança a honraria com a qual sou hoje, oficialmente agraciada, a mais alta, que jamais aspirei e que somente posso atribuí-la a um descuido dos membros desta Casa que me recebem. Felicidade é palavra desmedida.

Pertencer a Academia era para mim um horizonte afastado, distante no tempo. Uma sedução desconsiderada, sem ambição, sem coragem de desejá-la, apenas um desejo de desejá-la.

Embora sabendo que a glória do mundo é transitória ousei desejar o que julgava ser um sonho e assim sonhei o indesejável. Ainda sabendo disso, o homem sempre parte em busca do reconhecimento pelo seu trabalho. O escritor Jorge Luis Borges disse: quem realiza um sonho, constrói uma parcela de sua própria eternidade.

Foi uma longa trajetória, esta que me trouxe à Academia de Letras da Grande São Paulo, e não estou falando de distância geográfica. Falo da trajetória que percorremos, todos nós, os escritores pela autodescoberta e o auto-aperfeiçoamento e que, às vezes chega até esta Casa. Diante deste acontecimento vive-se um momento de inusitada emoção, um momento peculiar que surge de repente e, descortinando-nos uma paisagem literária, da qual somos, mesmo na condição de humilde detalhe, integrantes.

Damo-nos conta de que aqui fomos precedidos por grandes escritores, figuras verdadeiramente lendárias em nossa vida e em nossa formação.

A responsabilidade, do lugar que estamos assumindo proporciona-nos a oportunidade de evocar aqueles que nos precederam e a quem, e de alguma forma, lhes somos credores. Aprendemos sempre e descobrimos sempre. Uma das coisas que aprendemos é homenagear os nomes que fizeram a literatura brasileira. Neste momento cabe-me destacar, em primeiro lugar, aquele que me antecedeu na Cadeira n. ° 3, o Príncipe dos Poetas, Guilherme de Almeida figura exemplar de nossas letras.

Nascia, de família tradicional, na cidade de Caconde em São Paulo a 11 de setembro de 1913, NICOLA TORTORELLI um nome que permanecerá na memória da vida cultural de nossa região Uma personalidade especial que desempenhou papel sumamente importante no ensino público, na política e no desenvolvimento da cidade de Santo André.

Sinto-me honrada em tê-lo como antecessor da cadeira que passarei a ocupar na Academia de Letras da Grande São Paulo, embora não tenha tido o privilégio de sua convivência. Quero neste momento evocar alguns momentos importantes de sua vida e prestar-lhe uma merecida homenagem.

Nicola Tortorelli iniciou sua carreira na cidade de Major Prado no interior de São Paulo. Chamado para dirigir o semanário Jornal da Borda do Campo mudou-se para a cidade de Santo André. Tornou-se uma figura prestigiada pelos muitos contatos pessoais que cultivou e sua popularidade fez com que se elegesse vereador, por Santo André em 1947. Foi diretor da Escola Estadual Dr. Sylvio Romero em São Caetano do Sul e Delegado de Ensino no ABC. Foi casado com D.Olga Dall’Oglio e dessa união nasceu seu único filho Marcio.

Durante o governo de Carvalho Pinto foi nomeado para a Comissão de professores paulistas cuja tarefa era implantar o ensino público regular para a erradicação do analfabetismo no Nordeste, mais precisamente em Sergipe e Alagoas. Uma tarefa que levou dois anos para retornar a São Paulo para reassumir, o cargo de Delegado de Ensino. Tornou-se amigo de Guilherme de Almeida que tinha escritório em São Paulo e com quem se encontrava juntamente com outros literatos para discussões e troca de idéias. O ponto de encontro era o Restaurante Franciscano no centro histórico de São Paulo.

Nicola Tortorelli foi agraciado com duas importantes condecorações: A comenda de Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora Aparecida e com a Medalha de Honra Ana Nery por serviços prestados à comunidade.

Tornou-se uma figura inolvidável para os que tiveram o privilégio de sua convivência e um exemplo para os que dela não puderam desfrutar.

Sempre participativo e ligado às atividades culturais e intelectuais, um amante da literatura e das letras, um grande orador vindo a ocupar a cadeira que leva o nome de seu antigo companheiro de tertúlias, Guilherme de Almeida.

Guilherme de Andrade e Almeida, nasceu em Campinas, São Paulo em 24 de julho de 1890 e, faleceu em São Paulo, Capital em 11 de julho de 1969.  Filho do jurista e professor de Direito Estevam de Almeida, estudou nos ginásios Culto à Ciência, de Campinas, e São Bento e N. Sra. do Carmo, de São Paulo. Cursou a Faculdade de Direito de São Paulo, onde colou grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, em 1912. Conciliou o exercício da profissão de advogado com trabalhos como, ensaísta, crítico, tradutor, heráldico, e jornalista literário, tradutor e principalmente poeta. Entre outras realizações foi o responsável pela divulgação do poemeto japonês Hai Cai no Brasil. Foi redator de O Estado de São Paulo e Diário de São Paulo, diretor da Folha da Manhã e da Folha da Noite e fundador do Jornal de São Paulo. Dedicou-se à advocacia e à imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A publicação em 1917 do livro de poesias Nós deu inicio a sua carreira literária, e os que se seguiram, até 1922, de inspiração romântica, colocou-o entre os maiores líricos brasileiros.

Pertenceu, apenas, episodicamente ao movimento de 22: Semana de Arte Moderna. Não havendo partido do espírito que o animava, também não encontrou, no movimento modernista, pontos definitivos de referência estética. Na época heróica da campanha modernista, soube seguir diretrizes muito nítidas e conscientes, sem se deixar possuir pela tendência à exaltação nacionalista. Sua produção de caráter modernista concentra-se em três livros publicados em 1925: Encantamento, Meu e Raça exprimem essa orientação fiel à temática brasileira.  Sua cultura, seu virtuosismo, suas aspirações morais vinham do passado e lá permaneceram. Remontemo-nos aos primeiros livros, Simplicidade, Na cidade de Névoa, Suave Colheita, os módulos são parnasianos, atenuados por um neo simbolismo que se confessa filho de Verlaine e de Rodenbach, ou na tradição luso-brasileira, eco de Os Simples e das litanias de Alphonsus. Nos poemas de Simplicidade, retornou às suas matrizes iniciais, à perfeição formal desprezada pelos outros, mas não recaiu no Parnasianismo, porque continuou privilegiando a renovação de temas e linguagem.

Guilherme de Almeida era capaz de desenvolver sem deixar cair o interesse do leitor, os mais variados temas. Justamente aqueles que, por não merecerem, na sua opinião, a consagração do verso, estão ausentes de sua obra poética: o dia-a-dia de quem como ele, tinha de lutar pela sobrevivência; a política; as variações e a passagem do tempo; os passatempos (cinema, rádio, teatro, futebol, TV); o amor; a vida; e os tipos e aspectos de uma cidadã em contínua mutação.(Barros, Frederico Ozanam Pessoa de: Algumas crônicas. In: Almeida, Guilherme de Almeida. P.15).

Percorreu o Brasil, difundindo as ideias da renovação artística e literária, através de conferências e artigos, adotando a linha nacionalista do Modernismo, segundo a tese de que a poesia brasileira “deve ser de exportação e não de importação”.

Adotou uma poética mais tradicional, o que deve ter contribuído para que fosse eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros em 1958, pelo Correio da Manhã. Sobressaiu sempre o artista do verso, que Manuel Bandeira considerou o maior em língua portuguesa.

A sua entrada na Casa de Machado de Assis significou que ela abria a sua porta aos modernistas, depois de ter recusado o apelo de Graça Aranha para modernizar-se, na memorável conferência sobre “O espírito moderno”, em 1924. Formou, com Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima, o grupo dos que lideraram a renovação da Academia.

Eleito em 6 de março de 1930 pela Academia Brasileira de Letras para ocupar a Cadeira nº 15, na sucessão de Amadeu Amaral e em 21 de junho foi recebido com honrarias pelo acadêmico Olegário Mariano. O primeiro modernista a entrar na Academia Brasileira de Letras. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; do Seminário de Estudos Galegos, de Santiago de Compostela; e do Instituto de Coimbra.

Em 1932, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, Guilherme de Almeida, defensor da causa constitucionalista, alistou-se como soldado na revolução de 1932. Devido a esse ato, foi exilado por oito meses em Portugal, onde foi recebido com herói e como um dos maiores poetas da língua.

Em 1933, em 1º de agosto, retorna do exílio e vai morar na Rua Pamplona em São Paulo.

Distinguiu-se também com heraldista. É autor dos brasões-de-armas das seguintes cidades: São Paulo, Caconde, Iacanga e Embu (SP), Petrópolis, Volta Redonda (RJ), Londrina (PR), Brasília (DF), Guaxupé (MG). Compôs também um hino a Brasília, quando a cidade foi inaugurada.

Começou a escrever haicais em 1936, ano de seu encontro com o cônsul japonês no Brasil, Kozo Ichige. Em 1937, publicou o artigo Os Meus Haicais, em que sistematizava as suas idéias sobre o que seria o haicai em português: um terceto com 5-7-5 sílabas, dotado de título, sendo que o primeiro verso rima com o terceiro, além de contar com uma rima interna no segundo verso, entre a segunda e a sétima sílabas. Seus haicais foram publicados no livro “Poesia Vária”, de 1947. Dada a sua influência sobre outros poetas, pode-se falar de uma escola “guilhermina” dentro do movimento haicaísta brasileiro. Guilherme de Almeida foi um dos fundadores e primeiro presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão.

Em 1945 funda o Jornal de São Paulo, que é temporariamente fechado pelo Estado Novo. Em 1949, junto com Franco Zampari, ajuda a fundar o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). No ano seguinte, é nomeado chefe de gabinete do Prefeito de São Paulo, Lineu Prestes.

Um excelente tradutor. Traduziu, entre outros, os poetas Paul Géraldy, Tagore, Charles Baudelaire, Paul Verlaine e, ainda, Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean Paul Sartre.

Assim viveu Guilherme de Almeida o Príncipe dos Poetas.

Meu profundo e afetuoso reconhecimento aos meus professores do passado, porque cada um há seu tempo me ensinaram, alentaram minha vocação e vigiaram minha conduta com a deles.

Meu reconhecimento, também às instituições educacionais nacionais, públicas e particulares cujas aulas dobraram meu “analfabetismo ancestral”: Instituto Coração de Jesus; Instituto de Educação Dr.Américo; Brasiliense, Faculdade Senador Fláquer; Faculdades Integradas Teresa D’Avila e Universidad de Salamanca e onde minha ignorância foi vencida.

E antes de infringir-lhes uma quota adicional de tédio que o discurso acadêmico preanuncia cumpre recordar-me de agradecer com justa e inevitável cortesia.

O agradecimento a minha família: Rodrigo e Mercedes, meus pais pela educação e confiança que durante toda a vida depositaram em mim a Mario Ricardo e Ana Cláudia, meus filhos que sempre, querendo ou não me prestigiaram comparecendo aos meus eventos culturais. Um agradecimento especial a Mário Sérgio que me ajudou nessa caminhada incentivando e sustentando meus delírios de cultura nos piores e melhores momentos de minha carreira. Em fim a todos que de uma forma ou outra fizeram ou fazem parte desta caminhada.

Muito Obrigado

Maria Zulema Cebrian


De São Luis a Paris

Maria Zulema Cebrián

São Luís tornara-se o cenário ideal para o estímulo da produção algodoeira em função do aumento da demanda internacional por algodão para as indústrias têxteis inglesas. Os Estados Unidos haviam reduzido a produção do algodão em razão da Guerra de Independência no país o que favoreceu o Maranhão. As companhias Southampton & Maranham Company e Maranham Shipping Company de transporte marítimo a vapor passaram a operar no eixo São Luís-Londres. A economia maranhense internacionalizava-se.

O clima em São Luís é sempre quente e úmido, um calor desagradável. A longa espera cansava-me e ainda que soubesse que escolhera aquele destino, entretanto uma pergunta martelava-me o pensamento: Que futuro teria afinal se embarcasse naquele navio? A despeito de todas as dúvidas, em meu coração residia a esperança. Acreditava que deixaria para trás as adversidades e o acaso infeliz que minha vida fora. Em Paris receberia o quinhão da vida.

Vivíamos a fase de ouro da economia maranhense, São Luís desfrutava de uma efervescência cultural e financeira, além do grande crescimento de uma população estrangeira. A cidade se relacionava mais com as capitais europeias que com brasileiras e foi a primeira cidade a receber uma companhia italiana de ópera. Possuía calçamento e iluminação como poucas do país e semanalmente recebia as últimas novidades da literatura francesa. As grandes fortunas algodoeiros locais emergiam e, convencidos pela prosperidade e cultura dos estrangeiros que ali aportavam deram início a uma educação mais aprimorada, enviando seus filhos para estudar em outras capitais brasileiras e Europa.

A cultura passa a ter uma enorme significância. Nesse período São Luís torna-se conhecida por “Atenas Brasileira” em virtude da grandiosidade cultural que reinava e a grande concentração de escritores locais que, mais tarde, teriam relevante papel na literatura. A arquitetura, também acompanhou estes progressos. Mas é, aproximadamente, em 1830 que aparece a mais interessante inovação para tornar-se uma marca registrada da cidade: as fachadas das casas são revestidas com azulejos. Em poucos anos, um manto de reflexos coloridos cobriu a cidade e até hoje encanta os visitantes. São Luís em 1847 tornou-se“la petite ville aux palais de porcelaine”, como a chamara um viajante francês.

Diante desse bulício cultural e financeiro nosso trabalho, também, alterava-se convertendo-se em um negócio ainda mais lucrativo. Os novos clientes surgiam dispostos a pagar, qualquer preço para saciarem o instinto físico, o desejo pelo prazer sexual e sua lubricidade os impulsionava a frequentar aquela casa.

Mulheres de vida fácil, assim eram chamadas. Poderia a próspera sociedade de São Luís imaginar o quanto era difícil viver daquela forma e quais seriam os motivos que as teriam levado a isso?

Eram proibidas de sair à luz do dia, podendo fazê-lo, apenas, na calada da noite. Fato conveniente para a sociedade, pois era quando tinham início as noites de luxuria. Quem ousasse sair e fosse apanhada, acabava presa na Delegacia do Primeiro Distrito. Acontecera comigo algumas vezes, por infringir as regras. Pedia a Nossa Senhora da Vitória que me protegesse. Rebelava-me diante do modo desapiedado com éramos tratadas. A juventude traz consigo a crença e uma vontade imensurável de viver. Deus! Eu era tão jovem e alegre. Como podiam exigir que vivesse no retraimento, assombrada pelo medo?

Senhores da sociedade maranhense e estrangeiros, homens bem casados, políticos de direita e de esquerda e qualquer um que tivesse dinheiro para pagar freqüentava a casa da Rua da Palma. Homens de conduta, aparentemente, incontestável perdiam-se em seus devaneios lascivos e tomavam porres homéricos. Cometiam-se crimes.

Sofríamos ao ser escolhidas por um deles e nos tornarmos amantes desiludidas de um Don Juan qualquer, quase sempre, bem casado com mulher e filhos e da sociedade emergente. Havia mulheres que eram trazidas de outros estados, tinham a pele clara e cheiravam a alfazema, essas recebiam da “madame” tratamento especial: vesti-as com lingeries francesas de cores vibrantes e muitos laçarotes. Transformavam-se nas mais requisitadas e isso lhes deixava a ilusão da superioridade ante as demais, gerando inveja e discórdia entre as outras. Seus quartos eram decorados e especiais, tinham lençóis de cetim, quarto de banho com sais, tudo para receber os poderosos senhores freqüentadores da La Maison ivre de joie. Senhores habitué e estrangeiros compareciam para desfrutar do requinte de seus salões, muito semelhantes, segundo ouvira, aos de Paris.

Ao conhecer Antoine Bertrand, não poderia imaginar que seria uma proposta de vida nova; eu, uma mulher da Rua da Palma?

Esse fora o motivo que me trouxera até o cais e poderia significar o grande passo, ou seja, transformar-me em uma das mulheres chegadas de outra terra, pele morena, cravo e canela, lembrando o calor tropical e o sabor do pecado. Meu destino parecia ter mudado depois que Antoine chegou…

Era uma tarde quente e úmida, como todas as tardes aqui em São Luís. Conversávamos animadamente, contando umas às outras sobre a devassidão vivida na noite anterior. Obviamente, falávamos sobre freqüentadores ocasionais. Jamais mencionávamos os que considerávamos nossos homens. Nossos homens! Quanta tolice!

A sala, de repente foi solapada pelo silêncio. O ar se rarefez, os suspiros unissonantes libertaram-se.

Confesso faltou-me fôlego diante da imagem daquele homem. Ao relembrar aquele momento, ainda estremeço. Um calor me invade o corpo e chego a sentir o hálito de sua boca perto da minha.

Suscitava uma miragem provocada pelo calor excessivo do dia, um efeito óptico como o que se produz às pessoas quando perdidas no deserto. Um deus num terno de linho branco contrastando com o bronzeado de sua pele. Uma imagem apolínea, o porte imponente e faceiro contrastava com a ginga brejeira.

Encantei-me com ele e esse foi o meu pecado. Envolvi-me loucamente com sua beleza e a voz macia e quente. Seu fascínio, no entanto, estava no jogo da sedução que eu conheceria e que ele exercia com mestria. Um doutor. Deixei-me seduzir.

Depois que ele chegou a La Maison ivre de joie, as noites de lascívia passaram a ter um brilho de romantismo. Dia a dia conquistava confiança e simpatia das meninas da casa.

Quase sempre, cabia à madame escolher para os cavalheiros a menina que julgava oportuna. Antoine, no entanto, quis fazer sua própria escolha. Escolheu-me! Não cabia discutir. Estávamos ali para dar-lhes a felicidade que procuravam e que parecia inexistir em suas casas. Sempre que aparecia um cliente novo era tomada por uma ansiedade que descompassava meu coração, fazendo minhas mãos transpirarem. Desta vez foi diferente, o coração, quase, parou incendiado pela sensualidade que emanava daquele homem e pelos pensamentos que me invadiram pelos prazeres que imaginei sentiria.

Deitou-se em minha cama, chamava-me de querida. Misto de aventura, precedida de abordagens sedutoras (era quando ele se tornava irresistível). Mágico, deixei-me levar.

Antoine era um sedutor, abraçava-me e olhava de maneira insondável, intensa. Suas mãos percorriam caminhos que levam à sensação agradável que liga a satisfação ao prazer da exploração detalhada do corpo antes da entrega. Mãos que andaram entre a distância do afago e o exercício harmonioso do prazer, transformando aquele instante em uma necessidade vital. Era a entrega do bilhete para a viagem por meio da libertinagem. O intumescimento de meus mamilos revelado fez com que jogássemos ao chão nossas roupas.

O desejo desloca com grande velocidade os sentidos, mas não apressou os carinhos, ao contrário, carícias prolongadas, suaves, atrevidas, dando-me o desfrute prolongado que antecede ao prazer. Ele Apolo, eu Afrodite.

Uma dança de corpos suados, molhados, ardentes. Sua boca beijou meu corpo e suas mãos despertaram lembranças há muito adormecidas. Gritavam as emoções no físico estimulando as sensações da alma. Não havia vencedor nem vencido, apenas prazer, diante daquele homem que dava sem pedir e, não pedindo, teve tudo. Durante minha vida de meretriz, esta foi a primeira vez em que houve uma inversão da situação. Seu prazer estava em dar, não em cobrar pelo que pagava. Um tempo sem tempo, norteado pelos pontos de carícia e emoção. O amor explodiu silencioso… uma habilidade que alcança os pensamentos, idéias e sentimentos mais relevantes, uma onda inundando a alma e o corpo. Tornamo-nos um pair de deux na perfeita sincronia da dança dos amantes. Uma combustão infinita um fluido imaterial permeando o espaço e que se supunha necessário para essa identificação, tão intensa e tão forte. Almas que viajaram por meio da volatilidade dos corpos.

Antoine se deixou ficar. Contrariamente ao que todos faziam, não se levantou simplesmente, pagou e saiu. Ficou, para fazermos amor, durante toda a noite, com a mesma intensidade.

A partir dessa noite, em minha vida, tudo mudaria definitivamente. A cada dia uma nova esperança se transformava em algo novo que valia a pena ser vivido. Nada mais era como antes, uma incógnita — saber com quem nos deitaríamos à noite.

Aprendi muito com Antoine. Tive a compreensão de que fazer sexo com muitos homens fora uma atividade sagrada na pré-história. Uma maneira de manter unida a comunidade que valorizava a figura da mulher. Uma tarefa considerada sagrada. Elas mantinham sexo com vários parceiros ao som de música e em meio a conversas sobre arte. Entretanto, com o passar do tempo, contava-me, os homens começaram a fazer discriminação entre as esposas e as prostitutas. Depois vieram as Leis que proibiam o casamento com mulheres que se relacionassem com vários homens.

Nascera o tabu.

Criaram-se bordéis e algumas mulheres passaram a receber um salário para fazer sexo. Calígula criou um imposto sobre esta atividade, obrigando-as a obter licença para tanto. Tinham carteirinha de prostituta com nome, endereço e o preço pelos serviços prestados. Vênus fora a deusa protetora dessas mulheres.

A religião transformou tudo em pecado. Por meio das religiões e em nome delas, muitos absurdos foram praticados. Pediu-se a pena de morte para o adultério e os bordéis em muitos países foram fechados. Como resultado dessa revolução surgimos nós: as prostitutas de elite.

Mas nem tudo era desgraça, dizia Antoine.

Em Paris, por exemplo, a prostituição ganhou grande impulso a partir do final do século XVIII. O bordel mais luxuoso era sem dúvida o Avignon Club, à beira do Sena, uma mansão que ocupava um quarteirão inteiro, com mais de vinte aposentos, uma biblioteca, uma bela galeria de arte. Os quartos eram ricamente decorados com tapetes persas, quadros de pintores famosos e suas camas cobertas por lençóis de cetim.

Imaginei-me vivendo naquelas condições, mais que isso — fui me enchendo de coragem para dar o grande passo —, aceitar a proposta e morar em Paris.

Não foi uma decisão repentina, mas baseada no amor e na confiança que depositei incondicionalmente nele. Antoine oferecera-me o céu e, eu estava disposta a consegui-lo.

Não pude conter minha ansiedade, estava tão perto de realizar meu sonho, não podia recuar… Decidi ir embora com Antoine.

O navio apitou. Era hora de partir. Chegara a hora de embarcar. Despedi-me das meninas que tinham vindo até o cais.

Minha aflição era imensurável, Antoine, ainda, não chegara. O que teria acontecido? Nesse instante alguém se aproximou. Um senhor de idade, que se destacava pela elegância, discrição e distinção. Amável, aproximou-se e se apresentou: — Meu nome é Pablo e trago um bilhete de Antoine.

“Não se aflija, nem tema por nada. Pedi a meu amigo, que a acompanhara e que lhe faça companhia até seu destino: uma bela mansão, com jardim, biblioteca e galeria de arte. Lá você será uma das Les Demoiselles D. Avignon”.

Beijos

Antoine

Comments are closed, but trackbacks and pingbacks are open.