Mário Porfírio Rodrigues

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Patrono: Monteiro Lobato
Cadeira: 08


BIOGRAFIA

Mário Porfório Rodrigues nasceu em 20 de Outubro de 1925 na cidade de Ribeirão Claro, Estado do Paraná. Filho de Marques Rodrigues e Antônia Porfírio Rodrigues. Casado em primeiras núpcias com Macaria Garcia Rodrigues, nascida em São Caetano do Sul e falecida em 13 de Abril de l981. Casado em segundas núpcias com Maria Wilma Toledo Barros Rodrigues. É pai de Roberto Mário Rodrigues, nascido em São Caetano do Sul em 12 de Janeiro de l949. Diplomado em Contabilidade pela Escola Técnica de Comércio “30 de Outubro”; Administrador pelo Título de Habilitação Profissional expedido pelo Conselho Federal de Administração – CRA. Associado nº 01.657-8. Fez vários cursos profissionais, Seminários e Congressos. No período de 1936 a 1953 foi operário em empresas de São Caetano do Sul e a partir de 1954 ocupou cargos de gerente, em empresas de São Caetano do Sul e ocupou cargos de gerente, superintendente e diretor na PAN-Produtos Alimentícios Nacionais, Chocolate Dulcora,  Ferros Elétricos Tupy, Reprinco – Indústria e Comércio Ltda. e Eletropaulo – Eletricidade de São Paulo S.A; Membro e Associado de diversos clubes, associações de classe e fundador do primeiro Rotary Club de São Caetano do Sul e da Delegacia local do Centro das Industrias do Estado de São Paulo. Em 1947 fundou a Sociedade Beneficente Hospitalar São Caetano. É Líder do Movimento Autonomista que criou o município de São Caetano do Sul e, em 1962 foi agraciado com o Título de Cidadão Sulsancaetanense, conferido pela Câmara Municipal. Em 1946 fundou e dirigiu o Jornal de São Caetano, foi diretor da revista Ars Curandi e diretor do Sancaetanense Jornal. Fez viagens de estudos, negócios (exportação) e de turismo a mais de 30 países da Europa, África, América do Norte, Central e do Sul. Atualmente participa do Conselho Editorial da revista Raízes editada pela Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul. É associado do Rotary Club de São Paulo e é membro da ALGRASP -Academia de Letras da Grande São Paulo, onde ocupa a cadeira de número oito, cujo patrono é Monteiro Lobato.

E-mail: maporo@terra.com.br


BIBLIOGRAFIA

Um Jornal, Uma Vida – A saga do Jornal de São Caetano e outras mais (Jornal-História) 2005;
Baú de Jornalista (História, relatos de São Caetano – Autonomia) 2015.


Pronunciamento de Apresentação proferido pelo Acadêmico Mário Dal’Mas, na solenidade de posse de Mário Porfírio Rodrigues, na Academia de Letras da Grande São Paulo.

“Luiz Pasteur, ao ser homenageado na Academia Francesa, sob os aplausos de seus compatriotas, disse: “A grandeza das ações heroicas se mede pela inspiração que lhe deu origem. Feliz de quem traz em si um Deus interior, um ideal de beleza e lhe obedece, um ideal de arte, um ideal de ciência, um ideal de pátria, um ideal da beleza do evangelho. “São estas fontes das ações heroicas e das ideias sublimes, todas são penetradas de reflexos no infinito.”

Nesta noite festiva, a Academia de Letras da Grande São Paulo recebe, para a solenidade de posse, o insigne cidadão de São Caetano do Sul, Mário Porfírio Rodrigues, amigo de muitas lutas e um doa lideres autonomistas que traz em si um ideal: a arte da comunicação, o jornalismo. E me sinto feliz por estar nesta tribuna, para saudar e apresentar meu afilhado que, hoje passa a ocupar a cadeira 08, tendo por patrono o romancista, e o sociólogo, o maior escritor de nossa literatura infanto juvenil, Monteiro Lobato.

A vida de Mário Porfírio Rodrigues está entrelaçada com a própria história de São Caetano do Sul. É impossível falar em Mário Porfírio Rodrigues sem mergulharmos na historia da nossa Cidade. Ao terminar a segunda guerra mundial, em 1945 a ditadura getulista cedeu espaço para a redemocratização do Brasil.

Nessa época, São Caetano era subdistrito, agonizava acorrentado ao município de Santo André, sem redes de água e esgotos. Era a terra do tifo, sem hospitais nem escola, com tímidos pontos de luz, sem ruas pavimentadas, sem galerias de águas pluviais e no período de fortes chuvas, o centro da cidade, esquina da Av. Conde Francisco Matarazzo com a Rua João Pessoa, ficava alagada, intransitável.

Diante desse descalabro surgiu uma esperança, o sonho que se transformou em realidade o “O Jornal de São Caetano”, um pequeno nada, que, com esperança mudou de nada para tudo.

Neste momento, reporto meu pensamento para uma linda manhã de maior de 1946 o encontro com os amigos Mário Porfírio Rodrigues, o saudoso Walter Tomé e Luiz Rodrigues Neves, quatro esperançados a confabular sobre a fundação de um jornal em nossa cidade. Nesta conversa fomos envolvidos por uma energia de otimismo e entusiasmo e, com uma fé inabalável, parecia estarmos vendo já o jornal circulando na cidade. Este encontro mágico foi como que uma explosão energética primordial, desencadeando o florescimento do Jornal de São Caetano e a criação do novo município São Caetano do Sul. É oportuno lembrarmos o pensamento de Luther King Júnior prêmio Nobel da Paz de 1964:

“Suba no primeiro degrau com fé e você não precisa ver a escadaria inteira”. Depois de incansáveis reuniões, o Jornal de São Caetano foi lançado virtualmente numa solenidade festiva no salão do São Caetano Esporte Clube, e após 15 dias, em 28 de Julho de 1946, data da fundação da Cidade, circulou o primeiro numero do quinzenário e na sexta edição, por motivos pessoais, desliguei-me do Jornal, ficando ele sob a direção competente do jovem trio Porfírio Rodrigues, Tomé e Rodrigues Neves.

Foi nesse periódico, que o novel acadêmico Mário Porfírio Rodrigues, com a caneta e uma gota de tinta, proclamou e fez reluzir a sua arte, o talento jornalístico, deixando marcas indeléveis nas paginas dos jornais.

Orientou o quinzenário com maestria despertando as pessoas em busca de uma vida melhor, sem manipulá-las, respeitando o leitor, riscando toda a palavra caluniosa, injuriosa, imoral e grosseira.

O Jornal São Caetano lançou sua primeira campanha, coroada de êxito: a construção do Hospital Beneficente São Caetano.

Com a redemocratização do país reabriu-se o caminho para a emancipação política administrativa da cidade e o Jornal de São Caetano deu a primeira clarinada, emitindo sons fortes e vibrantes a ecoarem pelo espaço, despertando a população, bradando pelos quatros cantos da cidade que havia chegado a hora de lutar pela autonomia de São Caetano. Foi nesse momento que Mário Porfírio Rodrigues, de sua grande tribuna, conseguiu reunir um grupo de cidadãos dispostos a lutar, empunhando a bandeira autonomista atingindo assim as ruas, mobilizando o povo em geral.

Mário Porfírio Rodrigues, atento, alertou por uma nota publicada no “Jornal de São Caetano”, que por força de lei orgânica dos municípios, era necessário fundar-se uma entidade juridicamente constituída, para representar o povo perante a assembleia legislativa e formar o processo da autonomia documentado e envia-lo para a câmara dos deputados, solicitando a realização do plebiscito.

Sempre vigilante à causa, convocou, através do Jornal de São Caetano, uma assembleia, solicitando o comparecimento de comerciantes, industriais, profissionais liberais e o povo em geral para fundar-se uma associação, com a finalidade de defender os interesses coletivos do povo, florescendo assim, a Sociedade Amigos de São Caetano (S.A.S.C) para qual elaborou o processo.

A Assembleia Legislativa ao receber da SASC o auto da emancipação político-administrativa, aprovou em plenário, a realização do plebiscito, proporcionando ao povo sancaetanense à oportunidade de manifestar-se nas urnas com a cédula preta do NÃO ou com a cédula branca do SIM, pela libertação de nossa cidade.

Foi o maior movimento cívico da cidade, atingindo o clímax sagrando-se vitorioso em outubro de 1948, criando o município de São Caetano do Sul, hoje considerada a primeira cidade do Brasil em qualidade de vida. O jornal participou ativamente de outras campanhas tais como a formação de uma empresa telefônica na região do ABC, a construção da Creche Nossa Senhora da Gloria, a fundação do primeiro Rotary Club de São Caetano e outras.

Na pequena e linda cidade a formosa Ribeirão Claro situada ao norte do Paraná, hoje turística cognominada Pérola do Norte, cercada de belas fazendas de lavoura de café, adornada com lindas cascatas, modernos balneários, grutas naturais e ensolaradas prainhas, enriquecida com a majestosa obra de engenharia, a Ponte Pênsil sobre o Rio Paranapanema ligando o estado de São Paulo com o Paraná, nasceu Mário Porfírio Rodrigues.

Tinha quatro anos de idade quando seu saudoso pai Marques Rodrigues chegou com a família a estas plagas, vindo morar na Rua Rio Branco, no Bairro da Fundação.

Em sua meninice ficou órfão da mãe querida, Antonia Porfírio, perdendo o aconchego do colo materno, a mão amiga, a mãe extremosa, de generosa bondade.

Aprendeu com responsabilidade desde a mais tenra infância, os deveres familiares devido à felicidade de haver nascido num lar onde imperava o respeito, o amor, a harmonia e a dignidade de comportamentos implantados pelo seu saudoso pai que criou cinco filhos com muita ternura e sempre ofertando uma palavra orientadora.

Criança ainda enfrentava incansáveis desafios, porem sempre unindo forças para colaborar com seus irmãos, demonstrando ser exemplo de vitória, apesar de ser o caçula da família.

Fez o primário no Grupo Escolar Senador Flaquer, e formou-se em Ciências Contábeis pela Escola Técnica de Comércio 30 de outubro.

Época difícil, pois trabalhava de dia e estudava à noite.

Casou-se em primeira núpcias com Macária Garcia Rodrigues, já falecida, de cujo lar nasceu Roberto Mário Rodrigues e Rubens Marcos Rodrigues, já falecido.

Em segunda núpcias casou-se com Maria Wilma Toledo Barros Rodrigues, dedicada companheira.

Com dedicação e vontade tornou-se administrador de grandes empresas, possibilitando no curso do tempo grandes mudanças favoráveis, prosperando, transformando sua vida alcançando maior significação no contexto de suas experiências.

O neo acadêmico Mário Porfírio Rodrigues recentemente nos brindou com a publicação de um belíssimo livro: “Um Jornal Uma Vida, a saga do Jornal de São Caetano e outras mais”, onde narra numa linguagem natural, simples, elegante, sua vida desde a infância à adolescência; a conquista do honroso cargo de alto executivo e todo um trabalho jornalístico desenvolvido com desprendimento, em prol da coletividade da nossa cidade.

Sua trajetória nos mostra que é um homem de sucesso por ter conquistado alto posto de grandes empresas, mas também de valor pelo trabalho altruístico, através do Jornal de São Caetano.

Assim, nesta noite festiva, de grande gala, de sinceras expressões de incontida alegria, os membros da Academia de Letras da Grande São Paulo diplomam e empossam na Cadeira número 08, cujo patrono é o imortal Monteiro Lobato, parabenizando-o com calorosos abraços e boas vindas, Parabéns Xará!”

Mário Dal’Mas


Pronunciamento de Posse de Mário Porfírio Rodrigues à Academia de Letras da Grande São Paulo, em 27 de Setembro de 2007, na Cadeira 08, Patrono Monteiro Lobato.

Professor Rinaldo Gissoni, DD Presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Sr. Representante do Dr. José Aurichio, DD Prefeito Municipal;
Autoridades Presentes;
Senhoras e Senhores.

Desejo, antes de iniciar esta modesta palestra, apresentar o meu agradecimento aos caros Amigos que me antecederam, Doutor Mário Dal’Mas e Professor Rinaldo Gissoni, que tiveram a gentileza de me obsequiar com palavras que muito me comoveram e que guardarei com carinho no fundo do meu coração.

Muito Obrigado.

Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida.

Primeiro porque, devo confessar, não pensei que  chegasse a ocupar esta tribuna, na qualidade de membro da Academia de Letras da Grande São Paulo.  Esta casa de cultura que honra e enobrece os brasileiros e, em especial, todas as cidades que formam a Grande São Paulo.

Entre os seus membros, a alegria de me juntar a Amigos como Mário Dal’Mas, José Roberto Espíndola Xavier, Hildebrando Pafundi, Celso de Almeida Cini, João Anhê e outros, com  destaque especial para o seu presidente,  dedicado e competente escritor e poeta, professor  Rinaldo Gissoni. Aqui viria encontrar também o meu saudoso companheiro do Rotary Club  de São Paulo, professor Sólon Borges dos Reis, infelizmente  falecido há um ano, no dia 9 de setembro de 2006, a quem rendo  as minhas homenagens.

Sou grato aos 22 Acadêmicos que me recebem neste sodalício.

A outra razão desta minha felicidade, é ver aqui reunido, este grande número de Amigos queridos que atenderam ao convite da Academia, e meu, e aqui comparecem  para testemunhar este ato solene e, no final, receber o meu abraço  de agradecimento.

E o motivo desta minha alegria, está ainda, e poderia dizer, principalmente, no Patrono da Cadeira número 8, que passo a  ocupar: Monteiro Lobato. Eu o admiro desde a minha infância.

Logo após ingressar no primeiro ano do Grupo Escolar Senador Flaquer, para aprender as primeiras letras, meu pai obsequiou-me com o almanaque do biotônico Fontoura contendo a história do Jeca Tatu.  Foi o primeiro contato que tive com o famoso escritor e a minha primeira  leitura de uma  pequena história.

Foi assim que, jovem ainda, comecei a me interessar pelo autor. A realidade dura do homem do campo ele conheceu quando  tomou a seu cargo a direção da fazenda que a família possuía em Taubaté. Verificou que faltava muito estímulo ao sacrificado homem do campo. Como todos sabem, foi aí que surgiu o Jeca Tatu.

Mas José Bento Monteiro Lobato não foi apenas o autor dessa importante pequena história. Sua luta pela terra em que nasceu o transformou em um dos grandes vultos da história nacional.

Na minha adolescência fui tomando contato com a sua obra literária que não se resumiu somente à literatura infantil e com os seus posicionamentos em favor do seu País, embora soubesse que não estava se tornando uma figura simpática aos dirigentes da Nação.

Após vender a fazenda que herdara dos pais, estabeleceu-se  em São Paulo e, em 1918, publicou o seu primeiro livro “Urupês”. Três anos depois, lançaria o seu primeiro livro infantil. Adquiriu a “Revista do Brasil” e fundou a primeira editora brasileira, que mais tarde se tornaria a Companhia Editora Nacional.

Fazendeiro, empresário, escritor, jornalista e agitador cultural, defendeu com entusiasmo e determinação os seus pontos de vista, destacando sempre o seu nacionalismo. Lutou pelo aço e pela  nacionalização do petróleo, escreveu e assinou vários artigos no jornal “O Estado de São Paulo” e na sua edição vespertina “Estadinho”, expondo os seus pontos de vista julgados muito adiantados para aquela época.  Assim, fundou o Sindicato do Ferro e a Cia. de Petróleos do Brasil, desagradando seriamente os que estavam no Governo.

Como é fácil de concluir, Monteiro Lobato não foi, e nem poderia ter sido, bem-visto pelo Governo. Esteve sempre na  linha de frente na campanha “O petróleo é nosso”, que insistia  na abertura dos nossos poços petrolíferos, cuja existência, não se  sabe oficialmente porque, a ditadura de Getulio Vargas teimava em negar.

Esse seu espírito de lutador e de  contestador lhe valeu seis meses de prisão na penitenciária do Carandiru, pena essa posteriormente comutada pela metade.

Exilou-se na Argentina em 1946, mas, três meses depois já estava de volta para seu querido Brasil, disposto a prosseguir lutando pelos seus ideais. Se, contrariamente à sua prisão,  a ditadura brasileira o tivesse ouvido, a Petrobrás e a Siderúrgica Nacional teriam sido criadas muitos anos antes do que foram.

Além do livro “Urupês” (1918), escreveu os importantes “Cidades Mortas” (1919), “Negrinha” (1920), “O Macaco que se fez Homem” (1923). E mais, O Presidente Negro ou O Choque das Raças (1926); Idéias do Jeca Tatu (1919); A Onda Verde (1921); Mundo da Lua (1923); Mister Slang e o Brasil (1929); Ferro (1931); América (1932); Na Antevéspera ( 1933); O Escândalo do Petróleo ( 1936) e A Barca de Gleyre (1944).

Provavelmente porque os leitores  se iniciavam com os seus livros infantis, verdade é que as publicações mais conhecidas eram as dirigidas às crianças. Entretanto, esta fase   teve inicio em 1921, três anos após a publicação de ‘Urupês”, com “a Menina do Narizinho Arrebitado”, que mais tarde veio a se chamar “Reinações de Narizinho”.  Depois vieram “Geografia de Dona Benta”, “Emília no País da Gramática e Aritmetica”, “O Poço do Visconde”, “História da Tia Anastácia”, Viagem ao Céu e o Saci, Caçadas de Pedrinho  e Hans Staden, História do Mundo para Crianças, Memórias da Emília e Peter Pan, Serões de Dona Benta e Histórias das Invenções, Dom Quixote para as Crianças, O Pica-pau Amarelo e a Reforma da Natureza, O Minotauro, Fábulas e os Doze Trabalhos de Hércules.

Um país se faz com livros” dizia, e nesse mundo de fantasia, Monteiro Lobato deixou presentes o caráter moralista e doutrinário da sua luta pelos interesses do Brasil. Ainda hoje são atuais as mensagens que enviava nos seus livros infantis, como esta  de”Memórias da Emilia”

“- Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta idéia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, par dar idéia de que está falando a verdade pura.

Dona Benta espantou-se de que uma simples bonequinha de pano andasse com idéias tão filosóficas.

–  Acho graça nisso de você falar em verdade e mentira como se realmente soubesse o que é uma coisa e outra. Até Jesus Cristo não teve ânimo de dizer o que era a verdade. Quando Pôncio Pilatos lhe perguntou: “Que é a verdade?” ele, que era Cristo, achou melhor calar-se. Não deu resposta.

– Pois eu sei! – gritou Emília – Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso.”

O seu livro sobre Emília foi editado em espanhol e ficou conhecido em toda a América do Sul.

Felizmente, a partir deste mês de setembro, começa a ser editada toda a grandiosa obra do nosso homenageado de hoje, composta de 56 livros, graças a um acordo recentemente celebrado entre os seus herdeiros e a Editora Globo.

Nascido em Taubaté em 18 de abril de 1882, José Bento Monteiro Lobato faleceu na cidade de São Paulo em de julho de 1948, com 66 anos de idade.

Infelizmente, pouco tem sido lembrado pelos brasileiros que a ele tanto devem. É muito pequena a quantidade de pessoas que sabem, inclusive, que o Dia Nacional do Livro Infantil é celebrado em 18 de abril, em sua homenagem, pois, é a data do seu nascimento. E, em comemoração à essa data, há cinco meses, o jornal “Folha de S. Paulo”, publicou um brilhante trabalho da  escritora Bia

Abramo. Este seu artigo termina com um parágrafo que, na minha opinião, deve ser repetido aqui, para encerrar esta pequena e despretensiosa dissertação a  respeito deste grande brasileiro, lutador e cultor das artes, que teve tanta importância para o desenvolvimento do nosso País. Eis o texto:

“É esse caráter contestador, claramente a favor do conhecimento,
da autonomia de pensamento, ao mesmo tempo respeitador da
capacidade imaginativa das crianças, que faz do Lobato infantil
um autor ainda tão atual -– e, talvez, diante do que se vê mais
habitualmente na TV – cada vez mais necessário”.

Creio que os caríssimos Amigos e Amigas aqui presentes, entendem agora, após estas minhas breves e modestas palavras, porque este é um dos dias mais felizes da minha vida. Ser recebido na Academia de Letras da Grande São Paulo e ocupar a cadeira nº 8 desse grande vulto da nossa historia que é Monteiro Lobato, realmente é uma benesse vinda do Céu.

É o que tinha a dizer. Muito obrigado pela atenção que me  dispensaram.

Mário Porfírio Rodrigues


A CRIAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO CAETANO DO SUL

Possivelmente por falta de maior divulgação algumas pessoas ignoram a importância do Movimento Popular de 24 de outubro de 1948. O que aconteceu não foi um grupo de  políticos pleiteando um ato do Governo para criar um município.

É impossível esquecer, ignorar, fingir que não existiu e deixar sem comemoração um marcante fato histórico, uma conjugação de esforços com um só objetivo, envolvendo quase noventa por cento da população, independentemente de cor, religião, posição política ou social. Foi uma grande família unida, em busca dos melhoramentos que a nossa Cidade precisava.

Transcorrido mais de meio séulo, os menos avisados poderão estar se questionando se em 1948 não havia político em São Caetano. Existia já 20 anos antes desse Movimento. Em 26 de maio de 1928 o Partido Independente Municipal – PIM de São Caetano, do qual faziam parte Armando de Arruda Pereira, José Mariano Garcia, Bonifácio Paulino de Carvalho, Antonio Flaquer, Mateus Constantino, João Bisquolo e outros, tentaram a emancipação de São Caetano. O então sub-distrito já era politizado, mas, o movimento, exatamente  por ser político, fracassou.

E uma constatação maior da politização dos sancaetanenses, está no resultado das urnas das eleições de 9 de novembro de 1947. Um ano antes do plebiscito pró Autonomia Municipal, São Caetano elegeu 48% dos vereadores do município de Santo André, ao qual pertencíamos. Em uma Câmara composta de 21 edis, 10 eram de São Caetano do Sul, a saber: Anacleto Campanella UDN; Antonio Dardis Neto, Armilindo Franchini e João Rella PSP; João Dal’Mas, Lauro Garcia e Odilon Conceição PDC; Eduardo Ferrero PSD; Verino Segundo Ferrari PTB e Geraldo Benincasa PTN.

Antonio Flaquer foi diplomado Prefeito em 1947, em substituição ao comunista Armando Mazzo, que teve seus votos anulados pelo Tribunal Eleitoral. Dono do único Cartório de São Caetano, onde atuava como verdadeiro “coronel’ da política local, assumiu a Prefeitura.  Ele não via com bons olhos a linha editorial de um semanário – “Jornal de São Caetano” – que surgiu em 28 de julho de 1946. O semanário defendia a emancipação de São Caetano e isso contrariava suas pretensões políticas e profissionais.

Conhecia os seus diretores: Walter Thomé 19 anos, Mário Porfírio Rodrigues, 20 anos e Luiz Rodrigues Neves, 27 anos.

Seis meses após sua primeira edição, o semanário fundou a Sociedade Beneficente Hospitalar S. Caetano. O seu objetivo era construir uma Santa Casa para o subdistrito que não tinha hospital, nem pronto socorro. Arregimentou, dessa forma, as forças vivas da Cidade, pessoas importantes, independentemente de simpatias políticas. Em seus editoriais, reportagens e artigos assinados , fazia o proselitismo destinado a aumentar o número de simpatizantes da Autonomia Municipal de São Caetano.

Dois dias antes da eleição municipal, em 7 de novembro de 1947, com os nomes dos associados da Sociedade Beneficente Hospitalar São Caetano, e outros, o “Jornal de São Caetano” fundou a SASC – Sociedade Amigos de São Caetano, apolítica, destinada a ser a pessoa jurídica que lideraria o Movimento de 24 de Outubro de 1948.

Dos dez vereadores de São Caetano, alguns tinham compromissos de diferentes formas com Antonio Flaquer. Outros preferiram se omitir para não magoar o conhecido “coronel” político. Apenas quatro, Anacleto Campanella, Antonio Dardis Neto, João Dal’Mas e Lauro Garcia, defenderam  São Caetano nas violentas batalhas orais travadas no plenário da Câmara Municipal de Santo André.

A história da criação do novo município, em 1948, tem sido contada anualmente nas escolas e pela imprensa local. Vários enfrentamentos e perseguições da parte do Prefeito Antonio Flaquer. Campanhas heroicas, diversas pessoas trabalhando de graça e se sacrificando, coleta das 5.197 assinaturas necessárias, obtenção de dados sobre impostos arrecadados, estatísticas, enfim uma série de dificuldades vencidas pelos 95 abnegados líderes autonomistas, cada um cuidando de um setor.

Criado o novo Município, Angelo Rafael Pellegrino foi eleito primeiro Prefeito. A ele coube iniciar uma administração apaziguadora, séria, honesta, com muitas realizações. Os 95 Líderes Autonomistas estavam  certos. Hoje e para dar um viva a este querido município que ajudamos a fundar há mais de meio século. São Caetano do Sul é hoje a cidade modelo que todos conhecem, mas cuja história é pouco divulgada , famosa em todo o Brasil e em vários países, inclusive por ser portadora do título de melhor IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano).

Após este rápido resumo, reiteramos a nossa opinião que a história da criação do Município merece uma divulgação melhor.

Mário Porfírio Rodrigues