Milton Bigucci

Patrono: Lima Barreto
Cadeira 05


BIOGRAFIA

O empresário Milton Bigucci é membro da Academia de Letras da Grande São Paulo desde 2003, na cadeira número 5, cujo patrono é o escritor Lima Barreto. Autor de centenas de artigos publicados na mídia, Bigucci também escreveu 6 livros: “Caminhos para o Desenvolvimento” (1997); “Somos Todos Responsáveis – Crônicas de um Brasil Carente” (1999); “Construindo uma Sociedade mais Justa” (2005), “Em Busca da Justiça Social” (2012); “50 Anos de Construção” (2012) e “7 Décadas de Futebol” (2014). Os livros têm renda revertida a entidades beneficentes.

Como empresário, Milton Bigucci sempre esteve ligado ao setor da construção civil, onde atua desde 1961. Em 1983 fundou sua própria empresa, a construtora MBigucci: uma empresa familiar e profissionalizada, com sede em São Bernardo do Campo. Reconhecida por duas vezes consecutivas (2014 e 2015) como a “Melhor Construtora de Capital Fechado do Brasil”, pela Revista IstoÉ Dinheiro, a MBigucci também foi premiada duas vezes como a “Construtora mais Sustentável do Brasil” (Prêmio ITC/Sustentax – 2012 e 2014).

Milton Bigucci, também preside o Conselho Deliberativo da Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC (ACIGABC), é membro do Conselho Consultivo Nato do SECOVI-SP e seu diretor Regional no ABC, além de ser conselheiro nato da Associação Comercial de São Paulo.

Nascido no Bairro do Ipiranga – São Paulo, em 19 de dezembro de 1941, Milton Bigucci é casado com Sueli Pioli Bigucci. Pai de quatro filhos (Milton Bigucci Junior, Roberta Bigucci, Marcos Bigucci e Marcelo Bigucci) e avô de 11 netos.

E-mail: big@mbigucci.com.br

 


BIBLIOGRAFIA

Caminhos para o Desenvolvimento  (Temas sociais) – 1997;
Somos Todos Responsáveis:  (Temas sociais) – 1999;
Construindo uma Sociedade mais Justa (Temas sociais) – 2005;
Em Busca da Justiça Social  (Temas sociais) – 2012;
Em busca da Justiça Social – “50 Anos de Construção” – 2012;
Sete Décadas de Futebol  (Esporte e futebol) – 2013.


Pronunciamento de Apresentação proferido pelo Acadêmico João Bosco dos Santos, na solenidade de posse de Milton Bigucci, na Academia de Letras da Grande São Paulo.

Prezados Senhores.

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…”, reza o Art. 5º da Constituição Brasileira, de 1988, em plena vigência, em seu Capítulo I  – Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos.

O Art. 6º diz o seguinte: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.”

O Estatuto da Criança e do Adolescente, originalmente publicado no Diário Oficial da República, em 16 de julho de 1990, no Título II – Dos Direitos Fundamentais – Capítulo I, Art. 7, diz: “A criança e o adolescente têm direito à proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.”

Desse mesmo diploma legal extraímos o Art. 15: “A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e na leis.”  Ressaltamos, igualmente, o Art. 18. :  “É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.”

Certamente, todos deverão estar imaginando o porquê de tais referências em uma solenidade tão expressiva como esta realizada pela Academia de Letras da Grande São Paulo, nesta memorável noite. Logo compreenderão que ocorre-nos registrar, nos anais deste silogeu, que a visão daqueles que aqui têm assento perscruta e vislumbra um horizonte muito mais amplo do que apenas legar aos pósteros magníficos versos ou prosopopéias. Aqueles que além de cultuarem e cultivarem o belo, de todas as formas, também têm na dialética ascendente uma forma de participação acadêmica. Com efeito pois, esta dialética é um processo de elevação da alma que parte da realidade concreta em direção ao mundo inteligível e, finalmente, à idéia do Bem.

E o que é o Bem, senão aquilo que atende às aspirações essenciais da natureza humana; aquele conjunto de princípios fundamentais referentes à vida e à dignidade das pessoas; aquilo que enseja condições de vida (materiais ou morais) mais perfeitas para alguém?

A Carta Magna da nação e o Estatuto da Criança e do Adolescente aqui referidos remetem-nos à discussão sobre o conceito de Bem, um Bem idealizado pelos aparelhos ideológicos de estado. Mas, o que percebemos de fato? O indecoroso e enervante desrespeito aos direitos mais elementares dos cidadãos, como os sociais coletivos e individuais, o direito à educação, à saúde, à segurança, ao trabalho, à previdência social. A Nação parece padecer de um mal inextricável e inelutável contra o qual postamo-nos inermes.

Não é nosso mister suscitar questionamentos de teor político-ideológico mas, tão somente, faze-los compreender que a única forma de que dispomos para atingirmos a idéia do Bem é com o emprego da palavra escrita. Muitos se manifestam criticamente  versejando ou produzindo textos romanceados que fazem referências às mazelas sociais que tanto afligem a sociedade. Consagrados nomes da Literatura, ao longo da História, têm demonstrado seu desconforto e inquietação registrando-os em obras de inestimável valor que se perpetuam. E é aqui que faço menção àquele que a partir desta noite, passará a ocupar uma das cadeiras da Academia de Letras da Grande São Paulo; Milton Bigucci. Mas ele é poeta, é romancista? – indagaram-me com ar de perplexidade. Tanto quanto um poeta ou um romancista – respondi ao meu interlocutor – Milton Bigucci é um lídimo representante da “littérature engagée”, a literatura comprometida, participante. Um exemplo:

“O homem é inconformado por natureza e assim, embora continue num regime ditatorial a pensar, a manter internamente o seu instinto de liberdade, sempre que procura exteriorizar esse instinto é obstado pela força coercitiva do Estado.”

Observe-se que este excerto é parte integrante da crônica “E agora, José?”, escrita e publicada em 19 de dezembro de 1965, no auge do regime militar que impedia a livre manifestação do pensamento, um direito assegurado pela Democracia e pelo Estado de Direito. Milton Bigucci é um idealista e um otimista exacerbado: polêmico no seu ideal desperta o contraditório saudável já que a fé e a esperança que ele tem no Brasil é imorredoura.

Ao publicar, em 1997, uma coletânea de crônicas que resultaram no seu primeiro livro “Caminhos para o Desenvolvimento”, Milton Bigucci, já na capa principal afirma:

“Assim como vibramos com os prédios que construímos, que deram um lar feliz a muitas famílias, gostaríamos de ajudar a construir uma nova sociedade mais otimista, em que não houvessem miseráveis, menores abandonados, egoísmo ou mentiras.”

Utopia? Não, senhores. É uma cabal demonstração das qualificações e das características desse homem, desse ser humano que tem na Virtude uma reserva moral inquestionável. E a virtude está ligada à cultura, à política, às instituições. Foi Aristóteles quem insistiu nas virtudes, ou “excelências” como os constituintes básicos da felicidade individual e coletiva. Para ele, uma pessoa é quem é em virtude de seu lugar e papel na comunidade, e as virtudes da comunidade, por sua vez, educam e estimulam cada um a ser uma boa pessoa. Milton Bigucci, todos sabemos, é um paladino no mundo dos negócios mas ele não desconhece que na abordagem aristotélica dos negócios, uma boa empresa, além de lucrativa, fornece um ambiente moralmente recompensador, em que as boas pessoas podem desenvolver não apenas suas habilidade, mas também suas virtudes.

Confúcio disse: “Um ser superior pensa no que é correto. Um ser inferior só pensa no que é lucrativo.” O imortal pensador induz-nos a refletir sobre o sentido da integridade que não é, em si, uma virtude, porém uma síntese das virtudes que trabalham juntas para formar um todo coeso, ao qual chamamos de caráter, no sentido moral. Integridade significa “inteireza” – da virtude, da pessoa, ou como parte integrante de algo maior do que a própria pessoa (a comunidade, a empresa, a sociedade, a humanidade e o cosmo).

Milton Bigucci não teme deixar provas materiais de suas opiniões. A ele se aplica apropriadamente o provérbio latino “Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos ficam). Milton Bigucci reveste-se, pois, da dupla autoridade da virtude e do talento.

Dele, disse Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, precocemente retirado do nosso convívio pela barbárie da violência social, ao prefaciar sua obra “Somos Todos Responsáveis – Crônicas de um Brasil Carente”:

“São temas que tocam fundo nos problemas estruturais do país e, portanto, afetam o cotidiano de todos. Mostrados de forma clara e concisa, permitem uma reflexão sobre nossas contradições.”

Maurício Soares, ex-prefeito de São Bernardo do Campo, assim se expressou:

“É certo que a exclusão social em nosso país, além de crônica, vem se agravando nos últimos anos, tornando-se tema para muito discurso demagógico e diatribes inúteis. Contra alvo tão grande qualquer descalibrado arrisca-se a atirar. Não é o caso de Bigucci. Fala de matérias que conhece, é propositivo. Não se trata de um teórico descolado, mas tem parte significativa de sua vida voltada para a promoção de setores carenciados, como quando dirigiu entidade de caráter nacional ligada ao patrulheirismo, setor no qual até hoje milita. Seus temas passeiam com muita propriedade não só sobre o social, mas também sobre assuntos ligados à tributação excessiva incidente sobre a produção, a respeito dos problemas advindos aos jovens em idade de prestação de serviço militar, etc.”

Luís Tortorello, prefeito do município de São Caetano do Sul, testemunha:

“A cada artigo, cada comentário, encontramos sempre a linha concisa e elegante no estilo, correta e intensa na forma e precisa no conteúdo. São análises, comentários e propostas ancoradas em três pilares fundamentais de um homem integrado à sua época e consciente da gravidade do momento histórico: Dom, talento e experiência. Escreve com simplicidade, eloqüência e sabedoria.”

Há cerca de uma década tenho o privilégio de manter uma excelente relação de amizade com essa pessoa íntegra que logo tomará posse nesta Academia, apresentado que fui a ela por um amigo comum – o meu querido amigo Professor Sérgio Luiz Munhoz – num almoço promovido por uma confraria informal que se reúne semanalmente há um quarto de século. Desde então, em nossos costumeiros e habituais encontros passei a nutrir grande admiração pela figura virtuosa e talentosa de Milton Bigucci e alimento a expectativa de que esse laço de amizade não seja desfeito quaisquer que forem as circunstâncias, até porque partilhamos dos mesmos ideais de Bem.

Milton Bigucci que é paulistano, mas se considera sobretudo um brasileiro, nasceu em 19 de dezembro de 1941. Casado com Sueli, é pai de quatro filhos –  Roberta, Milton, Marcos e Marcelo – e avô de Felipe, que acaba de completar 4 anos de idade (20 de outubro). Formado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – no tradicional Largo de São Francisco, em 1968 – exerceu durante algum tempo a atividade de Professor de Contabilidade Geral, Comercial, Bancária, Industrial e Agrícola.

Do seu extenso currículo extraímos os seguintes dados:

• Presidente da Associação dos Construtores, Incorporadores e Administradoras de Imóveis do Grande ABC;
• Vice-Presidente do SECOVI – Sindicato da Empresas de Compra e Venda de Imóveis;
• Delegado Regional do SINDUSCON/ABCD;
• Conselheiro Vitalício da Associação Comercial de São Paulo;
• Ex-Presidente da Federação Brasileira de Patrulheirismo;
• Fundador e ex-Presidente do Círculo de Amigos do Menor Patrulheiro do Ipiranga;
• Ex-Presidente do Lar-Escola Pequeno Leão;
• Ex-Presidente do Lions Clube de Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo;
• Membro do Conselho Curador da FUBEM – Fundação para o Bem-Estar do Menor, de São Bernardo do Campo;
• Vice-Presidente do Clube Atlético Ypiranga.

Por sua expressiva e relevante atuação em prol das causas sociais, Milton Bigucci foi laureado com os títulos de:

• Cidadão Sãobernardense;
• Cidadão Paulistano, com a medalha “Anchieta”;
• Diploma de Gratidão da Câmara Municipal de São Paulo;
• Companheiro “Paul Harris”, do Rotary Club São Paulo – Anchieta;
• Empresário do Ano no Ipiranga, São Paulo.

A par de seus incontáveis afazeres, Milton Bigucci dedica-se a escrever textos críticos, crônicas sociais impregnadas por um idealismo quase utópico, das quais, muitas delas podem ser apreciadas em seus dois livros publicados: “Caminhos para o Desenvolvimento” e “Somos Todos Responsáveis – Crônicas de Brasil Carente”, aos quais já nos referimos.

Como vemos, senhores convidados, só poderíamos estar orgulhosos em podermos contar com a presença de Milton Bigucci, sentando-se ao lado de seus pares, a partir de hoje, neste sodalício. E para aqueles que ainda acreditam que somente a poesia e o romance os credenciam a ocuparem um lugar nesta Academia sugiro a leitura desta magnífica oração escrita por Milton Bigucci no encerramento de “Somos Todos Responsáveis”:

“Deus queira que eu nunca me conforme ou fique omisso com as injustiças sociais deste país. O ideal seria que elas não existissem, porém como isso parece ser impossível, quero continuar sempre combatendo essas injustiças e ajudando a construir um mundo melhor. Se cada um de nós ajudar ou fizer um pouco, rapidamente melhoraremos a qualidade de vida do cidadão brasileiro. Seja ensinando o bem a uma criança, seja dando um emprego, seja ajudando um velho, seja contribuindo – material ou espiritualmente – para alguma causa, seja transmitindo um pouco de amor e solidariedade ao seu próximo. A responsabilidade é de toda a sociedade. A missão de todo cidadão responsável é incluir na cidadania os excluídos. Somos todos responsáveis.”

Isso é um exemplo de literatura comprometida, de literatura participante. Seja bem-vindo à Academia de Letras da Grande São Paulo, cronista social Milton Bigucci!

João Bosco dos Santos
Cadeira 28
Patrono Catulo da Paixão Cearense

 


Pronunciamento de Posse de Milton Bigucci à Academia de Letras da Grande São Paulo, em 29 de Outubro de 2003, na Cadeira 05, Patrono Lima Barreto.

Cultíssimo Rinaldo Gissoni, digníssimo presidente da Academia de Letras da Grande São Paulo;
Excelentíssimos Confrades e Confreiras;
Membros do Sodalício;
Senhoras e Senhores.

HOMENAGENS E AGRADECIMENTOS

A cultura de uma Nação não permanecerá estagnada, mas estará em contínua ebulição. É preciso que da ebulição haja uma literatura não de esquerda, tampouco de direita, mas de centro, de equilíbrio e de paz que, ditada pela inteligência e pela fala do coração, possa elevar o espírito da Nação e todas as fronteiras.

Começo minhas palavras com esse belo texto do nosso mestre e presidente Rinaldo Gissoni ao qual presto as minhas sinceras homenagens.

“Mas que dantesca cena é essa que me faz rolar o pranto?
Negros esquálidos, famélicos, morrendo em cada canto
São sepultados na vala comum dos desafortunados
Na mais flagrante e acintosa afronta aos Teus ensinamentos
Perpetuando à humanidade vil esses tristes momentos
Esse holocausto fraticida, sem propósito e razão.
Me escandaliza e revolta. Poderá haver perdão?
Horrorizado e impotente imploro, então, ao Criador
Que não permita à nação africana tão desditosa sina
Posto que a Paz e o Amor refletem a força da chama divina.”

Versos do poema “Ruanda” de autoria do acadêmico João Bosco dos Santos, que faz parte do seu livro VERSOS DIVERSOS, a ser editado, e esta é a minha homenagem a este grande homem, embora baixinho de estatura, que veio do agreste do Piauí, enriquecer a nossa cultura. Aliás, só conheço dois homens famosos nascidos no Piauí: O Petrônio Portela, já falecido e o João Bosco dos Santos, meu grande amigo Acadêmico, a quem devo e a quem agradeço pela indicação de meu nome para ocupar a cadeira número cinco desta Academia, tendo como patrono o polêmico escritor Afonso Henriques de Lima Barreto.

Caro amigo João Bosco dos Santos, não mereço esta honra, porém espero ser útil à minha sociedade. Sempre procurei estar a serviço do BEM e agora tenho que buscar também estar a serviço do BELO. Já dizia o filósofo: “Uma Alegria partilhada é uma dupla alegria”. Esta conquista é de todos vocês, meus familiares e amigos, e é com vocês que eu quero partilhar esta alegria.

“Transporta um punhado de terra todos os dias e farás uma montanha” (Confúcio)

Vocês me ajudaram a transportar a terra, portanto esta posse é de todos vocês também. Acredito que a maioria de vocês nunca participou de uma posse de Academia de Letras. Até há poucos meses atrás eu também não havia participado. É um evento cultural agradável para quem gosta de aprender. E vocês vão sair daqui sabendo quase tudo de Lima Barreto. Procurei fazer um trabalho profundo sobre a vida e as obras de Lima Barreto e vou entrega-lo a Academia. Para não cansá-los, porém, fiz um resumo. Intercalei sua vida às obras e vocês verão como elas se misturam. Parece que suas obras são sua própria vida. Quero partilhar com vocês o que aprendi sobre Lima Barreto.

PRÓLOGO

Escolhi Lima Barreto, talvez porque suas escritas foram capítulos de suas memórias, principalmente por ele enfocar os problemas sociais. A trajetória e a obra descrevem um literato cuja figura física mal se podia conhecer, e foi retratada não mais que umas três vezes durante sua existência.

Em uma de suas narrativas ele diz:…”O meu pensamento é para a humanidade toda, para a miséria, para o sofrimento e para os que a todos amaldiçoam”.

Só por essa frase, vê-se a alma do escritor Lima Barreto, orgulhoso e complexado por sua cor mulata e por sua pobreza.
Lima Barreto foi apontado por alguns, enquanto vivo, como provinciano e recalcado, porém ele desfrutou um certo reconhecimento no fim da vida. Entretanto foi a organização de seus romances, na década de 50, após sua morte, que ressaltou a importância de livros como “Triste fim de Policarpo Quaresma”, que se transformou em filme tendo o ator Paulo José como protagonista e “Clara dos Anjos”.

O crítico Jackson de Figueiredo dizia que Barreto superara o criador de Dom Casmurro, Machado de Assis, por ser mais humano e mais verdadeiro.

Outro motivo que me levou a escolher Lima Barreto como patrono, foi ler a sua biografia e verificar que, 80 anos após a sua morte, o Brasil tem milhares de Limas Barretos como realidade social, conseqüência do recrudescimento dos problemas sociais da população pátria, como vocês sentirão ao ouvirem a sua história. Muitos de vocês identificarão alguém que conhecem, com a história do homem Lima Barreto.

A realidade social de hoje é mais forte e abrangente que em sua época.

Nas letras, no entanto, não se encontra hoje nenhum outro Lima Barreto, pois ele foi o melhor romancista brasileiro, segundo palavras do grande e inesquecível escritor Monteiro Lobato, que foi seu grande incentivador.

PEQUENO HISTÓRICO

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro no dia 13 de maio de 1881.Filho de pais mestiços viveu parte da infância na Ilha do Governador, onde o pai, ex – tipógrafo da Imprensa Nacional, era almoxarife da Colônia dos Alienados. Após os estudos secundários no Colégio D.Pedro II, ingressou no curso de Engenharia da Politécnica, do qual saiu em 1903, para cuidar do pai, mentalmente enfermo. Concursado trabalhou na Secretaria da Guerra, o que lhe deu tranqüilidade financeira. Datam desse período alguns de seus contos e publicações na imprensa. Vítima de preconceitos viveu intensamente todas as contradições do início do século, entregando-se à bebida.Morreu de problemas cardíacos em 1 º de novembro de 1922, solteiro com apenas 41 anos de idade.

ORIGENS

O pai de Lima Barreto, João Henriques era tipógrafo e começou sua vida trabalhando no Jornal do Commercio, de cuja corporação se desligaria alguns anos depois por entender que estava sendo vítima de injustiça.Essa atitude de demitir-se de um jornal de prestígio, para ficar sem emprego, embora com o orgulho satisfeito, revelava o seu temperamento rebelde.

Com a morte de um colega, vagara-se o posto de chefe da oficina. Convencido de que merecia a promoção, João Henriques pleiteara o lugar. O patrão recusou-se a atende-lo e João Henriques, de sangue quente, vencido, mas não convencido, preferiu abandonar o emprego a receber ordens de um chefe que ele julgara ser menos competente do que ele.
Ele era mulato, quase preto. Nascera liberto, mas trazia na pele o estigma da cor.

Como o império estava em crise e questões de toda ordem estavam explodindo João Henriques sendo liberal, seguia à risca a orientação dos chefes como Francisco Otaviano, Cesário Alvim e Afonso Celso que foi seu grande amigo.

Ele era filho de uma escrava e de um português que não reconhecera a paternidade, era muito ambicioso e estudioso. Frequentou vários cursos, estudou francês queria entrar para a escola de medicina e tornar-se Doutor.Ampliou seus projetos com a ideia de casar-se e frequentando a casa dos Pereiras de Carvalho conheceu ainda menina aquela que seria sua esposa e mãe de seus filhos.Chamava-se Amália Augusta – ou simplesmente Amália. Era mulata como ele, pois sua mãe Geraldina Leocádia da Conceição pertencia à segunda geração de escravos da família. Não se sabe ao certo quando e por que João Henriques conheceu os Pereiras de Carvalho. Num de seus romances, Lima Barreto remonta às origens dessa família ilustre, outrora abastada, descendente de um alferes de milícias, senhor de terras no estado do Rio.

Ele sempre procurava através da ficção, remontar as origens obscuras de sua família. E isso não acontece apenas no romance Clara dos Anjos. Nas notas que deixou de um romance apenas esboçado, Marco Aurélio e seus irmãos, parece fora de dúvida que ele pensava no pai ao falar do nascimento de um dos personagens, Miguel da Costa, fruto “da mancebia de uma cabrocha com um português, minhoto, tenaz e paciente, estucador de ofício”.

Das reminiscências familiares, no entanto, foram as recordações da casa dos Pereiras de Carvalho que calaram mais fundo na memória de Lima.Tanto em Clara dos Anjos como em Marco Aurélio e seus irmãos, ele descreve o ambiente patriarcal do velho sobradão carioca, onde sua mãe Amália Augusta nasceu e formou seu caráter.

Quando Amália tinha 15 anos João Henriques a pediu em casamento, entretanto o noivado sacudiria os nervos à flor da pele de João Henriques, a ponto de perturbar-lhe as faculdades mentais, pois o compromisso assumido estava muito acima de suas possibilidades financeiras, pois ele era um simples tipógrafo sonhador e orgulhoso e tiraria a noiva de seu conforto para uma existência de privações.Ao seu temperamento exaltado, as coisas pareceram subitamente insolúveis, e a vida, um fardo pesado demais, entrou em depressão e foi obrigado a fazer um longo tratamento.

Afonso Celso compadeceu-se do noivo infeliz e o internou por conta própria em uma casa de saúde. Foi este, ao que se presume, o primeiro gesto de simpatia do futuro Visconde de Ouro Preto para com o jovem tipógrafo, empregado da oficina do jornal A Reforma.

Ficou seis meses no hospital, e ao sair o médico lhe recomendara uma estação de repouso em Caxambu e ele com muita sorte, ganhou um bilhete de loteria que não só lhe forneceu a possibilidade de terminar o tratamento como também de montar um pequeno colégio para meninas, o Santa Rosa, nas Laranjeiras, onde foi residir com a sua esposa.

Nunca fora tão feliz, porém esta felicidade não duraria muito tempo, foi ilusória e passageira, como tudo que é belo e frágil. Em breve vieram os aborrecimentos, as dificuldades de dinheiro, a doença. Por fim a morte desfaria o lar construído por João Henriques.

A desventura havia penetrado naquela casa. Amália quase morreu ao dar à luz seu primeiro filho, Nicomedes que morreu com oito dias de vida.

O segundo filho teve o nome escolhido para homenagear seu padrinho, Afonso Celso de Assis Figueiredo.À combinação Afonso Henriques foi uma ligação de seu segundo nome ao primeiro do compadre ilustre, com isso ele pagou uma dívida de gratidão.

Foi assim que nasceu Afonso Henriques de Lima Barreto, no Rio de Janeiro a 13 de maio de 1881.

Com as dificuldades do primeiro parto, Amália sofrera sério traumatismo, seguido de paralisia das pernas, porém continuava a dirigir o colégio e a dar filhos a João Henriques, quase um ao ano. Depois de Nicomedes, com um ano e pouco de intervalo, nascera Lima Barreto e Evangelina.

João Henriques era um homem extremamente bom e afetuoso e amava demais sua esposa, porém enfrentava muitas dificuldades domésticas, o tipógrafo não media sacrifícios, trabalhava dia e noite. Desistira de estudar medicina, pois compreendera que era um projeto que jamais poderia ser concretizado.

A saúde de sua amada esposa ia se tornando cada vez mais delicada e ele por ela não pouparia sacrifícios. Como o médico aconselhou banhos de mar, a família mudou-se para perto da praia, no Flamengo, depois para a Rua das Marrecas que era mais próximo do jornal. Foi lá que nasceu o quarto filho do casal, que recebeu o nome de Carlindo.

Como Amália já não podia lecionar, o pequeno colégio das Laranjeiras teve que ser fechado.Mesmo assim Amália ajudava o marido o quanto podia, lavava, passava, cozinhava, costurava para fora. A figura da mãe jamais sairia da memória de Lima Barreto, com seus tristes vestidos e aquele olhar que o mirava sempre.

Porém a vida se complicava e Amália já estava grávida do quinto filho.Vendo sua amada combalida, João Henriques não sabia mais o que fazer.Então amigos lembraram o clima dos subúrbios, onde a vida era mais tranquila e também mais barata.Boca do Mato tinha fama de possuir bons ares, então a família mudou-se, porém Amália não suportou os novos ares por mais de 24 horas e a família teve que se mudar. Foram para Catumbi e nessa casa nasceu Eliézer, o caçula.

João Henriques tinha uma obsessão, salvar sua amada esposa Amália e vendo que seu estado de saúde se agravava, começou entrar em depressão. Só pensava em uma coisa, salvar Amália, custasse o que custasse.Fez um balanço no orçamento, cortou as despesas supérfluas e arranjou uma casa melhor. Tentaria agora o clima da montanha e instalou-se em um lugar maravilhoso, chamado Paraíso.

De nada adiantaria o sacrifício, pois Amália morreu poucos meses depois, vítima de uma tuberculose galopante. Aos 35 anos de idade, o tipógrafo João Henriques de Lima Barreto estava viúvo, com quatro filhos pequenos, o maiorzinho Afonso Henriques, não havia completado sete anos e o menor Eliézer nem fizera dois.

A morte da mãe há de descer como uma sombra escura no coração do filho mais velho, Afonso Henriques de Lima Barreto. Sombra que nunca se dissipou.

João Henriques se afogou no trabalho e tentou reconstruir sua vida ao lado dos filhos.Enfrentou sérios problemas políticos, tornou-se correligionário do Visconde de Ouro Preto, enfrentou várias perseguições dos republicanos, trabalhava de manhã, tarde e noive, e sempre que podia levava o pequeno Afonso para o jornal.

Por pressões políticas, soube que seria demitido do jornal e não esperou que o demitissem, ele mesmo se despachou, redigindo um requerimento para Rui Barbosa, desligando-se definitivamente da Imprensa Nacional, onde havia trabalhado doze anos a fio.

A ausência da mãe abalara muito Lima Barreto, vivia sem agrados, não gostava de brincar, e às vezes, no recreio da escola se deixava levar por outras crianças e entregava-se à alegria e aos folguedos, bem cedo se arrependia, encolhia-se e sentava-se, vexado em um canto.

Ao entrar para o Liceu Popular, para completar o curso secundário e parte do suplementar, seu pai lhe dera toda a coleção de Julio Verne.

Porém Lima Barreto não se adaptava às normas rígidas do colégio.Ele sofria com o internato, nunca se conformou com a disciplina da escola, com os gritos, regulamentos, palmatórias e castigos do colégio e certa vez saudoso de casa fugiu do Liceu e quando chegou ao sitio de seu pai foi severamente repreendido e pensou em suicidar-se pela segunda vez.Era realmente um garoto muito estranho. Lima Barreto, ia todo final de semana para a Ilha do Governador visitar a família. Nessa época a ilha era ainda uma roça.

A casa de João Henriques era uma velha habitação roceira, vasta e cômoda com grandes salas e amplos quartos, descrita quase da mesma maneira que o romancista fez da morada de Policarpo Quaresma, no sítio do Sossego. Nessa época seu pai João Henriques já estava sendo dominado pelo álcool.

Porém as coisas melhoraram e os Lima Barreto passaram por bons momentos na Ilha do Governador. Afonso corria por toda a ponta do Galeão e seus companheiros eram os irmãos e um preto velho Manuel de Oliveira que fora recolhido no Asilo dos Mendigos e tornou-se uma pessoa quase da família. Esse preto velho, contador de histórias, foi na verdade o primeiro grande amigo de Lima Barreto.Manuel de Oliveira também aparece em Policarpo Quaresma, na figura de Anastácio, o preto fiel, que acompanhava o amo de sol a sol, nas suas andanças pelo campo afora.

Tudo isso aconteceu na melhor época de sua vida e seu pai o ajudava muito e era seu melhor amigo. Por esse pai tão querido Lima Barreto conservou uma grande admiração por toda a vida.

Lima Barreto, era pobre, porém muito orgulhoso e era também prevenido contra tudo e contra todos.Começou então a notar que estava em um meio que não era seu, pois seus amigos da Politécnica eram ricos e não se preocupavam em prover o seu próprio sustento, podiam comprar os livros que quisessem e mesmo que não levassem nada a sério sempre havia os “pistolões” que lhes abririam as portas como num passe de mágica.Embora os depoimentos eram que na Politécnica não havia preconceito de raça, estes depoimentos eram dados por brancos, mas na realidade havia sim e Lima Barreto sempre foi vítima dele. Prova disso é que ao tomar conhecimento do nome bonito de um colega -Afonso Henriques de Lima Barreto-, um veterano mal-humorado fizera o seguinte comentário:

“-Vejam só! Um mulato ter a audácia de usar o nome do rei de Portugal!” Não se pode saber se foi D. Garça o primeiro esboço do romance tentado por Lima Barreto, pois um ano antes o jornal a Lanterna havia publicado um trabalho antigo com a indicação de que se tratava de capítulo de romance inédito e intitulava-se Chez Madame da Costa.Era uma sátira ‘a sociedade e a julgar-se pela amostra o romancista fez muito bem em não levar adiante este projeto.

INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS E DESILUSÕES

Foram vários os autores que influenciaram Lima Barreto a tornar-se um romancista, dentre eles está Dostoievski com o Crime e o Castigo, um volume dos contos de Voltaire, A Guerra e a Paz de Tolstoi dentre outros, porém não foram só estes livros e autores que mais influenciaram o jovem Lima Barreto.Não se pode deixar de lembrar a influência que exerceu sobre ele o livro de Jules de Gautier e o Crime e a Loucura de Maudsley que havia lido logo após a doença de seu pai.

No início de sua vida literária, Lima Barreto viveu numa verdadeira encruzilhada, indeciso na escolha do caminho a seguir.Além da narrativa pretensiosa de D. Garça e do romance mundano Chez Madame da Costa, ele exercitou-se no teatro, na história, no ensaio e no romance sociológico.

Qualquer coisa servia, pois estava possuído da vontade de produzir alguma coisa de imediato.Tal era sua sofreguidão que planejava duas ou três obras ao mesmo tempo, porém não se demorava em nenhuma delas, começava escrever e abandonava nos primeiros capítulos.

Pensou em escrever a História da Escravidão Negra no Brasil e sua influência na nossa nacionalidade, mas ficou só no projeto.É da mesma época o esboço de uma peça em um ato, Os Negros -inspirada em Maeterlink, e que até a pouco tempo se conservava inédita.

Estava embriagado com a idéia da fama, porém nunca deixou de lado a idéia do negrismo e começou a arquitetar um novo plano, um romance, Marco Aurélio e seus irmãos, em vinte capítulos, mas do qual escreveu apenas quatro lendas.
Outro projeto da mesma época era um romance que também não chegou a escrever, mas que foi com certeza o germe de Policarpo Quaresma.

De todos os primeiros ensaios, que não chegaram a se concretizar em nenhuma obra, o mais interessante é sem dúvida o de um romance que começara a escrever possivelmente em 1904: Clara dos Anjos.Conquanto o tema o aproxime da novela inacabada, que veio a ser publicada depois de sua morte, sob o mesmo título, a concepção inicial visava um romance de maior envergadura.

No final de 1907, Lima Barreto fundou a Floreal, pequena revista que segundo ele era “… a grandeza da literatura…”, pois não se limitava apenas em crônicas duvidosamente impressionistas, mas sim, um produto típico na mentalidade artística e literária daquele período.

Em seu diário íntimo, ele disse que tencionava lançar uma outra revista juntamente com Alcides Maia, seu amigo e já estavam também escritos os primeiros capítulos de Isaías Caminha no que foi incentivado por Alcides que se entusiasmara pelo romance e o animou a prosseguir até o fim.Fora o escritor gaúcho Alcides quem influíra decisivamente no destino do personagem, que seria um garçom de café e não um contínuo de jornal como se pensava inicialmente.

Ele gostava muito de Alcides Maia segundo notas em seu Diário Íntimo, salientava sua inteligência, cultura e sensibilidade, ao mesmo tempo em que faz uma confissão que vem de encontro à história, senão da mudança de profissão, pelo menos da introdução de um novo personagem no romance.

Sempre foi dito e redito que Lima Barreto escrevia em seu livro Isaias Caminha sua própria vida, portanto ele e Isaias eram a mesma pessoa. Lima tentou levar adiante sua revista Floreal, mas ela não conseguiu passar do quarto número, mesmo com a ajuda de José Veríssimo grande literário da época ela sucumbiu.

Com o desaparecimento da revista, desfaz-se mais um sonho do jovem Lima Barreto.Então ele ficou sem ter onde publicar sua literatura, uma vez que não tivera a sorte de nascer de pai livreiro e nem estava disposto às iniciações humilhantes a que se submetiam os novos diante dos mandarins das letras e da grande imprensa.

Foi então que começa a entrar em depressão, julga-se só, abandonado pelos amigos, que já não o procuravam. Vê tudo negro, chega a pensar em suicídio. Procura então a bebida como lenitivo, pois só o álcool tinha o poder de faze-lo esquecer sua amargura.

Escreve no seu diário íntimo…”Vai me faltando a energia. Já não consigo ler um livro inteiro, já tenho náuseas de tudo, já escrevo com esforço. Só o álcool me dá prazer e me tenta… Oh! Meu Deus! Onde irei parar?

Tenho um livro de trezentas páginas manuscritas, de que falta escrever dois ou três capítulos, porém não tenho ânimo de acabá-lo.Sinto-o imbecil, fraco, hesito em acabá-lo, e é por isso que me dá vontade de matar-me; mas a coragem me falta e me parece que é isso que está me faltando sempre…  coragem.”

Esse livro era Isaías Caminha, do qual a Floreal havia publicado os dois primeiros capítulos e a metade do terceiro.

Àquela altura, estaria concluindo também o Gonzaga de Sá.Os dois romances nasceram do mesmo ressentimento, refletindo as alternativas de seu estado de espírito, ora revoltado, ora conformado, em face das injustiças que vinha sofrendo. Isaías é violento, quase um panfleto, no Gonzaga predomina o tom irônico, mas a verdade é que ambos revelam a personalidade de Lima Barreto, ou melhor dizendo, sua vida por inteiro.

Afinal pode-se dizer que os personagens Isaías, Gonzaga e Augusto Machado se confundem com seu criador. No Recordações do escrivão Isaías Caminha, ele conta a história de um rapaz inteligente, bom, honesto, ambicioso, possuindo todos os requisitos para vencer na vida, menos um – a cor.Era mulato e, além de mestiço, pobre. No Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá, vemos um homem de inteligência superior, completamente esquecido na sua banca de funcionário público, como se de nada lhe valesse a cultura. Contudo, o comportamento de Gonzaga é bem diverso de Isaías. É calmo e ponderado, ao contrário do outro, nervoso e confuso, chegando ao desespero. No segundo romance quem se descontrola é o narrador, isto é, o próprio biógrafo de Gonzaga. É que, analisados os fatos, o biógrafo vem a ser a principal figura do romance. Através dele, e não do outro, é que reponta a angústia de Lima Barreto, na sua mocidade.

Em um trecho do livro ele diz:

“- Longe de me confortar, a educação que recebi só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado, com ódio e, talvez despeitos! Por que ma deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos?”.

Aí está refletido o estado depressivo de Lima Barreto, a essa altura um alcoólatra.

A DIFICULDADE PARA PUBLICAR O PRIMEIRO LIVRO

O ano de 1908 foi todo consumido em tentativas e procuras inúteis de um editor. Parecia improvável que aparecesse quem quisesse publicar seus romances. Foi então que lhe ocorreu apelar para um editor em Portugal. João Pereira Barreto, que pertencera ao grupo da revista Floreal, poeta sem mérito, conseguira editar o seu livro de versos na Livraria Clássica de Lisboa. Lima Barreto então enviou os seus originais para a apreciação do editor português.Pereira Barreto ofereceu-se para escrever uma carta de apresentação ao tal editor português e Lima aceitou, era o máximo que poderia aceitar como favor, pois continuava muito orgulhoso, mas não lhe restava outra alternativa. Foi então que fez sua estréia literária.

Um editor português passou os originais a um revisor que corrigiu alguns erros de português, que eram freqüentes em Lima, e que eram também difíceis de aceitar, devido seu extremo orgulho. Assim mesmo, demorou muito para que o editor português respondesse e no mês seguinte à carta que Barreto havia endereçado ao editor, ele recebeu os primeiros exemplares da brochura de pouco mais de 300 páginas do livro Isaías Caminha, envolta em uma capa cor de vinho. Agora sim! Tinha um livro publicado!

Em meados de 1911, o Jornal do Commercio (edição da tarde), iniciava a publicação, em folhetins, do Triste fim de Policarpo Quaresma. Entregue à vida boêmia já nessa ocasião, Lima Barreto escreveu, em menos de três meses o mais bem feito e equilibrado de seus romances.

Por seu próprio temperamento, ele era incapaz de um esforço continuado, em que pudesse medir com paciência altos e baixos, dosar palavras e emoções.O melhor de sua obra está no ímpeto criador, na descrição da realidade da vida, no seu prosaísmo e na sua poesia.

AUGE E DECADÊNCIA

Aos 30 anos de idade, Lima Barreto atinge o ponto mais alto de sua carreira literária e produz suas obras – primas.”A nova Califórnia”, é de novembro de 1910.”O homem que sabia Javanês”, de abril de 1911. Foi exatamente no intervalo desses romances que escreveu O Triste fim de Policarpo Quaresma.

Trabalhou muito, com paixão, entregando-se por inteiro a sua composição.É essa a impressão que fica se fizermos um exame atento da obra, impressão fortalecida pela informação do próprio autor de que escrevera o romance em apenas dois meses e meio.Nessa época, sua vida familiar era muito tensa, pois seu amado pai já dava sinais de loucura.

Com isso Lima Barreto entregava-se mais e mais à bebida e isso explica, de certo modo, o seu comportamento na frase que foi a mais fecunda da sua existência literária.

“Muitas causas influíram para que eu viesse a beber; mas, de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação, de uma catástrofe doméstica sempre presente. Adivinhava a morte de meu pai e eu sem dinheiro para enterrá-lo; previa moléstias com tratamento caro e eu sem recursos; amedrontava-me com uma demissão e eu sem fortes conhecimentos que me arranjassem colocação condigna com a minha instrução; e eu me aborrecia e procurava distrair-me, ficar na cidade, avançar pela noite adentro; e assim conheci o chopp, o whisky, as noitadas, amanhecendo na casa deste ou daquele”.

Seu estado de espírito agrava-se mais ainda porque com a publicação de Isaías Caminha, ele sentiu-se dominado por um sentimento de frustração, porque a crítica não reagiu como ele esperava, os jornais não tomaram conhecimento da estréia do escritor, talvez porque ele no romance criticava pessoas e hábitos da imprensa. Ele sabia que só os hábeis e espertos conseguiam vencer e que o prestígio intelectual nunca seria conquistado pelo próprio valor, mas sim com muita astúcia e até charlatanismo o que não era o seu feitio.

A alegria do primeiro livro desapareceu e ele continuou a ser o desprezado de sempre, com todas as portas fechadas, sem glória e sem dinheiro, sem posição e sem amor, impotente para vencer a resistência dos donos da literatura e também atormentado pela dor da tragédia doméstica, com a loucura de seu querido pai.

Esse modo de ver as coisas acabou inspirando-o, justamente na época do fracasso de Isaías Caminha e do sucesso de A Esfinge, um de seus melhores contos, “O homem que sabia javanês”, história de um mistificador que se torna uma glória nacional. Castelo, o professor de javanês, era de Canavieiras, e construíra toda a sua reputação como especialista em línguas malaio-polinésia, as quais conhecia apenas da leitura da Grande Encyclopédie.

Entretanto cada vez mais se entregava à bebida, já não bastava mais chopp ou uísque, agora ele recorria à cachaça e começa a frequentar botequins, embriagando-se todos os dias e com o tempo se transforma em um trapo humano. O uso desregrado do álcool, não demorou muito para afetar sua saúde, pois além de beber muito, alimentava-se mal e foi então sucumbindo aos poucos no desregramento da vida boêmia.

Desaparecera por completo o viço da juventude e esse homem de trinta e poucos anos tornara-se um mulato gordo e vermelhão, transpirando cachaça. Caía na sarjeta e dormia como qualquer pobre diabo das ruas.

Era também muito estranho seu comportamento com as mulheres.Tímido, dominado pelo complexo da cor, jamais conheceu o amor na sua plenitude.Segundo seus amigos mais íntimos, ele só namorou uma única vez, aos 16 anos. De lá para cá pouco se soube da vida amorosa do escritor que se resumiu em encontros em bordéis, dos quais sempre saía insatisfeito e enojado.

Entretanto, será ainda de sua obra de ficção que tiraremos a confissão do delírio que o levou ao hospício pela primeira vez.
Em o Cemitério dos Vivos, ele não dissimula, na figura do protagonista principal, os seus próprios traços pessoais, e, mais do que isso, ele nem se dá ao trabalho de esconder as circunstâncias que determinariam a ambos, criador e à criatura, o mesmo destino.Como Lima Barreto, o personagem Vicente Mascarenhas tinha trinta e poucos anos, a fama de bêbado e era exatamente como ele, “tolerado na repartição”, que o aborrecia.

A autoconfissão, através do personagem, foi confirmada pelo irmão do escritor. O que está dito pelo personagem Mascarenhas, é o seguinte: “Depois de beber durante uma semana, certa noite, amanheci de tal forma gritando e o dia seguinte passei de tal forma cheio de terrores, que o meu sobrinho André, não teve outro remédio senão pedir à polícia que me levasse para o hospício”.

Foi exatamente o que se passou.Apenas André, o sobrinho, deve ser substituído por Carlindo, irmão do escritor.Por isso, o trecho acima transcrito, pode perfeitamente ser incorporado ao seu Diário Íntimo. Lima Barreto nunca perdoou seu irmão por tê-lo recolhido ao hospício pela mão da polícia, como indigente. Ao deixar o hospício, como para se livrar dos ressentimentos, escreveu um conto que se intitulou “Como o homem chegou”. É a história de um louco inofensivo que tinha mania de Astronomia e abandonara a terra pelo céu inacessível.

A loucura era, para o escritor, um espetáculo familiar, pois desde menino habituara-se à convivência com essa espécie de doentes até quando seu pai, antigo enfermeiro de loucos adoeceu irremediavelmente.

Depois da alta no hospício, Lima Barreto não voltou ao trabalho na Repartição e refugiou-se num quarto para escrever.Foi então que ele escreveu Numa e a ninfa em apenas vinte e cinco dias, conforme deixou registrado em seu Diário Íntimo, sem deixar de registrar um detalhe: “Não copiei nem recopiei sequer um capítulo”.

Nesse romance, ele faz desfilar uma porção de caricaturas de figurões da política, das quais a maioria caiu no merecido esquecimento. Há também a evocação sentimental da Cidade Nova, ponto de partida da zona suburbana, e a engraçada descrição da passeata dos índios tupiniquins em plena Avenida. Em todo o livro a figura mais interessante é a do Dr. Bogóloff, um charlatão, através do qual o escritor faz a pregação de suas idéias libertárias. Longe de ser um grande livro, Numa e a ninfa, serve, entretanto como ponto de referência na carreira literária de Lima Barreto.

RECONHECIMENTO E ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

Lima Barreto passa então a preocupar-se exclusivamente em encontrar que quisesse editar o livro Triste fim de Policarpo Quaresma, pois fora escrito não para ganhar dinheiro, mas sim como uma obra de arte.Para as despesas da edição, ele pediu dinheiro emprestado e assim Policarpo Quaresma não tardou em aparecer nas livrarias: uma pobre brochura, em papel ruim, que reunia em um só volume o romance e alguns dos seus melhores contos, inclusive “O homem que sabia javanês” e “A nova Califórnia”.

Desta vez a imprensa acolheu muitíssimo bem o livro, os jornais passaram a festejar o romancista e ele passa então a ser considerado por muitos como o legítimo sucessor da glória de Machado de Assis. O livro é cercado de muitos elogios e Lima além de Machado de Assis é comparado aos romancistas ingleses. Entretanto Lima Barreto não gostava de ser comparado a Machado de Assis.

Mais de uma vez, em encontros de porta de livraria Barreto manifestou o seu desapreço à obra de Machado de Assis.Austregésilo de Ataíde conta que ele se enfurecia à simples citação do nome do mestre.”Machado é um falso em tudo – dizia. Não tem naturalidade. Inventa tipos sem nenhuma vida”.

Lima Barreto, vítima de uma clavícula quebrada, numa crise de alcoolismo fica dois meses internado.Nesse período acontecem duas coisas importantes na vida do escritor o contrato com Monteiro Lobato para a publicação do Vida e morte de M.J.Gonzaga de Sá e o decreto do presidente da República, aposentando-o da Secretaria da Guerra.

Entusiasmado com o seu sucesso, ele resolve candidatar-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, vaga essa deixada por Emílio de Menezes.Porém a Academia não lhe quis abrir as portas, os concorrentes eram Humberto Campos e Eduardo Rocha, ambos muito prestigiados.Ele conseguiu apenas dois votos no primeiro escrutínio e apenas um voto nos restantes.

Este voto constante foi atribuído a João Ribeiro, o mestre cético e irônico, que na véspera da votação havia escrito um artigo cheio de respeito sobre a obra Gonzaga de Sá, colocando Barreto entre os poucos, que poderiam disputar a vaga na Academia.Ele diz em sua crítica que apesar da vida boêmia do escritor, que contrastava com o ambiente da Academia, apesar de sua vida desregrada, apesar de tudo, concluiu o crítico no seu artigo: ”Lima Barreto entraria pela porta principal e talvez pela minha mão se fosse ela firme e eu pudesse estender-lha”.

Lima Barreto, escreve então a Monteiro Lobato dizendo que nunca fora sinceramente candidato e a primeira vez que tinha sido, foi quando Hélio Lobo se apresentara e ele então se candidatou só para lhe fazer mal, para vingar-se das desfeitas que ele lhe fizera, tendo-o tratado antes com muita ironia.Ele disse também na carta:

“Sei bem que não dou para a Academia e a reputação da minha vida urbana não se coaduna com a sua respeitabilidade. Por conta própria eu deixei de freqüentar casas de cerimônia, como é que eu podia pretender a Academia?”

Mais de uma vez atacou rudemente a Academia, porém tinha muito respeito à instituição.Somente se rebelava quando entendia que se fazia injustiças, nomeando médicos, políticos e militares que pouco ou quase nada tinham a ver com a literatura.

Lima Barreto, desejava muito conseguir a glória literária, ainda que fosse através de um diploma. O que fora na juventude um sonho intensamente vivido se transforma, agora, na necessidade de uma reparação a um escritor, fiel à sua vocação, que construíra a sua obra a custa de tantos sacrifícios, e que, ao fim de tudo, se sentia espoliado do prestígio, do reconhecimento, da glória, pois em sua opinião a vida só sabia premiar os medíocres e os espertos.

Na última tentativa que fez para ingressar na Academia disse:

“-Se não disponho do Correio da Manhã ou do O Jornal para me estamparem o nome e o retrato, sou alguma coisa nas letras brasileiras e ocultarem meu nome ou o desmerecerem, é uma injustiça contra a qual eu me levanto com todas as armas ao meu alcance”.

“Eu sou escritor e, seja grande ou pequeno, tenho direito a pleitear as recompensas que o Brasil dá aos que se distinguem na literatura”.

Apesar de não ser menino, não estou disposto a sofrer injúrias nem a me deixar aniquilar pelas gritarias dos jornais.
Eu não temo abaixo-assinados em matéria de letras.”

Entretanto, a Academia não lhe reconheceria o valor.

APOSENTADORIA, TRABALHO E LOUCURA

Depois de sua aposentadoria, a partir de 1919, é que Barreto intensifica sua colaboração na imprensa, escrevendo na Gazeta, no A B C, no jornal Hoje, no Rio Jornal, no jornal A Notícia, O País e na Gazeta de Notícias, tirando dessas atividades seu sustento.Recebia pelos artigos 50 mil réis.

Atento a tudo criticava severamente os costumes brasileiros, dizia que os políticos e literatos estavam nas posições de comando nessa República das Bruzundangas.

Ele tinha conhecimento de tudo, estava sempre atualizado com tudo, era brutal às vezes, porém sempre sincero. Nunca deixou de opinar sobre os acontecimentos mais importantes do seu tempo, como por exemplo, a Revolução Russa, a Conferência de Versalhes, a eleição de Epitácio Pessoa, as greves operárias, o feminismo, a candidatura de Artur Bernardes, o futebol, a carestia, etc.

Apoiou Medeiros e Albuquerque na sua campanha contra a venda aos Estados Unidos dos navios alemães, apreendidos pelo Brasil, durante a guerra, protesta quando a Folha tem a sua edição apreendida pela polícia, protesta contra a apreensão dos jornais anarquistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, O Spartacus e A Plebe.Acusa os aproveitadores da guerra, que enriqueceram subitamente à custa da fome do povo, provocando a alta do custo de vida.

Enfim, era um homem que sempre expunha suas idéias, sem temer as conseqüências.Era fiel às suas idéias, e por isso, permaneceu indiferente na campanha política de 1919, quando Rui Barbosa, disputava pela segunda vez a presidência da República, tendo Epitácio Pessoa como adversário.

Em fins de 1919, novamente Barreto foi conduzido em um carro de polícia para o Hospício, durante uma nova crise de loucura.Passara toda uma noite, precisamente na noite de Natal, errando pelos subúrbios, em pleno delírio. Isso novamente confirma o seu estado depressivo, a sua solidão e como na realidade se sentia infeliz.

Ele mesmo descreve a crise que o fez andar ruas e ruas pela noite afora,
“No começo eu gritava, gesticulava, insultava, descompunha… Só a minha agitação, uma frase ou outra desconexa, um gesto sem explicação denunciavam que eu não estava na minha razão”.

Com a roupa suja e rasgada, chegou finalmente na porta da venda do Sr. Ventura, onde já o esperava seu irmão Carlindo, que tentou em vão levá-lo de volta para casa.

Sua alucinação era tanta que ele só via inimigos diante de si.Ela aponta para a rua e grita contra figuras inexistentes, criadas na sua imaginação doentia.

Delirava como o pai, doente a mais de quinze anos.

Estaria Lima Barreto como o pai, perdido para sempre? Não.Trinta dias de tratamento bastaram para que lhe dessem alta, permitindo que ele retornasse a sua atividade de escritor.

O INÍCIO DO FIM

No Hospício, o médico que o examinara, anotou as seguintes observações sobre o doente:
“-É um indivíduo precocemente envelhecido, de olhar amortecido, perfil de bebedor, regularmente nutrido, perfeitamente orientado no tempo, confessa ser alcoólatra, compreende ser um vício muito prejudicial, porém, apesar dos esforços, não consegue deixar a bebida”.

Por este abuso, já passou três meses no Pavilhão Pinel, o que, entretanto nada adiantou.Suas perturbações aparecem em forma de delírios.

Indivíduo de cultura intelectual, diz-se escritor, tendo já quatro romances editados, e é o atual colaborador da Gazeta.
Fala em seus delírios, reconhecendo perfeitamente o fundo doentio deles e diz-se certo que tal só sucedeu graças às suas perturbações mentais.

Geralmente, a amnésia em relação às fases da embriaguez é completa, porém estes últimos delírios, passaram-se sem que estivesse em completo elitismo, por isso foi capaz de descreve-los.

Mãe falecida tuberculosa.Pai vivo, aposentado no serviço administrativo das Colônias de Assistência aos Alienados, há 18 anos não sai de casa, preso de psicastenia ou lipemania, como informa o examinado.

São notáveis os tremores fibrilares da língua e das extremidades digitais apresentados pelo paciente quando fala.

O escritor sentiu a frieza que o médico lhe dispensara, para quem, conforme deixou registrado em seu Diário Íntimo, os seus méritos literários de nada valiam.

Felizmente, logo ele foi transferido para a seção Calmeil, cujo médico, sensível às coisas da cultura e da arte, lhe dispensou cuidados especiais ao romancista, que afinal havia entrado naquele hospício como indigente e pelas mãos da polícia.

O médico, que se chamava Dr. Humberto Gotuzzo era na realidade o oposto de Barreto, entretanto, ele conhecia suas obras e passou a citá-las, puxando por sua vaidade, o médico já havia notado que se tratava de um paciente difícil, porém ganhou sua simpatia, inclusive oferecendo seu gabinete para que Barreto escrevesse suas cartas e seu diário. Deu-lhe livros e jornais.

Diante de tanta bondade, Barreto foi cedendo aos poucos, sem permitir, contudo maiores intimidades.Colocava-o sempre à distância, não abrindo mão do tratamento cerimonioso de “doutor”.

Escreveu em seu diário sobre o Dr. Gotuzzo:
“-É uma boa alma, não me achou muito arruinado e, muito polidamente, deu-me conselhos para reagir contra meu vício”.
Neste ponto de seu “Diário do Hospício”, o romancista confessa a sua luta para dominar o vício, que o estava aniquilando.
Nesse diário Barreto pode anotar suas impressões sobra a vida no manicômio, para um livro que pretendia escrever logo que saísse, conforme anunciara em uma entrevista à imprensa, quando um repórter foi ouví-lo, atraído por uma foto em um jornal, onde aparecia com o uniforme usado no estabelecimento, cabelos despenteados e os dedos sujos de tinta, um sinal evidente de que escrevia no momento da foto.

Essa entrevista foi publicada nos últimos dias da sua permanência no hospital e nada tinha de sensacionalismo barato.Era sim um documento do maior interesse para o estudo da personalidade do escritor e de seu drama íntimo.
Rapidamente, Lima Barreto se aproximava do fim. Ainda não havia completado 40 anos e já parecia um velho.Um velho triste e desiludido.

Seus cabelos eram brancos e em seu rosto raramente havia um sorriso. Certa vez, outro escritor falou da impressionante decadência física a que chegara o romancista.Dizia que após ler Isaías Caminha, Policarpo Quaresma e Gonzaga de Sá, não podia compreender como aquele grande escritor, de tão puro estilo, tão natural, fosse o mesmo Lima, de barba por fazer, chapéu de palhinha encardida, camisa suja, roupa malcheirosa enfim um trapo humano. Como tanta grandeza e pureza podiam viver sob aquela aparência áspera daquele mulato vermelho, porque a vermelhidão de Lima Barreto impressionava a todos, pois não se sabia se era álcool ou febre. Enfim, ele estava se despedindo da vida, abolindo todas as conveniências.
Monteiro Lobato, que viera ao Rio especialmente para conhecê-lo na época do lançamento do romance Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá, localizou Barreto em um beco no centro da cidade, em tal estado que não teve ânimo para se apresentar àquele que considerava o maior de todos os nossos romancistas.

Todos o evitavam, procuravam desviar daquele fantasma do passado. Apenas alguns amigos lembravam-se dele. Dizem que João Luiz Ferreira, companheiro de mocidade, a quem Lima dedicou o romance Triste fim de Policarpo Quaresma, quando foi eleito governador do Piauí, o teria convidado para ocupar o cargo de diretor da Imprensa Oficial do Estado, porém ele deu uma desculpa, interpretando que o convite era um gesto de piedade e ele continuava muito orgulhoso, mesmo na desgraça, e também não seria capaz de morar em outra cidade que não fosse o Rio, principalmente por causa de seu pai, velho e doente que precisava de seu apoio e ele continuava muito ligado ao pai. Nos últimos anos de sua vida, Barreto foi fiel à sua vocação de escritor e ao mesmo tempo em que lutava para livrar-se do vício, agarrava-se à literatura como uma tábua de salvação.
Afinal tudo lhe fora recusado: O diploma de doutor, a ascensão na burocracia, o prêmio da Academia e este sentimento que misturava injustiça e as marcas de seu desajustamento, dava-lhe a sensação que havia falhado para o mundo e para si mesmo.Sentia-se derrotado, pois nunca havia amado, nunca tivera um amor e no final da vida ele desabafou que a ausência de um amor havia sido a origem da catástrofe que, tendo desabado na juventude, acabaria na sucessão de desastres que foi sua vida.

Ele viveu sem amor.Sem o amor de mãe, sem o amor de uma mulher, fosse amante ou esposa, o pai adoecera quando ele mais precisava dele, não se dava bem com os outros dois irmãos, um era Guarda Civil e o outro Condutor de Trens, que desaprovavam muito sua maneira de viver.

Restava-lhe apenas a irmã Evangelina, que era a única pessoa da família que lhe dava atenção, fazendo-o sentir-se de que não era de todo abandonado e só. Porém a irmã tinha que dividir seu carinho com o pai doente, pois era como uma enfermeira para ele.

A MORTE

Sentindo que a morte se aproximava, organizou seus papéis, com o propósito de terminar os romances que estavam apenas esboçados, tinha a intenção de selecionar e reunir os volumes de tudo que havia escrito para revistas e jornais. Criou então uma biblioteca, com a ideia de fazer um catálogo.Chegou a relacionar oitocentas obras, com os respectivos lugares em que se encontravam distribuídas pelas estantes.

A biblioteca era pequena, mas organizada.Continha a “Limana”, como ele carinhosamente a chamava.Lá se encontrava boa coleção de livros franceses e portugueses e alguns volumes que ele guardava por puro sentimentalismo.

A Limana reflete a própria formação intelectual de Lima, pois ali estavam seus autores prediletos, passando por Balzac, Cervantes, Tolstoi, Machado de Assis, Monteiro Lobato, dentre tantos outros.

Passou então a trabalhar freneticamente, semanas a fio, sem sair de casa, escrevendo sem parar, sua letra quase não dava para entender, o que levava os revisores e linotipistas ao desespero.Ninguém ousava interrompê-lo, a não ser sua irmã que lhe levava ao quarto um prato de comida.

Ele parecia dominado pelo pensamento de terminar tudo o que havia começado, todos os seus projetos.

Na organização da Limana, colocou manuscritos e originais como Clara dos Anjos, vários papéis, originais publicados, originais a publicar, queria deixar tudo pronto antes que fosse tarde demais, parecia querer explicar, pela pressa com que trabalhava, os descuidos, as repetições e os desconchavos de seus últimos livros.

A verdade é que nos três últimos anos de sua vida, ele concluiu cinco volumes: Histórias e sonhos, Marginalia, Feiras e mafuás, Bagatelas e Clara dos Anjos, porém não chegou a ver nenhum desses livros publicados.

Em apenas dois meses terminou de escrever Clara dos Anjos, reduzindo quase pela metade o romance de seu esboço inicial, ficando um romance fraco, sem o glamour dos primeiros romances, notando-se a precariedade quando comparado aos esboços originais.

Entretanto, Lima Barreto quer editá-lo sem demora e procura então Francisco Sorrentino, um livreiro que era seu grande amigo e chega a anunciar em uma entrevista concedida ao Rio-Jornal o primeiro capítulo do Livro, ”O Carteiro”, com a observação de que se tratava de uma página inédita do romance Clara dos Anjos que sairia brevemente.

Porém, tudo ficou apenas no projeto.Ele continuou encarcerado em casa, sempre entregue ao trabalho, com a saúde bastante abalada, pois o álcool lhe consumira todas as energias vitais, minara-lhe todo o organismo.

Estava Lima Barreto com 41 anos quando decidiu escrever sua última obra, porém já era tarde demais.Pensou em acabar O Cemitério dos Vivos, romance que iniciara em sua segunda estada no hospício e confidenciou à sua irmã que não desejava morrer sem terminá-lo.

Dos capítulos que deixou, os dois primeiros são espetaculares, pois mostram um Lima Barreto diferente, despojado, voltado para temas mais profundos.

O Cemitério dos Vivos constituiria, na verdade, a terceira e última parte de suas confissões, iniciadas com Recordações de Isaías Caminha e depois continuadas em Vida e Morte de Gonzaga de Sá.

Era o coroamento de uma obra, toda ela dedicada à explicação de sua própria personalidade. Entretanto foi impossível concluir o Cemitério dos Vivos, porque seu estado de saúde se agravava dia a dia e o estado de saúde de seu pai a quem ele tanto amava estava também muito abalado. Perto dos 70 anos, a demência de seu pai voltava a manifestar-se com os mesmos sintomas do início, tornando mais sombria e triste ainda a vida na Vila Quilombo, que era o nome dado por Barreto à sua casa.

Em meio a todos estes desgostos, acrescidos pelas dificuldades financeiras, Lima Barreto não podia pensar em terminar seus romances, pois tinha que continuar a escrever para os jornais, para poder manter-se, uma vez que o dinheiro da aposentadoria mal dava para pagar o aluguel da casa. Ele escreveu uma vez em seu diário que se envergonhava de escrever banalidades para sobreviver, que se aborrecia em empregar, na sua idade, a sua inteligência com tantas futilidades. Na realidade, a morte de Lima Barreto acabou sendo inesperada, apesar de sua saúde frágil.

Pela manhã, sua irmã Evangelina sentou-se à beira da cama do irmão, tomou-lhe o pulso e a temperatura e constatou que ele não tinha febre e pensou que mais uns dias de cama e estaria em condições de levantar-se. Ela estava muito triste, não pelo irmão, mas sim pelo pai que tinha suas horas contadas.Evangelina chorou toda sua angústia no ombro do irmão. Quando ia se retirando, Barreto a deteve e pediu que ela o perdoasse por tudo que ele havia feito de sua própria vida.

Á tardinha, Evangelina voltou ao quarto do irmão, que repousava tranqüilo, em meio a jornais, livros e revistas espalhados na cama. Trazia-lhe uma xícara de chá. Trocaram poucas palavras, tendo Lima perguntado pelo pai que estava pior. Evangelina disse que deveria voltar, pois o pai não poderia ficar sozinho.

Lima Barreto, sentou-se na cama, enquanto Evangelina colocava a bandeja com o chá para que ele pudesse se alimentar, saindo logo em seguida.Uma hora depois, quando retornou ao quarto, encontrou Barreto morto.Continuava sentado, abraçado a um volume da Revue des Deux Mondes. Era dia de Todos os Santos ,1º de novembro de 1922 e Lima estava com  41 anos de idade, chovia muito.

No centro da sala de visitas, armaram o serviço fúnebre.O enterro seria no dia seguinte no Cemitério São João Batista.
À noite começou a chegar gente para o velório.Gente desconhecida dos subúrbios, amigos humildes dos botequins.

Certa hora apareceu um homem desconhecido com um pequeno ramalhete de rosas que espalhou pelo caixão, e depois muito emocionado descobriu-lhe o rosto e beijou-lhe a testa.Uma pessoa da família quis saber quem era e ele disse:
“-Não sou ninguém senhora, sou apenas um homem que leu e amou esse grande amigo dos desgraçados”.

À tarde o enterro saiu e ao longo do caminho várias pessoas foram se incorporando atrás do caixão, silenciosamente. Eram pretos em manga de camisa, rapazes estudantes, crianças da vizinhança( muitos afilhados do escritor), comerciantes do bairro, alguns amigos importantes como Félix Pacheco, Olegário Mariano dentre outros.

No seu leito moribundo, João Henriques, seu pai, sentira que qualquer coisa diferente ocorrera na casa e como que recobrando a razão por um instante pergunta a Evangelina o que havia acontecido e se Afonso havia morrido.

Evangelina procurou acalmá-lo, mas em vão.João Henriques entrou em agonia e morreu quarenta e oito horas depois do filho.Foi enterrado na mesma campa e, no túmulo humilde, eles repousam para sempre, novamente unidos, na morte como na vida.

PALAVRAS FINAIS

Enfim, excelentíssimos Confrades e Confreiras, membros do sodalício, escolhi Lima Barreto para meu patrono porque ele foi um homem com inteligência super dotada, nascido de uma família pobre, que se identificava muito com pessoas humildes e que infelizmente não teve estrutura para suportar as adversidades da vida, o preconceito, o racismo dentre tantas outras, e também o fato de ele não ter conseguido realizar seu maior sonho como literário, que era ser membro da Academia Brasileira de Letras.Sua fama cresceu após sua morte, sendo publicadas as suas obras em 17 volumes, em 1956 e foram traduzidas em 7 idiomas.

Ele se desanimava muito e o desânimo é algo dentro de nós que começa a murchar. Talvez ele nunca tenha dito isso em voz alta, porém é certo que ele colocava sempre seus sentimentos em suas escritas.Foi o pioneiro no Brasil, do romance social.
Eu sempre lutei através de meus artigos contra o preconceito, as injustiças, principalmente as sociais, a violência, e o vício, como prego em meu último livro “Somos todos Responsáveis (Crônicas de um Brasil Carente)”.

O desenvolvimento de um país só se faz com educação, cultura, trabalho, respeito, família e com Deus.

Porém, sei perfeitamente que às vezes as pessoas não têm força suficiente para se livrar desses traumas e quase sempre não contam com a ajuda de ninguém. Todos nós sabemos que conviver com pessoas bem sucedidas, no apogeu da vida é muito fácil. Difícil é reerguer um ser humano, dar-lhe a mão quando ele está no fundo do poço. E foi isso que aconteceu com Lima Barreto. No final de sua vida eram poucos os seus amigos.

É difícil fazer as pessoas entenderem que quando fracassam por alguma razão, isso não significa que elas são inferiores, mas sim, que elas não são perfeitas, nenhum de nós é. Significa que elas sempre devem lutar e nunca desistir, que apesar do fracasso, do preconceito, da condição financeira, elas nunca desperdiçaram suas vidas na tentativa de fazer algo, elas devem sim se animar, pois tudo o que hoje sabemos, aprendemos com os erros do passado, pois quem não comete erros é aquele que não fez coisa alguma.

Lima Barreto já dizia em seu Diário íntimo: “Desgraçado nascimento tive eu! Cheio de aptidões, de boas qualidades, de grandes e poderosos defeitos. Vou morrer sem nada ter feito. Seria uma grande vida, se tivesse feito grandes obras; mas nem isso fiz”.

Lima Barreto é, no entanto, o exemplo típico do homem que não teve força, nem ajuda para lutar, porém, nos deixou um legado de cultura e realidade de vida, através de sua obra maravilhosa, o que me permite terminar esse trabalho com um pensamento de Carnegie.

“É praticamente uma lei da vida que quando uma porta se fecha para nós, outra se abre. A dificuldade está em que, freqüentemente ficamos olhando com pesar a porta fechada, que não vemos a que se abriu”.

Agradeço muito a minha família, em especial a minha esposa, meus filhos, ao meu neto Felipe e ao meu futuro neto Matheus que está chegando, meus amigos incentivadores e especialmente a Deus por estar vivendo este momento mágico e feliz.Não esquecerei jamais meus pais falecidos, pelos conselhos recebidos e pelo exemplo que me deram. A eles quero agradecer de coração. Tenho certeza que eles estão aqui conosco recebendo esta honra. Reverencio também meu sogro, falecido em setembro último e do qual muito gostava.

A presença de vocês me orgulha e me impulsiona. A todos vocês devo esta honra.

Os que escrevem e são escolhidos, ingressam na Academia e tornam-se imortais. Eu não mereço.
Graças a Deus, sempre escrevi para servir aos vivos. Coloco a minha alma em tudo o que faço, quero continuar pensando e agindo assim.

Meus temas são sociais e escrevo artigos sempre esperando melhorar a vida dos mais sofridos, dos mais carentes e ajudar o meu país.

Se essas escritas forem úteis depois de minha morte, melhor.

Não mereço esta honra, mas a recebo, em homenagem aos meus familiares e amigos que têm me ajudado.
Realmente estou muito orgulhoso, feliz e grato a todos vocês.

Perguntaram-me em tom de brincadeira como é ser imortal, e eu respondi de forma séria: Ser imortal acredito que é dar vida ao sonho, é realizar-se escrevendo sobre o social, sugerindo soluções, tentando ajudar o próximo, é envelhecer com vida, é gostar deste nosso Brasil, é adorar a família, é respeitar os amigos e amar todos vocês.

Muito Obrigado

Milton Bigucci

Data: 29 de outubro de 2003
Local: Rua Java, 239-Jardim do Mar -São Bernardo do Campo -SP-Brasil
(Associação dos Construtores, Imobiliárias e Incorporadoras do Grande ABC).


Família: O alicerce da humanidade

Milton Bigucci *

Sempre que nasce uma criança vejo a alegria estampada nos olhos dos pais ou avós. É a esperança e o desejo de que seja um grande homem ou mulher, estudioso, honesto, empreendedor, feliz e especialmente com saúde.
Todos esperam que ele seja um líder, humilde e trabalhador. Não há exceções. Família é isso, esperança, união e amor.
Quando vejo famílias crescendo em união eu vibro. Não aceito brigas, ira ou inveja. Há sempre necessidade de muito bom senso, de todos, para que uma família continue unida e feliz. Se uma laranja podre tentar barrar essa união, pois cada um tem um temperamento, é importante que os demais membros se unam e não tomem partido que vise desestabilizar essa instituição. Não é fácil. E nem difícil. Basta ter bom senso.
Quando vejo famílias em festas, seja de aniversários, casamento ou qualquer outro motivo, eu vibro.
Nas doenças, todos se dando as mãos, rezando a Deus, mostram corações unidos.
Reparem que as famílias unidas serão sempre mais vitoriosas. Não deveria haver ódio entre irmãos, pais, avós, tios, sobrinhos, noras, genros ou cunhados (as). Quando há é por motivo fútil e prejudica todos.
Quando compro um terreno para nossa empresa, às vezes, há dezenas de herdeiros que se sentam longe uns dos outros, com verdadeiro ódio, loucos para ver o dinheiro e sumir, cada um para seu lado. Quando se cumprimentam é por mera obrigação. Outros nem se cumprimentam e outros nem sentam e nem assinam prejudicando toda uma família. Normalmente não são irmãos, mas são cunhados (as), noras e genros. Há exceções. Triste para um pai ou mãe, já falecidos ver “do além” essas cenas de briga.
Como sou otimista por natureza, acredito que essa desunião seja exceção. Graças a Deus, pois o mundo sem violência depende das famílias unidas. A desunião traz violência física e emocional.
As escolas devem ter como meta, além de ensinar, manter as crianças e adolescentes unidos e em boa paz, sempre zelando pelas famílias, alicerce do mundo sadio.
As mães têm papel fundamental em manter a família com amor, e aos pais cabe segurar com mãos fortes a justiça das ações, por menor que seja. Nos pequenos exemplos há os grandes resultados. Administrar os conflitos sempre com bom senso, sem cometer injustiça. É difícil, mas possível. Os pais têm papel relevante nessas ações. Nunca esmoreçam, eles dependem de nós.
Reflita a sua família, caro amigo, e veja o quanto você também pode acrescentar nestas poucas linhas, ensinando-nos. Com certeza muito.
A sobrevivência sadia do mundo depende da família, portanto, do nosso bom senso. Use-o, sem ódio.

MILTON BIGUCCI é presidente da construtora MBigucci e da Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC, membro do Conselho Consultivo Nato do Secovi-SP e seu diretor para a Região do ABC, membro do Conselho Industrial do CIESP, conselheiro vitalício da Associação Comercial de São Paulo, conselheiro nato do Clube Atlético Ypiranga (CAY). Autor dos livros “Caminhos para o Desenvolvimento”, “Somos Todos Responsáveis – Crônicas de um Brasil Carente”, “Construindo uma Sociedade mais Justa”, “Em Busca da Justiça Social”, “50 anos na Construção” e “7 Décadas de Futebol”, e membro da Academia de Letras da Grande São Paulo, cadeira nº 5.